Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Sobre o juiz e seu legado

A rotina das metrópoles brasileiras é quase sempre a mesma: correria e estresse alinhados ao trânsito caótico e à constante insuficiência do tempo. Vez por outra somos pegos de surpresa por pessoas e atitudes que parecem desacelerar o ritmo frenético das grandes cidades e nos fazem pensar. Dia desses presenciei um senhor negro trajando terno e gravata num coletivo enquanto outro homem confabulava com o cobrador: “Um negro desses vale mais do que nós, que somos brancos”. Espantada com o pequeno diálogo entre os dois, segui até a universidade, que era meu ponto de parada. Segui pensando.

Cento e vinte e quatro anos após a abolição da escravatura o preconceito ainda se encontra lá, na mentalidade arcaica de uns e outros. Isso tudo, é claro, ao mesmo tempo em que o governo desenvolve campanhas institucionais exibindo negros e brancos em harmonia, criando a falsa ideia de que não existe mais nenhum preconceito. No horário nobre, não se vê nenhuma doméstica loura de olhos claros. Muito pelo contrário: quase sempre quem faz o papel da empregada é uma mulher negra, gorda que tenta passar a imagem de alguém sem instrução. Quando colocam um ator ou atriz afrodescendente em um papel de destaque, este fala de maneira errada e tem traços de ignorância que nenhum outro personagem da trama apresenta. É fato que a convivência entre negros e brancos ficou mais digna e respeitosa nas últimas décadas, mas tentar a todo custo dizer que o preconceito acabou é uma mentira descabida.

O preconceito não se restringe apenas à mídia. Ele está no dia a dia das cidades, sejam pequenas ou grandes. Eu que sou branca, filha de mãe negra, perdi a conta de quantas vezes já perguntaram se fui adotada ou achada em porta de maternidade. E vejo com o número crescente de imigrantes africanos que vêm ao Brasil para estudo ou trabalho que com eles não é diferente. São piadas abafadas, pequenos insultos, gestos ofensivos e olhares enviesados da parte de alguns, herança de nossos antepassados escravistas que julgavam a cor da pele um importante elemento de diferenciação social.

Berço de ouro

Nas duas últimas semanas, quem chamou a atenção do país foi o ministro Joaquim Barbosa. Mineiro de origem humilde, negro, 54 anos e vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim foi alvo dos holofotes da mídia pela atuação independente e justa no julgamento do mensalão. Literalmente “subiu no conceito” da maioria da população, ao contrário de Ricardo Lewandowski, que votou pela absolvição do ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, do publicitário Marcos Valério e de seus sócios. Barbosa criticou em 2009 o também ministro do STF Gilmar Mendes por suas posições favoráveis aos poderosos em casos de corrupção.

O ministro é filho de um pedreiro e uma dona de casa que, por mais esperança que tivessem, talvez não imaginassem que o filho chegaria aonde chegou. É o primogênito de oito irmãos e tornou-se o responsável pela família com apenas dezesseis anos, com a separação dos pais. É fluente em quatro idiomas, tem gostos refinados, toca piano e violino e é também o único ministro abertamente favorável à legalização do aborto. E é claro que ele também foi vítima de preconceito, direta ou indiretamente.

Joaquim Barbosa é um exemplo real de determinação num país onde jovens de 13, 14 anos, trocam os estudos por uma maternidade precoce ou por um subemprego, quase sempre com a mesma alegação: que tudo é muito difícil, que ninguém oferece oportunidade, que é difícil conseguir vaga em uma universidade pública etc. De fato, existem adversidades e não são poucas para quem não nasceu em berço de ouro.

Clareza e honestidade

As escolas de péssima qualidade, esquecidas ao fim da “lista de prioridades” dos gestores públicos, os programas de inclusão social que perderam o entusiasmo com o tempo, a entrada em um bom curso numa universidade pública, sonho distante na vida de milhares de jovens brasileiros, são exemplos esparsos que ilustram uma afirmação bem conhecida: a de que a vida não está fácil pra ninguém.

Infelizmente, alguns jovens tomam como exemplo de trajetória aqueles que conseguem (ou tentam) ganhar a vida sem esforço, como políticos inertes ou traficantes. Muitas meninas da periferia, mesmo com a ascensão das mulheres no mercado de trabalho nos últimos anos, ainda sonham em “casar-se com um marido que as sustente”.

É nessa realidade em que o Brasil se encaixa e temos ânsia por jovens ousados, que enfrentem o preconceito e os obstáculos, assim como o ministro Joaquim, e que ousem “ganhar a vida” com trabalho e esforço, optando pela clareza e honestidade.

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[Camila Freitas Soares é estudante de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE]