Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Campo minado para pensar

Cena 1: terça-feira, 16 de dezembro de 2014, o jornalista mineiro João Paulo Cunha despede-se de seus colegas na redação do jornal Estado de Minas, ao qual dedicou 18 de seus 25 anos de profissão. Todos querem saber o que houve. A história, contada no meio da redação, é curta: a direção do veículo havia proibido João Paulo, editor de Cultura, de falar de política em sua coluna e ele pediu demissão, por entender que não havia outra coisa a fazer diante da censura. Todos se levantam e ele é aplaudido por cinco minutos.

Cena 2: quarta-feira, 17 de dezembro de 2014, muitos jornalistas do Estado de Minas chegam à redação com a mesma roupa: calça jeans e camiseta branca, o “uniforme” de João Paulo, sua marca registrada. No meio da redação, pose para foto – “Somos todos (e todas) João Paulo” – que é publicada no Facebook com imediata repercussão e reação ainda mais rápida: a direção do jornal (ainda se pode chamá-lo assim?) proíbe a publicação de fotos internas da redação.

A proibição é inócua. A foto já havia ganhado mundo, percorreu trecho, reproduzida em outros sites, como o da CartaCapital – “Você me prende vivo, eu escapo morto”. A demissão de João Paulo ganhou repercussão nacional – a nota redigida pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais e publicada às 19 horas do dia da demissão registrou mais de 24 mil visualizações nas primeiras 24 horas. A página do Sindicato no Facebook alcançou mais de 40 mil pessoas nos dias 16 e 17 de dezembro, depois que a nota foi publicada. No dia 15, antes da publicação da nota, a página, que registrava uma média de 500 curtidas, passou para mais de três mil.

João Paulo fora proibido de escrever sobre política depois da publicação do artigo “Síndrome de Capitu”, no qual ele critica a irresponsabilidade do PSDB e de seus partidos aliados, que se negam a ocupar o lugar que lhes foi confiado na eleição, o de fazer oposição. Ele faz isso com rigorosa propriedade, em texto de refinada análise, elegante e sustentado por uma muito atenta compreensão da realidade brasileira (ver aqui).

A ampla repercussão do caso tem razão de ser. João Paulo representa uma forte tradição humanística no jornalismo mineiro. Formado em filosofia, psicologia e jornalismo, é um dos profissionais mais respeitados, articulador de amplo diálogo com a universidade, trazendo para o jornalismo espaços de reflexão e promovendo leituras críticas e aprofundadas sobre a cultura. No Estado de Minas, era editor-chefe do “Caderno de Cultura”, do “Caderno de TV”, do “Divirta-se” e do suplemento “Pensar”, que circula aos sábados. Sua coluna, “Olhar”, era leitura obrigatória para intelectuais, artistas e todos os leitores que cultivam o texto crítico, o olhar aprofundado sobre os mais variados temas do pensamento brasileiro.

Sua demissão confere uma dimensão dramática à censura “mineira”, pois evidencia que ela não tem limites, não poupa ninguém; corta na própria carne e não hesita em descartar nem mesmo suas mais instigantes inteligências. A mesma empresa que, durante a campanha, usou a intranet para convocar os seus funcionários – inclusive jornalistas – a participar de uma caminhada em defesa da candidatura de Aécio Neves, deixa claro que não tolera a pluralidade de opiniões, não aceita os que não pensam como ela.

Face visível

Mas há tempos que em Minas “pensar continua sendo um ato muito perigoso”, como bem observou a professora Beatriz Cerqueira, presidente da CUT-MG. Ela própria é uma vítima, pois responde a 17 processos movidos pela coligação estadual do PSDB contra campanha publicitária que denunciou a precária situação da educação no estado. Essa censura há tempos se encontra disseminada nos jornais mineiros sob a forma de discurso unificado em favor dos governantes tucanos, numa clara afronta ao contraditório democrático. Só isso explica, por exemplo, o escandaloso silêncio da mídia comercial local sobre os mais de 100 dias de greve que os professores da rede estadual fizeram em 2011.

No dia 15 de outubro último, Dia do Professor, jornalistas mineiros fizeram um ato denunciando a censura em Minas e, em atitude inédita no estado, se manifestaram formalmente na eleição, contrários à candidatura de Aécio Neves. Durante a atividade, muitos profissionais contaram histórias dos recursos que colegas de redação tinham de usar para tentar repassar informações que possuíam, mas que não podiam usar – a história das obras do aeroporto de Cláudio, velha conhecida dos jornalistas das Alterosas, só se tornou pública a partir de matéria da Folha de S.Paulo. Outros relatos davam notícia da luta para garantir o mínimo de dignidade, na peleja para manter de pé a cláusula de consciência prevista no Código de Ética e que confere aos jornalistas o direito de não assinar matéria que tenha sido fortemente alterada.

A demissão de João Paulo torna-se emblemática, pois o ato violento e explícito condensa anos de ataque à liberdade, afrontando as tradições mais ricas do povo mineiro, que são as tradições libertárias. Na censura, o Estado de Minas condecora o Conde de Assumar. Mas a integridade do pedido de demissão de João Paulo reacende o espírito de resistência. Como na música: “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

A censura é a arma perversa utilizada para tentar esticar as pernas da mentira, alimento amargo de escusas intenções. Ao assumir esse lugar, o Estado de Minas escolhe o perigoso lugar de afronta à democracia, colocando em risco sua própria razão de existir. No episódio, assina o atestado de alinhamento ao que há de mais indigno: torna-se obstáculo à pluralidade, enfraquece a liberdade de expressão, corrompe a opinião pública, impõe graves feridas à democracia.

Não há argumento sobre linha editorial que sustente a ação do Estado de Minas no caso. Cada veículo tem sua própria linha editorial, sua forma de ver e analisar a realidade social, política, econômica, cultural. É legítimo que qualquer jornal tenha sua própria opinião e a manifeste no lugar adequado, o que está a anos-luz de ditar o modo de pensar de cada jornalista ou articulista que trabalhe no veículo. Essa atitude nega qualquer possibilidade do jornalismo como espaço de construção de cidadania, rejeita a pluralidade de ideias e a própria liberdade de expressão. Em vez de buscar os contrapontos das várias opiniões, o jornal optou por extirpar as que lhe soam dissonantes. Nessa toada, vai se desconstruindo como um falso coro dos contentes, ameno com os amigos e virulento com os inimigos, sempre em um monótono uníssono.

Nesse ponto, há infelizmente pouca novidade, na medida em que a mídia oligopolizada em geral age da mesma forma, seguindo o vício histórico de uma defesa seletiva da liberdade de expressão, aquela que não questione seus próprios interesses. Basta lembrar que, em 1935, quando o governo Getúlio Vargas utiliza a censura para conter o movimento comunista liderado por Luís Carlos Prestes, contou com apoio de importantes empresários da mídia. O Estado de S.Paulo e os Diários Associados apoiaram uma Lei de Segurança Nacional mais rígida e controladora de opiniões. Infelizmente, longe de se configurar como exceção, essa é uma prática dominante da mídia brasileira desde a República Velha. A participação de grandes fatias da mídia no golpe de 1964 foi fartamente documentada pela Comissão da Verdade.

Cria-se uma cultura da censura – e da autocensura – na qual a opinião torna-se um delito. A lista de imolações é dramaticamente extensa e compõe a face mais visível do mal profundo que cresce com a ausência de democracia na comunicação. Já passa da hora de o Brasil promover um debate profundo que possa reverter essa situação e reconstruir seu sistema de mídia em bases republicanas e plurais.

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Ana Paola Amorim é jornalista e doutora em Ciência Política, professora da Universidade Fumec, pesquisadora do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizadora/autora com Venício A. de Lima e Juarez Guimarães de Em defesa de uma opinião pública democrática – conceitos, entraves e desafios (Paulus, 2014)