Friday, 24 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Imprensa interioriza interdição

A dependência do noticiário produzido ou liberado pelo governo chegou ao nonsense num episódio recente em Brasília.

Os jornais noticiaram na sexta-feira (10/11) que o secretário geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, decidira proibir, na véspera, o acesso da imprensa aos trabalhos do seminário internacional Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. O evento reuniu no Palácio do Planalto, durante dois dias, cinco ministros, outros funcionários e representantes de 60 organizações não governamentais. Marcou o início dos trabalhos de um grupo interministerial encarregado pela presidente Dilma Rousseff de elaborar proposta de novo marco regulatório, adaptado a desenvolvimentos recentes, das relações entre o governo e as organizações da sociedade.

A proibição de entrada de jornalistas foi associada ao contexto de denúncias de irregularidades em convênios de diferentes ministérios com ONGs. Sabia-se que entre os presentes haveria um clima de indignação. O governo, misturando joio com trigo, se deixou empurrar por uma onda anti-ONGs e por decreto suspendeu todos os convênios em vigor. Como declarou ao Globo Vera Marzagão Ribeiro, da diretoria executiva da Associação Brasileira de ONGs (Abong), o Planalto jogou a culpa no elo mais fraco da corrente.

Imagine-se qual teria sido a reação se o governo tivesse suspendido por um mês todos os contratos em vigor com empresas fornecedoras de produtos ou prestadoras de serviços.

Manda quem pode

Entidades presentes, que não têm a ver com bandalhas recentemente denunciadas e fazem parte de um movimento chamado Plataforma Marco Regulatório, protestaram:

“Ao tomar conhecimento pela imprensa de que os meios de comunicação foram impedidos de ter acesso à cobertura do evento, os signatários da Plataforma participantes do evento esclarecem que não foram informados ou consultados sobre tal decisão e manifestam aqui a sua discordância.”

Assinam: Abong , Cáritas Brasileira, Confederação Brasileira de Fundações (Cebraf ), Conselho Latino-Americano de Igrejas – Região Brasil, Fundação Grupo Esquel Brasil, Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimentos dos Sem Terra (MST) e União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafs/Pastorais Sociais).

É inquestionável o direito do governo de preferir realizar o evento sem a presença da imprensa, embora não seja essa, para dizer o mínimo, a melhor maneira de dar transparência às relações entre Estado e sociedade civil.

Obedece quem não tem juízo

O inacreditável na história é que os jornalistas… aceitaram a proibição!

Como assim, aceitaram? Deveriam ter tentado invadir o recinto?

Não. Mas nada os impedia de, fora do local do seminário – o Salão Leste do Planalto − ou por telefone, entrevistar participantes.

Era gente que tinha – tem – muitas e boas a dizer. A respeito, por exemplo, do prejuízo sofrido por atividades que o Estado não tem como realizar diretamente.

Mas o governo, esse pai dispensador de noticiário, proibiu a entrada no recinto… E os jornalistas encenaram um Anjo Exterminador de Buñuel às avessas, tolhidos por suas próprias barreiras mentais.