Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Marcelo Rubens Paiva

‘‘E aí , foi todo mundo pra praia. Eu, a Laura, a Helena, a Dumbo, a Teti, a Titi, a Bi, a Su, a Rô e a Roberta Fragoso Pires de Melo. E de garoto tava o Flávio, o Pedro, o Tuca, o Daniel Lima, o Daniel Ferreira e o Paulinho. Simplesmente, TODO MUNDO!’ Assim Tati começa uma conversa telefônica com, ‘tipo assim’, sua melhor amiga.

É o esquete mais popular de ‘Cócegas’. A simpatia é tanta, que a platéia rola de rir na simples enumeração dos nomes. Tati acha a sua mãe, de 35 anos, a ‘maior velha’ e repete ‘caraca’ e ‘fala sério’ diversas vezes, na cena protagonizada por Heloísa Périssé e dirigida por Sura Berditchevsky, que ganhou versão no ‘Fantástico’.

Por que se ri tanto dessa cena? Há empatia (identificação), o público se reconhece ou reconhece alguém da família? Muitas perguntas se fazem depois do sucesso de uma peça. Mas só há uma certeza: ele não é previsto.

‘Cócegas’ não pára de render. A proeza das duas atrizes cômicas, Ingrid Guimarães e Heloísa, autoras, produtoras e atrizes do espetáculo de uma seqüência de nove esquetes humorísticos, não tem precedentes no teatro brasileiro: lota quando quer, onde quiser, agrada da família Abravanel à Sandy.

Qual o segredo? Uma dica é a química entre as atrizes, que ensaiaram ‘Cócegas’ na casa de Ingrid, rindo uma da outra, até uma vizinha perguntar do que tanto riam. Certa vez, criaram uma coreografia e ficaram três dias rindo. A dupla se conheceu na Oficina de Humor, promovida pela Globo, em que juntaram comediantes para temperar o programa de Chico Anysio. Tal encontro pode ter inspirado um dos esquetes, ‘Pinto e Pingüim’, em que duas atrizes nos camarins de um programa infantil resolvem pelo celular problemas como a infiltração na casa de uma delas.

Outra explicação para o seu sucesso é a essência do espetáculo, que aponta comicamente as trapalhadas e esforços de mulheres modernas, que tentam ser dona-de-casa, mãe, provedor da grana e que ainda têm que se divertir. Tem da professora de ginástica, que costura a camisa do marido enquanto dá aulas, à antítese da mulher contemporânea, a miss Mossoró, Ph.D. em filosofia e física, mas que quer ser reconhecida apenas como uma mulher gostosa.

Dias antes da estréia, Ingrid andava pelos bares do Leblon insegura, consultando os amigos sobre seu projeto. De cult virou indústria.’



HBO
Frank Bruni

‘Em 2005, o Império Romano contra-ataca’, copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 11/04/04

‘Como todo mundo sabe ou pelo menos é capaz de supor, Roma não foi construída em um dia.

Mas a cidade foi erguida em uns poucos meses, resplandecente em seu isopor, fibra de vidro e chapa metálica. Um dos poucos projetos cívicos inacabados, em uma tarde recente, era um trecho da piazza perto do Templo de Vênus, onde o cimento ainda não tinha secado.

‘Pise com cuidado’, alertou Anne Thomopoulos, executiva de primeiro escalão da HBO, mas o aviso veio tarde demais. Lá estava, maculando a paisagem clássica da cidade e expondo seu artifício: uma pegada de sapato que pertencia definitivamente a um período posterior da História.

Thomopoulos riu e prometeu que o defeito seria consertado. Um passo equivocado de um visitante não bastaria para impedir que a HBO concretizasse a mais recente de suas visões excêntricas.

A rede de TV a cabo que fez dos agentes funerários personagens sexy (em ‘Six Feet Under’) e que recentemente começou a desconstruir o western (em ‘Deadwood’) está agora reconstruindo e revivendo a Roma antiga.

Para fazê-lo, a HBO atraiu a BBC a uma parceria, e juntas as duas organizações investiram cerca de US$ 75 milhões para os 12 episódios de uma hora de duração da minissérie ‘Roma’, drama que deve estrear em 2005. Se obtiver sucesso, uma segunda e talvez uma terceira temporada poderão ser produzidas.

A série, além disso, iniciou sua produção na Roma moderna, em parte com base na teoria de que a proximidade estimula a fidelidade histórica, ou pelo menos um simulacro convincente.

‘Eles filmavam ‘Sex and the City’ em Nova York’, diz Thomopoulos. ‘A Família Soprano’ é filmado em Nova Jersey. Há uma textura, uma verossimilhança, que só é possível obter quando filmamos no local real da história.’

A enorme equipe envolvida na filmagem de ‘Roma’ está instalada a cerca de 10 km do centro histórico da cidade, nos famosos estúdios da Cinecittà, onde Federico Fellini dirigia seus filmes e onde, mais recentemente, Mel Gibson filmou boa parte de ‘A Paixão de Cristo’ e Martin Scorsese moldou ‘Gangues de Nova York’. Pedaços do filme de Scorsese ainda existem no estúdio. Se você andar até os limites mais distantes da Roma do ano 51 a.C., subitamente tropeça na Nova York de 1851.

Roma é maior e muito, muito mais brilhante do que se poderia esperar. Está repleta de colunas jônicas e coríntias vermelhas, amarelas, laranjas e pretas.

Joseph Bennett, diretor de arte da produção, diz que esses tons são tão historicamente acurados quanto o branco desbotado pelo tempo dos pilares remanescentes no Fórum, no centro da cidade.

‘Tudo era colorido’, diz Bennett, enquanto guia um repórter em sua visita à versão de Roma que a minissérie apresentará.

Bruno Heller, redator-chefe do programa, explica, no almoço, que a Roma antiga era na verdade uma espécie de mercado a céu aberto, maltrapilho, e não a passarela monocromática de túnicas bem passadas e poses ostentosas que gerações de roteiristas e diretores enfatizaram.

‘A Roma daquele período era mais parecida com Bombaim ou com a Cidade do México’, diz Heller. ‘Era suja e selvagem.’

E isso atraiu a HBO.

Thomopoulos desenvolveu a idéia básica para a série em 1997, depois de assistir a um DVD de ‘I, Claudius’ [Eu, Cláudio], uma minissérie britânica dos anos 70 sobre a Roma antiga. Ela disse que o trabalho despertou seu apetite por mais filmes sobre Roma, com uma abordagem diferente.

Alguns anos mais tarde, conta, Heller foi ao seu escritório em Los Angeles ‘para tentar vender uma idéia relacionada a norte-americanos pobres’. Ela perguntou se ele estaria disposto a desviar suas energias para os pobres da Roma clássica. ‘Eu amo a Roma antiga’, é a resposta que ela relembra.

O conceito era observar a Roma imperial da perspectiva do homem comum, e não do palácio de César. O que emergiu dessa idéia foi uma trama que gira em torno de dois soldados de volta à cidade depois de passarem anos desmembrando gauleses nas guerras.

Um dos soldados ‘está muito preocupado com a possibilidade de que sua mulher lhe tenha sido infiel’, conta Heller.

‘E surgem complicações’, diz Stan Wlodkowski, um dos produtores-executivos da série.

Essas reviravoltas e surpresas não são expressas em latim ou aramaico, mas em inglês relativamente coloquial: uma forma, segundo os criadores da série, de estimular um elenco composto basicamente por atores britânicos desconhecidos.

‘Assim que os atores vestem seus trajes históricos, adotam personalidades bizarras’, diz o diretor Michael Apted.

Apted, cujos créditos como diretor de cinema vão de ‘O Destino Mudou sua Vida’ a ‘007 – O Mundo Não é o Bastante’, foi contratado para dirigir os três primeiros episódios de ‘Roma’.

‘Esse é um dos desafios que temos de enfrentar: o de não produzir um espetáculo bizarro’, diz ele, sentado à mesa do almoço diante de Heller e Wlodowski.

Os criadores da série tomaram o máximo de cuidado para manter a fidelidade ao passado. Montaram uma biblioteca de títulos obscuros sobre o tema, entre os quais diversos que tratam dos gestos físicos dos antigos romanos.

No começo de março, Apted alugou um ônibus e, acompanhado de um grande grupo de atores, viajou até as ruínas de Pompéia, perto de Nápoles, duas horas ao sul da capital italiana.

‘O lugar serve para oferecer uma impressão de como era a vida: a largura de uma rua, o tamanho de uma sala’, diz. ‘Isso permite construir uma imagem inconsciente que se torna parte essencial de tudo que fazemos.’

Bennett disse que durante a criação de esculturas em fibra de vidro para os templos romanos montados no estúdio, a equipe visitou os muitos museus de Roma e usou relíquias reais como referência para as suas reproduções.

April Ferry, a figurinista, estudou a moda do período e fez surpreendentes descobertas.

‘Quem diria que os gauleses usavam roupa xadrez?’, diz ela, caminhando entre as couraças e os trajes que ocupam o seu departamento de guarda-roupa.

Ela disse ter descoberto em livro sobre o erotismo em Pompéia, que diz que as prostitutas romanas usavam blusas de frente-única e bustiês, não muito diferentes dos trajes adotados pelas descendentes modernas. ‘Eles eram pessoas parecidas conosco’, diz.

Bem, nem tanto.

As pesquisas de Ferry também demonstraram que os soldados romanos às vezes afixavam pequenas partes dos corpos de rivais derrotados, entre as quais os órgãos genitais, aos seus elmos de batalha.

Mas havia certa confusão na Roma antiga e em suas cercanias, naquela tarde. O início das filmagens estava marcado para dali a alguns dias, e os preparativos finais estavam em ritmo frenético.

Bennett disse que começara a contemplar a construção dos cenários em setembro, mas que a pedra fundamental, por assim dizer, só fora deitada em novembro.

Apenas quatro meses mais tarde, sua Roma tem um imenso fórum republicano com templos majestosos, sustentados por imensas colunas. O bairro rico da cidade está enfeitado por amplas mansões, revestidas de material que se assemelha a uma pedra macia, e o bairro pobre tem edifícios residenciais de tijolos.

As estruturas parecem firmes ao toque. Não há fachadas falsas ou cenários de cartolina, aqui.

‘Os cenários têm de ostentar uma certa longevidade, como a da antiga Roma’, disse Bennett. Na era da televisão, isso não quer dizer décadas ou séculos, mas a duração de uma série respeitável. Cinco anos bastarão.’



NOVELAS TEENS
Bia Abramo

‘Novelas teens parecem longe da juventude’, copyright Folha de S. Paulo, 11/04/04

‘Parece que veio de fábrica. São os mesmos draminhas psicológicos, os mesmos falsos dilemas morais, o mesmo proselitismo pedagógico. A Bandeirantes estreou recentemente uma novela ‘adolescente’, a produção portuguesa ‘Morangos com Açúcar’, em tudo semelhante a ‘Malhação’.

Talvez a versão d’além-mar seja um tantinho mais pobre de produção e algo mais cafona em termos estéticos, mas as diferenças param por aí. Os adolescentes em questão estudam todos na mesma escola, no equivalente português ao ensino médio no Brasil, preparam-se para o vestibular, apaixonam-se uns pelos outros, não necessariamente uns pelos outros mesmos, despertam para a vida sexual, envolvem-se com comportamentos de risco etc. etc. Os adultos ou são desajeitados e ridículos ou hipócritas ou de uma caretice impossível.

Cá, no Rio de ‘Malhação’, ou lá, no Estoril de ‘Morangos com Açúcar’, parece que a vida dos adolescentes é de um tédio ímpar. Tudo é muito programadinho, até mesmo aquilo que deveria estar no terreno do mais imprevisível: a irrupção da individualidade, o conflito com a autoridade, a afirmação de uma sensibilidade outra.

Ambos querem fazer crer que a adolescência da classe média hoje em dia seja mesmo um fenômeno muito previsível, dada a força das imagens que se cristalizaram em torno daquilo que se imagina que as pessoas vivam entre os 13 e os 20 anos e que foram em parte criadas e alimentadas pelos meios de comunicação. A sensação de previsibilidade aumenta quando se pensa nos seriados americanos que têm adolescentes como protagonistas.

Via de regra, o que acontece com esses jovens ficcionais é que eles e elas cometem lá seus excessinhos, se dão mal, aprendem as lições e voltam ao bom caminho na velocidade de um capítulo ou episódio. A culpa é a palavra-chave da ficção para adolescentes. Os motivos variam, mas o ciclo de excesso-punição-expiação se mantém constante. Nos seriados americanos, o negócio é tão sério que eles sofrem com a mesma solenidade dos adultos. No mundo latino, as coisas são um pouco mais leves, mas o propósito psicopedagógico é o mesmo.

Tanto consenso levanta uma certa desconfiança. Afinal, a adolescência das novelinhas e seriados representa alguma forma de adolescência de fato vivida pelos garotos e garotas ou é o único formato compreendido e admitido pelos adultos?

A ficção para adolescentes da TV quase nunca é capaz de assumir o doloroso e confuso ponto de vista dessa fase, em que impera uma espécie de caos interno e uma incompreensão gigantesca dos mecanismos do mundo, mas ao mesmo tempo uma enorme liberdade de experimentação existencial. A exceção notável e de vida curtíssima foi ‘Minha Vida de Cão’, série estrelada por Claire Danes ainda bem menina nos anos 90.’