
(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)Elei
Há quase meio século trabalhando como repórter, e tendo no currículo a feitura de algumas reportagens e livros complicados sobre conflitos agrários, crime organizado e povoamento de fronteiras agrícolas, aprendi a ficar atento aos detalhes ao meu redor. Esse aprendizado levei comigo quando sai da redação (onde fiquei de 1979 a 2014). E o uso ainda mais hoje, quando por conta própria percorro as estradas do país atrás de boas histórias para contar. Na quinta-feira, segundo dia do mês de abril, estava deixando Porto Alegre rumo ao interior gaúcho quando me lembrei de um ensinamento que aprendi com um editor na década de 80. Ele sempre repetia o seguinte: “Se surgir a oportunidade de fazer uma matéria cobrando de uma autoridade pública a solução de um problema, faça. Ou tu vais te tornar cúmplice da negligência da autoridade”. Lembrei-me do conselho quando estava transitando pela BR-448, no trecho que liga a Capital à BR-386, em Canoas. Em maio de 2024, toda aquela área ao redor do entrocamento das duas rodovias federais estava debaixo d’água. Bem como várias outras áreas de quase todas as cidades da Região Metropolitana, inclusive Porto Alegre, que teve o Centro Histórico, a estação rodoviária, o aeroporto Salgado Filho e diversos bairros inundados.
No próximo mês de maio completam-se, portanto, dois anos da grande enchente gaúcha de 2024. É uma oportunidade para cobrarmos as autoridades municipais, estaduais e federais sobre o andamento das obras nas estruturas que tentarão evitar uma nova tragédia daquela dimensão. Aqui é o seguinte. Nós repórteres não vamos discutir se as previsões climáticas indicam a repetição, nos próximos meses, dos acontecimentos de dois anos atrás. Se vai chover ou não é outra história. O nosso foco é: se acontecer, estaremos preparados? Antes de seguir, vou relembrar o que aconteceu em 2024 com textos de posts já publicados, um deles no ano passado: Enchentes de junho despertaram no gaúcho o medo que se repita maio de 2024. E o que aconteceu então? Meses antes, em setembro e novembro de 2023, fortes chuvas atingiram o Rio Grande do Sul, provocando inundações e destruição em diversas regiões, principalmente em cidades do Vale do Rio Taquari. Com a maior parte dos municípios ainda se recuperando dos estragos, em maio de 2024 o estado sofreu a maior e mais devastadora enchente da sua história. O saldo das três catástrofes: 478 dos 497 municípios gaúchos atingidos, 185 mortos, 25 desaparecidos, dezenas de cidades arrasadas, estradas, pontes, casas, fábricas, lojas e lavouras destruídas, milhares de animais mortos, prejuízos incalculáveis – há centenas de reportagens sobre o assunto na internet.
A cheia de maio de 2024 foi devastadora para Porto Alegre, superando a histórica enchente de 1941. Daquela vez, as águas do Guaíba subiram 4,73 metros, o que durante décadas foi a maior marca já registrada na cidade. Em 2024, o Guaíba subiu 5,35 metros e colapsou o sistema contra as cheias da Capital. O que é esse sistema? Trata-se de um conjunto de diques e muros construído no início dos anos 70, que se estende por 68 quilômetros ao longo das margens do Guaíba. A parte mais visível é conhecida como Muro da Mauá, uma parede de três metros de altura (além de outros três metros enterrados no chão), com 2,4 quilômetros de extensão e 14 comportas que são fechadas na subida das águas para proteger a área central da cidade. Se a função dos diques e muros é manter o Guaíba fora da cidade, o sistema também conta com 23 estações de bombeamento que despejam no Guaíba as águas recolhidas das ruas pela rede de esgoto pluvial. Em 28 de maio de 2024, publiquei o post Sistema contra as cheias de Porto Alegre é velho, mas funcionava. Precisa ser consertado.
Agrande imprensa nacional, em particular a gaúcha, tem a oportunidade de mostrar o que já foi consertado dos estragos provocados pelas enchentes de 2023 e 2024. Nas viagens que tenho feito pelo território gaúcho ainda vejo muitas obras em andamento, principalmente nas encostas de morros que desabaram, arrastando estradas barranco abaixo, e na construção de pontes novas para substituir as que foram levadas pelas águas. Temos publicado pequenas matérias sobre o assunto. Mas faz falta uma grande reportagem mostrando um quadro mais amplo da situação. O que aconteceu no Rio Grande do Sul não é um problema gaúcho. Trata-se do novo normal do clima dos dias atuais. Uma catástrofe climática pode acontecer em qualquer lugar do país, como de fato tem acontecido – matérias na internet. Aqui é o seguinte: 2026 é um ano eleitoral. Em outubro, teremos eleições para presidente da República, governadores, senadores (54 das 81 cadeiras) e deputados (federais e estaduais). É uma boa oportunidade para incluir as emergências climáticas na pauta eleitoral. Essa nova realidade do clima exige uma reformulação técnica da Defesa Civil. É necessário que os jornalistas esmiúcem os valores que os governos municipais, estaduais e federal estão investindo na Defesa Civil, que no final das contas é onde as coisas acontecem durante as tragédias. O assunto é pauta a ser abordada durante os debates nas redes de TV, especialmente na campanha presidencial. Há uma polarização na disputa pela Presidência da República entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, que substitui o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, condenado e cumprindo pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Será interessante saber o que os dois candidatos pretendem fazer para evitar que as tragédias climáticas continuem semeando estragos, mortes e medo.
Arrematando a nossa conversa. Há uma pergunta no ar que a imprensa ainda não respondeu. Qual é a qualidade dos consertos feitos nas estruturas de prevenção contra as enchentes? Eles são suficientes para resistir a uma nova inundação? Ninguém tem “bola de cristal” para saber o que vem por aí em termos de clima. Mas sabemos que, seja lá o que for, nós repórteres precisamos fazer a nossa parte, que é fiscalizar se os reparos foram feitos e estão de acordo com as necessidades dos novos tempos. É simples assim, como dizem os jornalistas.
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.
***
