Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Em busca de um jornalismo da esperança

(Foto: Agência Brasil)

“A esperança faz parte de mim como o ar que respiro.” (Paulo Freire)

Desde meados da atual década, o mercado jornalístico foi atingido por uma grande crise de diversas naturezas. Os postos de trabalho diminuíram e muitos profissionais foram obrigados a procurar outros empregos. As conclusões sobre o cenário pessimista que envolve profissionais e o jornalismo está no artigo da revista eletrônica E-Compós, os jornalistas brasileiros em contextos de crises: uma análise das trajetórias profissionais de 2012 a 2017, dos pesquisadores Camilla Tavares, Cíntia Xavier e Felipe Pontes, publicado este ano, em que os autores se debruçaram sobre as mudanças na carreira de 517 jornalistas brasileiros. Os participantes do estudo são os mesmos respondentes de outra pesquisa — o Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada em 2012 por dois professores da Universidade Federal de Santa Catariana, UFSC, Jacques Mick e Samuel Lima. Se a investigação faz referência à uma possível perda da esperança, a uma espécie de sentimento de vazio interior, que em princípio dá a entender que não resta mais nada e projeta a metáfora do deserto em que achamos que estamos, em que os esforços parecem em vão, surgem perguntas necessárias: como podemos enfrentar essa possível perda das forças e buscar transformações que permitam uma disrupção urgente e necessária? Enfim, como enfrentar a desesperança que se impõe pelos números e projeta-se pelas falas profissionais e acadêmicas? Possivelmente é neste momento que uma sensação incômoda e angustiante nos invade, mas que aguça questionamentos.

Esperança imperativa

A pesquisa citada aponta que mulheres estão entre a maioria que deixou a profissão para exercer outras atividades, como assessoria ou docência. Também acompanha outro percentual significativo: 60% não trabalham mais com jornalismo e estão desempregadas. Para Tavares, Xavier e Pontes, o dado é um possível indício das dificuldades estruturais de gênero no mercado de trabalho. Em contraponto a este e outros fatores que envolvem a dinâmica de atuação profissional, os pesquisadores gaúchos Luciane Albernaz de Araujo Freitas e André Luis Castro de Freitas destacam a importância da esperança como causa e consequência perante as exigências e desafios que emergem em relação às necessárias transformações sociais. Ambos entendem que o fazer humano e libertador é o elemento fundante a esperança. Estudiosos da obra do educador Paulo Freire, tratam do conceito de esperança imbricado com categorias como inacabamento, diálogo e utopia, aproximando-os as relações educativas. O próprio Freire, em obra publicada em 2002 dizia não ser esperançoso apenas por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico. O educador, alertava, no entanto, que não é pelo fato do ser humano ser esperançoso que terá o poder de transformar a realidade. Segundo Freire, no embate, é necessário levar em conta dados concretos, materiais, onde a esperança é necessária, mas não suficiente. Ingenuidade é como o educador define aquela situação em que alguém — inclusive o profissional — acredita apenas na esperança para mudar o mundo. Em contrapartida, esclarece, sem ela seria cair no fatalismo, no pessimismo.

Sem jornalismo esvai-se a esperança

“Se existe algo que tira totalmente a esperança de alguém é a leitura dos jornais, revistas semanais ou noticiários de TV. Vê-se de tudo, menos jornalismo.” A afirmação é da pesquisadora Elaine Tavares que atenta para a situação, aquela do fazer que se desintegra no universo da propaganda e do incensamento do sistema capitalista de produção. Na opinião que desenvolve em parte de sua produção acadêmica, identifica que os meios de comunicação corporativos empregam o falseamento da realidade, escondendo-a, ou então a invenção de um presente/futuro a partir da mentira. Por isso, segundo a docente, não é nada fácil, nos tempos atuais, falar em esperança ou utopia.

Lembra que Teixeira Coelho, no livro da coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, O que é Utopia, começa com uma assertiva que pode ser julgada capital: um dos traços que caracteriza o humano é a esperança. Ele deixa bem claro que ter esperanças não é meramente sonhar, é, isso sim, usar a imaginação utópica. “Ela não é delirante nem fantástica. Parte de fatores subjetivos, mas guia-se por fatores objetivos”, diz.

De acordo com Tavares, a esperança é a direção, o lugar aonde se quer chegar, vai além da aposta, é contra o absurdo de um mundo sem sentido. Ela reanima o passado, ressuscita os mortos, orienta o presente e visa, no futuro, o sumo-bem. Um lugar geométrico para onde converge uma totalização em movimento, em processo.

A esperança é sindical?

Primeira mulher negra a presidir o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, Sindjors, Vera Daisy Barcellos, em artigo no Jornal do Comércio publicado em agosto de 2020 — na história de 78 anos do Sindicato é a primeira vez que isso ocorre e o mandato vai até 2022 — destaca que o jornalismo é um fazer e um ato político comprometido com a verdade dos fatos e com a responsabilidade ética de bem informar, ou seja, um exercício necessário para contrapor ao que hoje se apresenta, como fator negativo, devastador e nefasto, denominado fake news.

Como ação “política” — não confundir com política partidária — que exerce há 49 anos, Vera instiga colegas, desde o tempo que participava das assembleias realizadas nas redações, de que direitos trabalhistas se conquistam com luta e resistência. Considera que o momento demonstra que o desafio é maior do que na época em que ela começou no exercício profissional em João Pessoa (PB). Garante que é movida pela esperança e confiança naqueles que estão juntos na direção do Sindicato do RS. E que é possível, mesmo nestes tempos difíceis, promover transformações.

Talvez a esperança de uma possível transformação no jornalismo passe concretamente pelas ações sindicais. Ao menos é o que se percebe na iniciativa de um outro sindicato, desta vez no Nordeste. O Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce), no início deste ano lançou a campanha “A esperança tá no sindicato”, com o objetivo de reforçar a luta em defesa dos direitos da categoria no estado. Na opinião do presidente do Sindjorce e diretor de Mobilização da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Rafael Mesquita, o momento coloca os sindicatos como protagonistas da reorganização coletiva, com a missão de levar esperança à sociedade. Rafael ressalta os retrocessos no campo social, as perseguições às profissões regulamentadas, com destaque aos ataques ao Jornalismo, à ciência e às artes. “No momento de desesperança, de retrocesso até na vida cotidiana, a esperança está na luta popular e na vontade do povo brasileiro, força motriz desse país, mudança que vai nos recolocar em patamares de dignidade e decência”.

Ainda há esperança na academia

Também jornalista, Carlos Guimarães, a convite do professor Luiz Artur Ferraretto, esteve na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, FABICO, para conversar com alunos daquela instituição e ficou bem impressionado com o bate papo. “Observei um desejo de mudar, a partir das muitas dúvidas e uma sede de conhecer, não como forma de procurar ser ‘aquilo que as empresas querem, mas sim querendo chacoalhar um pouco do sistema, ainda que em uma fase embrionária da academia.” Saiu do encontro com a nítida clareza de que ali estava o nosso futuro, o futuro das redações, ou seja, aqueles que querem produzir, mudar, interferir, balançar, pensar e fazer a diferença. Para o jornalista, que tem passagens pelas rádios Gaúcha e Guaíba e foi coordenador do Grupo Bandeirantes de Comunicação, ali não estava o futuro submisso, o jornalismo criado em laboratório, descerebrado, resignado e com a boca escancarada cheia de dentes esperando o Ibope chegar. “Ali tinha gente capaz de confrontar o sistema, capaz de querer mostrar para esse mundo que a vida é sobre movimento, não sobre zona de conforto. Vi gente capaz, com o olho brilhando, sangue pulsando, a vontade florescendo. Pode ser coisa de jovem, mas numa época onde informação se tornou produto e jornalista um mercador de notícias, ainda há esperança”.

E no mundo pós-tudo…

Existem indícios de que há esperança e ela também envolve o jornalismo. Está presente não apenas naquilo que eterno Ariano Suassuna pronunciou ao afirmar que o otimista é um tolo; o pessimista, um chato; e o bom mesmo é ser um realista esperançoso. Também não daquele tipo de bálsamo para as dores do presente, como pensa Guimarães, para logo em seguida defini-la como ferramenta de construção de um futuro bom, que envolverá a todos. Esperançoso que era, o patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire, talvez explique de maneira mais direta. Ele insistia em afirmar que não podia deixar de ter esperança pois o humano é um ser que procura. Não importa que a maioria esteja sem procurar. Na concepção do educador reconhecido mundialmente, estar sem procurar é o resultado do imobilismo imposto pelas circunstâncias, mas não é a natureza do ser. Freire acreditava numa esperança que deveria ser impulsionada pelos profissionais da pedagogia, da filosofia, da história, do jornalismo. Aqueles, segundo Freire, que compreendem a razão de ser da apatia das massas — e às vezes da apatia de si mesmos — e batalham mesmo assim de maneira incansável pela esperança. “Se não houver esperança, não tem por que continuar o histórico. A esperança é a história, entende? No momento em que você definitivamente perde a esperança, você cai no imobilismo”, assim disse Freire.

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Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Notas de Ana Maria Araújo Freire. RJ: Paz e Terra, 2012.

PONTES, Felipe Simão; TAVARES, Camilla Quesada; XAVIER, Cintia. Os jornalistas brasileiros em contextos de crises: uma análise das trajetórias profissionais de 2012 a 2017. Revista ecompós, 2020. Disponível em: https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/2040/1996

TAVARES, Elaine. A utopia, a esperança e o jornalismo. Portal Brasil de Fato. 2/1/2017. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2017/01/22/artigo-a-utopia-a-esperanca-e-ojornalismo

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Boanerges Lopes é jornalista e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Autor de livros, doutor e mestre em Comunicação pela UFRJ e Umesp.