Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

Em busca da informação refinada

A avalancha informativa na web e a crescente preocupação com a contextualização das notícias estão levando cada vez mais pessoas a formarem grupos com o objetivo de trocar informações.

Estes grupos, que os especialistas chamam de comunidades de informação, ganharam um novo ímpeto desde o surgimento dos weblogs e da chamada mídia hiperlocal, a versão cibernética do jornal de bairro ou de rua.

No mundo inteiro os veículos de comunicação tradicionais como jornais, rádios e TVs estão vivendo momentos difíceis, seja por conta da queda de vendagem e de audiência, seja pelo aumento da desconfiança e insegurança do público em relação às informações recebidas.

Além disso, há um outro fenômeno que está afastando os leitores, ouvintes, telespectadores e navegadores dos veículos onde eles tradicionalmente buscavam as informações que moldavam as suas decisões e opiniões.

É a questão da descontextualização na notícia. Hoje as pessoas começam a descobrir que uma meia verdade é tão enganadora quanto uma completa mentira. O patrulhamento contra noticias falsas é cada vez mais intenso, mas o mesmo já não se pode dizer das informações sem contexto – ou seja, sem a apresentação de causas, conseqüências, interesses e conexões.

A contextualização das informações é um novo e ainda mais complexo desafio à busca de credibilidade por parte da imprensa convencional. É praticamente impossível dar todos os lados de todas as notícias publicadas, bem como situá-las no tempo e no espaço. Cada notícia acabaria ocupando um espaço enorme e inviabilizaria comercialmente o veículo de comunicação.

Se a tendência à contextualização crescer por pressão do público, os jornais, por exemplo, terão que se tornar muito mais seletivos na sua cobertura e buscar nichos de leitores. Estes, por sua vez, por falta de tempo para leitura de vários jornais diferentes, não terão muitas opções fora do compartilhamento de informações através de grupos.

Especificidade de foco

As comunidades de informação surgiram inicialmente nos países escandinavos, depois se propagaram para os Estados Unidos e hoje ganham adeptos até no Brasil, como mostram exemplos como o de um grupo de profissionais liberais, artistas e jornalistas em Florianópolis, em sua maioria ex-moradores do eixo Rio-São Paulo.

Quando ainda ninguém pensava nesta história de comunidades de informação, o cineasta José Frazão e a inglesa Shophy Doyle criaram, em 2002, o grupo que hoje reúne cerca de 25 pessoas. No caso de Florianópolis, a escassez de notícias e de contexto é o motor que gera a aproximação de pessoas que antes estavam expostas a um bombardeio informativo 24 horas por dia.

Mas na Europa e nos Estados Unidos, ocorre justamente o contrário. O escritor Howard Rheingold, numa conferência feita em junho na Universidade de Stanford, na Califórnia, citou pesquisas segundo as quais os moradores de grandes metrópoles estão cada vez mais perdidos no meio da avalancha informativa e acabam recorrendo a amigos, colegas e parentes como parceiros na tentativa de separar o joio do trigo em meio ao tiroteio noticioso diário.

Outra vertente do movimento comunitário é a multiplicação da mídia hiperlocal, em países como os Estados Unidos e Coréia do Sul. São sites informativos no formato weblog com notícias sobre bairros ou mesmo ruas, com informações fornecidas por moradores.

Alguns exemplos desta mídia superfocalizada podem ser encontrados nos arredores de Chicago (EUA) (http://mesh.medill.northwestern.edu/goskokie/) e em Minas Gerais, com o projeto Gemas da Terra (http://www.gemasdaterra.org.br/), ressalvadas as enormes diferenças de acesso à tecnologia.

Avanço significativo

Nos Estados Unidos, o Projeto Políticas pra Liberdade de Expressão (Free Expression Policy Project – FEPP – http://www.fepproject.org/index.html), da Escola de Direito da Universidade de Nova York, divulgou, em maio último, um estudo sobre a liberdade no acesso à informação no qual aborda o tema das comunidades informativas e coloca uma intrigante questão: os grupos de troca de informações terão que aprender a conviver com um dilema: os que crescerem demais perdem densidade na capacidade de entender o que está acontecendo ao seu redor. Já os que optarem por um tamanho reduzido sentirão a falta de diversidade de pontos de vista.

A moda da troca de informações já contaminou mesmo os pesquisadores e especialistas em buscas na web. Eles estão criando comunidades onde o objetivo principal é a ajuda mútua, para achar informações ou para conferir autenticidades. Um modelo deste tipo de comunidade são os grupos vinculados à Southern California Online Users Group (grupo de usuários online do Sul da Califórnia – http://www.scougweb.org/).

O trabalho The Information Commons (A informação como bem comum) considera a experiência das comunidades informativas como um dos grandes avanços em matéria de iniciativas individuais não tuteladas neste início de século. E afirma ela pode repetir o que aconteceu no final do século passado, com o movimento ambientalista. Ou seja, um crescimento sem líderes e sem metas fixas.

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Jornalista e pesquisador de mídia eletrônica; e-mail (cacastilho@brturbo.com)