Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Um fenômeno chamado Dona Vitória

A imprensa semanal, que normalmente é uma espécie de ‘metadiscurso’ da imprensa diária, ficou devendo ao público-leitor uma matéria propriamente compreensiva (no sentido de promover as conexões intelectuais e afetivas dos fatos) sobre o fenômeno carioca da ‘Dona Vitória’ [ver remissões abaixo]. Este, como se sabe, é o nome fictício atribuído por jornais e autoridades públicas à senhora que, por trás de sua janela, registrou durante dois anos em vídeo e em fotografias a movimentação de traficantes de drogas na Ladeira dos Tabajaras, em pleno centro de Copacabana. Em conseqüência, foram presos 23 marginais, nove dos quais usavam a farda de policial militar.

É verdade que se dedicou um espaço razoável ao feito de Dona Vitória, mas entregue à dispersão dos acontecimentos e das declarações oficiais, sem uma orientação editorial capaz de extrair do episódio as ilações necessárias a um presumido desempenho cívico do jornalismo. Por isto, merecem registro especial os artigos em que os jornalistas Aydano André Motta e Luciano Trigo reivindicam, com argumentações diferentes, um outro tipo de atitude (social e, implicitamente, jornalística) frente à façanha de ‘Dona Vitória, a carioca do ano’ (O Globo, 9/9/2005).

Atitude tolerante

Aydano Motta chama a atenção principalmente para uma das lições deixadas pela coragem da Dona de casa e documentarista, que é a do imperativo de mobilização geral da sociedade. Argumenta:

‘Adianta nada fazer passeata na praia, tampouco se limitar a reclamar da polícia. Os homens da lei – entre eles os que deram as costas às denúncias de Dona Vitória – são ineficientes porque assim prefere a sociedade, igualmente interessada numa repressão pusilânime, temente aos bandidos e ávida por um conchavo, um caraminguá nas transgressões pequenas, médias e grandes da elite. O longo caminho que ajudará a dissipar o pesadelo começa na mobilização geral’.

A mesma questão é abordada com outro viés por Luciano Trigo, que assinala o abismo entre as representações de intelectuais e sociólogos sobre o problema da violência e das drogas e os juízos provenientes da opinião pública. Assim, à pergunta ‘Dona Vitória acredita que os viciados são culpados pelo tráfico. Você concorda?’ – formulada pelo site de O Globo, em 26 de agosto –, responderam afirmativamente 88,33% dos internautas contra 12,9%, que optaram pelo ‘não’. Esta última opção seria a mesma daqueles encarregados de pensar pela população e que acreditariam ser o problema das drogas uma questão de saúde pública, e não de segurança, deslocando o fenômeno da violência para o tráfico de armas.

Para Luciano, o problema…

‘…nasce de uma atitude tolerante em relação às drogas – dentro de casa, na sociedade e até na mídia. Essa atitude tem raízes históricas e culturais complexas, diretamente ligadas a um espírito contracultural e transgressor que, por sua vez, se associou no Brasil à idéia de resistência durante a ditadura. O que muitos não entendem é que o contexto mudou completamente: (…) Hoje, diante da cadeia produtiva da droga, é necessário dizer com toda as letras: quem consome está ajudando a destruir o Rio de Janeiro’.

Tarefa cívica

São realmente valiosos os artigos de ambos os jornalistas. A quem costuma participar de debates sobre o assunto não escapa a resistência que intelectuais de várias áreas opõem às manifestações de gente mais simples no sentido de co-responsabilizar os usuários de drogas pelo aumento da violência e do caos social nos grandes centros urbanos, com especial destaque para o Rio de Janeiro, onde a situação parece realmente ter saído de controle.

É verdade que a ação dos ilegalismos já não mais se concentra exclusivamente no comércio de drogas e deixa ver claramente as novas táticas de ocupação de território e de incremento de extorsões a motoristas, pequenos comerciantes etc. Mas a droga é certamente o aspecto mais danoso e mais visível de todo esse pesadelo urbano.

E não há como enfrentar o problema sem uma participação coletiva mais responsável. Lembra Ayadano Motta:

‘Há exemplos inspiradores. Na década passada, a ditadura da marginalidade em Washington foi minada pela determinação de cidadãos comuns, desarmados, voluntários. Os crime watchers vigiavam esquinas, becos e vielas, câmeras em punho, denunciando pequenos crimes e constrangendo a polícia a ser eficiente. As estatísticas criminais na capital americana desabaram e a cidade, uma das mais violentas dos Estados Unidos, viu a luta contra os bandidos mudar de rumo’.

Cabe à imprensa a tarefa cívica de esclarecer e convocar a cidadania para o engajamento nessa mesma dimensão da responsabilidade social. Quando uma operadora de telefonia escolhe como garoto-propaganda do Dia dos Pais um usuário de drogas confesso, e isto é publicitariamente aceito pela mídia, não há como deixar de perceber a magnitude do problema e da crise ética que se abate sobre o corpo social.

A leniência com a drogadicção é uma ofensa à coragem e à consciência ética de gente como Dona Vitória. E mais: é um sinal de que aqueles mesmos que souberam alçar as vozes contra a ditadura política de triste memória não conseguem se dar conta das novas formas de ditadura social emergentes na contemporaneidade.

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Jornalista, escritor e professor titular da UFRJ