Sunday, 19 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Uma faca e a liberdade de expressão

(Foto: REUTERS)

Já há alguns anos venho desenvolvendo uma atividade – talvez até uma forma de entretenimento – que envolve dois aspectos principais: o primeiro é a minha observação da gradual extinção do jornalismo como ocupação profissional; e o segundo é o gosto que tenho pelas obras do realismo fantástico – este talvez seja o meu maior incentivo.

Em outras palavras, ultimamente, para cada notícia que leio, saio logo à procura de outros veículos que cobriram o mesmo fato ou assunto. Nos últimos dias nem me foi preciso vasculhar muito as redes sociais com relação a um episódio de facadas ocorrido dentro de um shopping center em Bondi Junction, Sydney, Austrália.

No sábado, 13 de abril, cerca de três horas da tarde, um homem de 40 anos, Joel Cauchi, natural do estado de Queensland e sofrendo de um transtorno mental, esfaqueou várias pessoas, matando seis e ferindo 12 – entre estes um bebê de nove meses. Seguranças e polícia agiram imediatamente. O agressor acabou abatido por um tiro da policial Amy Scott. Ele avançou sobre ela quando se recusou a largar a faca. Karen Webb, comissária de polícia de Sydney, informou logo a seguir que entre os mortos cinco eram mulheres e o único homem foi um segurança, em seu primeiro dia de trabalho.

Cerca de uma hora depois do atentado, o subcomissário Anthony Cooke afirmou que não houve nenhuma informação, evidência nem inteligência coletada que indicasse que o que ocorreu fosse um ato de terrorismo ou motivado por qualquer tipo de ideologia. O assassino estava acometido de uma crise da sua condição mental. Na manhã seguinte, sua família fez circular uma nota revelando sua surpresa, desolação e constrangimento pelo ato, oferecendo pêsames às famílias dos mortos e se desculpando com os feridos. Até aqui os fatos.

Em cena, a “liberdade de expressão”

Na segunda-feira à noite, Paul Barry, âncora do programa Media Watch da TV ABC e notável jornalista investigativo, mostrou um pouco do tratamento que foi dado ao fato – e não apenas nas redes sociais. Pego aqui uma carona.

No X, o site @visegrad24 postou para seu quase um milhão de seguidores uma foto com a legenda: “Primeira foto do terrorista que matou algumas pessoas em Sydney. Ele esfaqueou numa área de judeus bem próxima a um restaurante israelense”. Outros disseram que ele se parecia com um árabe (embora ele estivesse vestindo um short e uma camiseta com um canguru, símbolo de um time de rugby local). Outras postagens no X e no Facebook também trataram o fato como um ato terrorista.

Na Inglaterra, a âncora Julia Hartley-Brewer, da Talk TV, postou em seu canal do X (@JuliaHB1) para seu meio milhão de seguidores: “… outro ataque de terror por outro terrorista islâmico… Hoje foi a vez da Austrália. Por quanto tempo nossos governos pensam que nós vamos ter que aturar isso?”.  De volta às postagens na Austrália, @AussieCossack, duas horas depois do evento escreveu: “Relatos não confirmados identificam o infrator como sendo Benjamin Cohen. Cohen? De fato? Pensávamos que muita gente inicialmente tentou culpar os muçulmanos”.

Até agora tratei de postagens por indivíduos, desses que publicam o que querem, quando e como querem – para eles a grande dádiva da internet, ou seja, um palco para seus narcisismos.

No entanto, o Canal 7, um dos cinco maiores canais abertos da Austrália, cuja audiência atinge a casa dos milhões – e que emprega jornalistas profissionais –, embarcou na mesma canoa. Noticiou que “Benjamin Cohen é o assassino e que ele já era conhecido da polícia”. Seis horas depois o canal colocou no ar um pedido de desculpas pelo engano. Mas o verdadeiro Benjamin Cohen, um jovem estudante de Sydney, sofreu os esperados milhares de ataques, coisa facilmente imaginável, uma característica do reino das redes sociais. Em entrevista ao jornal The Australian, Benjamin falou dos abusos e de sua experiência traumática. Lamentou também que um canal de grande porte e audiência tenha publicado uma notícia dessa relevância sem verificar sua procedência nem mesmo com a polícia.

No mesmo sábado foi decretado luto oficial no país, bandeiras a meio mastro, e, cinco dias depois, o shopping center foi reaberto para receber os milhares de buquês de flores que para lá foram levados. Nesta mesma noite, a ABC-TV, o canal estatal, me fez meditar e rever como “a gradual extinção” que citei acima vem sendo – heróica e bravamente – estendida.

O 7:30 Report da ABC fez o que nenhum outro canal, internauta ou influencer se incomodou em fazer. Seus repórteres em Queensland apuraram que Joel já fora diagnosticado com esquizofrenia há algum tempo. Ele vinha sendo medicado e observado por profissionais de saúde até que abandonou a medicação e os cuidados. Começou a viajar de uma pequena cidade para outra e assim passou a viver como um sem-teto. Enquanto a polícia e profissionais de saúde prosseguem investigando as possíveis razões do evento, o Governo do Estado recomendou a todos que não se limitem a ver apenas as notícias nas redes sociais. Em reunião marcada para amanhã ele irá discutir com os representantes das redes os mecanismos de  bloqueio ou retirada de vídeos sobre esse tipo de evento.

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Marcus Cremonese é graduado em jornalismo pela FACHA, Rio de Janeiro. Teve matérias publicadas no Jornal do Brasil e no O Tempo, de Belo Horizonte. Mora na Austrália e publicou no Journal of Audiovisual Media in Medicine (JAMM), de Londres. Produz ilustrações científicas para livros e revistas médicas.