
(Foto: Joshua Miranda/Pexels)
Durante anos, consolidou-se a ideia de que a desinformação representa uma espécie de falha no sistema midiático — um desvio corrigível com mais verificação, mais letramento ou mais regulação. Essa leitura, embora confortável, revela-se cada vez mais insuficiente. O que se observa hoje não é um acidente pontual, mas uma engrenagem em pleno funcionamento. A desinformação deixou de ser exceção para se tornar estrutura.
Ao contrário do que se costuma afirmar, não estamos diante de um ambiente comunicacional contaminado por conteúdos falsos que escaparam ao controle. Estamos, antes, diante de um ecossistema que favorece, distribui e amplifica determinadas formas de conteúdo — independentemente de sua veracidade — desde que estas cumpram um critério central: a capacidade de captar e reter atenção. Nesse sentido, a desinformação não rompe com a lógica midiática contemporânea; ela opera exatamente no seu interior.
A centralidade da atenção como recurso econômico ajuda a compreender esse cenário. No contexto do chamado capitalismo de vigilância, descrito por Zuboff (2019), o valor da informação não reside apenas no seu conteúdo, mas na sua capacidade de gerar interação, previsibilidade e comportamento. Conteúdos que provocam indignação, medo ou choque tendem a circular mais rapidamente — e, por isso, tornam-se mais valiosos dentro dessa lógica. A desinformação, nesse quadro, não é um problema técnico: é um ativo funcional.
Essa dinâmica não se limita às plataformas digitais. O próprio campo jornalístico, como já demonstrava Bourdieu (1997), encontra-se atravessado por pressões econômicas e simbólicas que condicionam o que é produzido e como circula. A disputa por visibilidade, audiência e relevância impõe ritmos acelerados e incentiva escolhas editoriais orientadas pelo impacto imediato. Nesse contexto, a fronteira entre informar e capturar atenção torna-se cada vez mais difusa.
É aqui que a leitura de Debord (1997) ganha atualidade renovada. Se, na sociedade do espetáculo, a mediação da realidade por imagens já constituía uma forma de distanciamento do real, hoje assistimos a uma intensificação desse processo. A circulação de conteúdos deixa de depender de sua correspondência com os fatos e passa a ser determinada por sua capacidade de se tornar visível, compartilhável e emocionalmente mobilizador. A verdade, nesse cenário, não desaparece — mas deixa de ser central.
No entanto, reduzir a desinformação a uma questão tecnológica ou econômica seria igualmente simplificador. Há uma dimensão de poder que atravessa todo esse processo. Como sugeria Foucault (1979), a verdade não é um dado absoluto, mas o resultado de regimes discursivos que definem o que pode ser dito, por quem e com que efeitos. A desinformação, nesse sentido, não apenas distorce a realidade: ela participa ativamente na produção de determinadas “verdades” sociais.
Essa produção não é neutra. Ela incide de forma desigual sobre diferentes grupos sociais, contribuindo para a construção de ameaças, inimigos e zonas de suspeição. Os trabalhos de Cohen (2002) ajudam a compreender como determinados discursos midiáticos amplificam medos e produzem “pânicos morais” que legitimam respostas sociais e institucionais desproporcionais. Em contextos marcados por desigualdade, esses processos tendem a recair sobre populações já vulnerabilizadas.
É nesse ponto que a articulação com autores como Wacquant (2009) e Mbembe (2018) se torna particularmente relevante. A desinformação não apenas circula — ela seleciona, reforça e legitima narrativas que incidem sobre certos corpos e territórios. Jovens, pobres e racializados tornam-se, com frequência, alvos privilegiados de discursos que os associam à ameaça, ao desvio ou ao perigo. Nesse sentido, a desinformação opera também como tecnologia de gestão social.
Curiosamente, o público não é apenas vítima desse processo. Como argumenta Jenkins (2009), vivemos em um ambiente em que os próprios usuários participam ativamente da circulação e legitimação dos conteúdos. Compartilhar, comentar ou reagir tornou-se parte integrante da experiência midiática. Isso significa que a desinformação não se impõe apenas de cima para baixo — ela é também reproduzida horizontalmente, muitas vezes sem mediação crítica.
Diante desse cenário, torna-se insuficiente insistir em soluções centradas exclusivamente na verificação de fatos ou na educação midiática. Embora importantes, essas estratégias atuam sobre os efeitos e não sobre as causas. O problema não reside apenas na existência de conteúdos falsos, mas na estrutura que os torna eficazes, visíveis e rentáveis.
Talvez o ponto mais desconfortável dessa discussão seja precisamente este: combater a desinformação implica questionar as bases do próprio sistema midiático contemporâneo. Enquanto a lógica da atenção continuar a organizar a produção e a circulação da informação, a verdade permanecerá subordinada a critérios de visibilidade e impacto.
Nesse sentido, a pergunta que se impõe não é apenas como combater a desinformação, mas até que ponto estamos dispostos a repensar o modelo que a sustenta. Porque, no limite, a desinformação não é um erro a corrigir — é um resultado a compreender.
Referências
Bourdieu, P. (1997). Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Cohen, S. (2002). Folk devils and moral panics. London: Routledge.
Debord, G. (1997). A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.
Foucault, M. (1979). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.
Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência. São Paulo: Aleph.
Mbembe, A. (2018). Necropolítica. São Paulo: n-1 edições.
Wacquant, L. (2009). Punir os pobres. Rio de Janeiro: Revan.
Zuboff, S. (2019). A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
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Cleyton Douglas de Apolonio Vital é investigador em Ciências da Comunicação, lotado no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Desenvolve pesquisas sobre as relações entre mídia, violência e juventude, com enfoque crítico nas representações do jornalismo policial e seus efeitos na construção social do crime, do medo e do desvio.
