Thursday, 19 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

Vídeo substitui o dossiê de papel que circulava pelas redações em época de eleição

(Foto: Arquivo)

Até duas ou três eleições presidenciais passadas, logo nos primeiros dias do ano eleitoral começavam a circular pelas redações dos jornais dossiês com denúncias contra os candidatos. Eram páginas e páginas sob uma capa de cartolina surrada na qual estava escrita a palavra “sigiloso”. Era comum se ouvir entre jornalistas o seguinte comentário: “Daí, já viste o dossiê contra …?”, completando-se a frase com o nome do acusado. Esses dossiês, nos dias atuais, foram substituídos por vídeos com declarações feitas pelo candidato que o comprometem. Tanto os antigos dossiês de papel como os vídeos de hoje nascem em uma mentira, porque são recortes de informações tiradas do seu contexto. Faz parte do jogo da disputa eleitoral, tanto no Brasil quanto em outras democracias mundo afora. Portanto, é necessário que o repórter, principalmente o jovem que faz a cobertura do dia a dia nas redações, esteja informado sobre o que rola na disputa eleitoral para não pisar nessa casca de banana. É sobre isso que vamos conversar.

Assisti ao alvorecer, ascensão e queda da era dos dossiês de papel circulando nas redações em anos eleitorais. Comecei a trabalhar numa redação em 1979, e logo nos primeiros anos entendi que precisava me especializar em alguns assuntos para ter um lugar ao sol. Escolhi os conflitos agrários, as migrações e o crime organizado nas fronteiras. Assuntos que me mantinham viajando pelo Brasil. Por conta disso, sempre tive contato com colegas de vários jornais brasileiros e estrangeiros e sabia com certo grau de segurança o que rolava pelas redações. O mais famoso foi o Dossiê Ilhas Cayman (1998). Acusava políticos do PSDB de terem contas ilegais naquele paraíso fiscal do Caribe, entre eles o então presidente da República e candidato à reeleição Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2003), Mário Covas, José Serra e Sérgio Motta. Na época correu o boato de que o ex-presidente Fernando Collor de Mello havia comprado uma cópia por 2,2 milhões de dólares – há abundância de matérias na internet explicando o caso. Era tudo mentira. Mas causou uma baita confusão na disputa eleitoral. Outra confusão em ano eleitoral que ficou famosa aconteceu em 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2011) concorria à reeleição pelo PT. Um grupo de militantes do PT foi preso com dinheiro que seria usado para comprar um dossiê envolvendo a cúpula do PSDB com corrupção no Ministério da Saúde. Lula ficou furioso e chamou os militantes petistas de “aloprados”. Daí o caso ficar conhecido como “Dossiê dos Aloprados” – há muitas matérias na internet. Esses foram dois casos que ganharam fama nacional. Mas outras dezenas circulavam pelas redações.

A maioria dos dossiês tinha muito mais a ver com as eleições estaduais. Alguém deixava na portaria do jornal um envelope fechado, sem remetente, e dentro dele um bilhete anônimo dizendo que era assunto do interesse da imprensa. A maioria das páginas consistia em matérias já publicadas em jornais. Também eram comuns cópias de inquéritos policiais ou sentenças de juízes da primeira instância incriminando algum candidato. A gente lia por ler. Lembro que certa vez estava bebendo com colegas de jornais de São Paulo num boteco de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) havia ocupado uma fazenda na região e estava dando a maior confusão. Colegas de vários cantos do país estavam cobrindo a situação.  Conversamos sobre uma pauta que não lembro que alguém tenha feito, que é  descobrir e entrevistar as pessoas que montam os dossiês e os vendem para os candidatos.  Na maioria das vezes eram trabalhos grosseiros, que não resistiam a uma primeira olhada. Mas sempre havia alguém em alguma redação que usava a informação. Vi isso acontecer um monte de vezes, principalmente envolvendo conflitos agrários. Lembro que nos 1980, com a redemocratização do país depois da ditadura militar que governou de 1964 até 1985, por quase meia década os conflitos agrários ocuparam as manchetes dos jornais. E a reforma agrária era assunto obrigatório nos debates dos candidatos. Por conta disso, o que mais existia eram dossiês denunciando lideranças por crimes que não tinham cometido. Em especial os militantes ligados à Teologia da Libertação, uma corrente da fé cristã  ligada à defesa dos pobres e oprimidos.

Exagerando, digo que desde que o mundo é mundo a informação falsa existiu e tem circulado por aí, inclusive travestida de notícia de jornal depois que inventaram a imprensa. As novas tecnologias a tornaram mais perigosa, porque circula com maior rapidez e atinge um número bem elevado de pessoas. A maioria dos vídeos que estão circulando envolvem os dois principais candidatos às eleições presidenciais, o atual presidente da República Jair Bolsonaro (PL), que busca a reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP). São informações que estão sendo jogadas no ar fora do contexto em que aconteceram. Qualquer pessoa minimamente informada percebe que se trata de sacanagem. Mas, como sempre, alguém, em algum lugar, acaba colocando a informação no jornal e ela passa a circular como se verdade fosse. É assim que acontece. O que podemos fazer para evitar isso? Explicar corretamente o assunto ao nosso leitor. Há muito tempo houve uma fantástica profissionalização e sofisticação na maneira de vender o candidato ao eleitor. O candidato constrói uma história para convencer o eleitor a votar nele. O vídeo é como se fosse um tijolo dessa construção. Todo o seu conteúdo foi pensado para sustentar a história montada pelo candidato. Por mais esquisito que possa parecer, ele tem um objetivo. É assim que funciona.

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Carlos Wagner é jornalista e trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.