Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Museus do nada, nada de museus

Oito cartas escritas por Guimarães Rosa (1908-1967) deram origem ao Museu Sagarana, que lhe foi dedicado em Itaguara, a 70 quilômetros de Belo Horizonte. É o que informa o último número da revista História, da Biblioteca Nacional. É um museu acanhado, mas bem montado. Passa a ser fonte de referência a atrair visitantes e atenção para a cidade. Ponto para os que o conceberam, tirando água de pedra.

As cartas foram escritas por João Guimarães Rosa quando ele iniciou o exercício da medicina, entre 1931 e 1932. Tinha então entre 23 e 24 anos. O jovem médico mandava orientações a Manoel Carvalho, dono de uma fazenda próxima da sede municipal, para que ele ajudasse as pessoas vizinhas. São mensagens curtas e diretas. Não podem dar suporte a toda importância que lhes foi atribuída pelos organizadores do museu, pelas fontes consultadas pela revista e pela própria publicação.

Vê-se, pela única fotografia do museu que aparece na reportagem, que ele é pobre e certamente frustrará as pessoas que têm maior intimidade com a obra do escritor mineiro.

Não é esse o entendimento de ninguém menos do que a curadora do Fundo João Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Sandra Vasconcellos admite que não sabia da existência das cartas. Embora o IEB tenha comprado o acervo do escritor, com 20 mil itens, sem contar os livros, diz que muita coisa ficou de fora da aquisição, inclusive o período do início do exercício da profissão (que abandonou, para se tornar diplomata), sobre o qual “a gente não tem muito acesso”.

Um alerta

Partindo de quem parte, a declaração é espantosa. As cartas pouco (ou mesmo nada) deverão acrescentar sobre o que se sabe sobre a presença de Rosa em Itaguara e a influência que o local realmente exerceu sobre o médico. Ele tratou a respeito em algumas das suas cartas e a filha, Vilma, aborda com bastantes detalhes a vida do jovem casal na cidade no seu livro Relembramentos. O pai já estava casado com Lygia, filha do influente político mineiro Affonso Penna. Vilma nasceu em Itaguara.

Ainda assim, a influência da pequena cidade não tem a menor possibilidade de se equiparar ao significado das cartas do pai do escritor, Floduardo, o “seu” Flô, a principal matriz do universo temático e linguístico que o filho construiu. Não a partir de uma vivência no sertão (e Itaguara nem sertão é), que ele conheceu de fato em uma única viagem, patrocinada por Assis Chateaubriand, o dono do poderoso império de comunicações dos Diários e Emissoras Associados.

O incrível universo literário de Guimarães Rosa é, sobretudo, um processo intelectual, pura criação artística a partir do material bruto fornecido pelo pai e leituras (como dos velhos almanaques, como os portugueses do Porto e Bertrand), submetido à mais preciosa lapidação das palavras e das línguas já realizada por um criador humano.

O mais é fetichismo de acadêmico. Faz-me lembrar da crítica arrasadora que o recentemente falecido Gore Vidal fez desabar sobre a edição das 2078 notas dos Cadernos de Notas e da correspondência de Francis Scott Fitzgerald pelo professor Matthew J. Bruccoli.

O levantamento pegou de tudo, até do claramente sem expressão e significado, formando grosso volume, em sua maioria constituída por inutilidades e desperdícios para a análise da vida e da obra do escritor americano da “era do jazz”. O que levou Vidal a concluir, com toda razão, que “os especialistas em literatura de hoje em dia são essencialmente colecionadores de fatos”.

Bizantinices à parte, o exemplo do Museu Sagarana (primeiro livro de Guimarães Rosa, de 1946, 10 anos antes de Grande Sertão: Veredas, publicado 11 anos antes de sua morte prematura), que surgiu quase do nada, pode servir de alerta para nós, repletos de motivos para tomar iniciativas semelhantes. Tarda – e como tarda – um museu da cabanagem como um da borracha, temas candentes à espera de um autor.

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[Lúcio Flávio Pinto é jornalista e editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)]