Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Quando o dinheiro fala, a verdade se cala

O título do texto é um antigo ditado russo, do tempos dos czares e que apesar de mesmo depois de tantos anos – já se vão quase 95 anos da Revolução Bolchevique que os destronou – a frase continua atual. A cada dia vemos provas de que por dinheiro e em nome dele, vale tudo. Recentemente pudemos acompanhar a atualidade deste ditado observando o comportamento da imprensa internacional que, na busca incessante pelo tilintar mais forte de suas caixas registradoras, atropela a ética, flerta com a ilegalidade e traveste a libertinagem com roupas de uma suposta “liberdade de expressão e/ou de imprensa”.

Explico: neste mês já tivemos uma revista francesa que publicou fotos da duquesa de Cambridge e o príncipe da Inglaterra onde os mesmos aparecem de maneira bastante descontraída, curtindo férias na França. A duquesa chega a aparecer apenas com a parte de baixo do biquíni, o que, me desculpem, deveria ser normal, pois a mesma estava em uma propriedade privada e por isso deveria ter sua intimidade preservada. Anormal foi o comportamento do fotógrafo e da revista, que serão processados pela família real inglesa.

A justificativa dos profissionais da notícia é de que o fato é notícia e que por isso sua divulgação se justifica. Para este observador, tal argumentação é fraca demais para se sustentar aos olhos da lei de qualquer país democrático que queira se levar a sério. O caso é um evidente atentado à privacidade de uma celebridade e o ocorrido é um desserviço ao trabalho jornalístico. Na realidade, o que aconteceu ali foi que, como tais fotos seriam uma ótima fonte de renda, uma vez que nossa sociedade está a cada dia mais superficial e ávida por factoides, tanto o fotógrafo quanto os veículos que publicaram as mesmas pensaram apenas no faturamento, mostrando a verdade e a atualidade do ditado russo.

O fato não se sobrepõe à ética

O mesmo pode se dizer do vídeo produzido nos Estados Unidos com ofensas a fé islâmica e também as charges ofensivas ao profeta Maomé, publicadas na Europa. A imprensa e a comunicação em si não deveriam ser utilizadas como ferramenta de ódio, pois esse não é o papel que lhe cabe na sociedade contemporânea. Infelizmente, uma árvore jamais poderá esconder o arvoredo e a cada repetição de fatos como estes fica evidente que em nome do dinheiro a imprensa e os comunicadores não pensam duas vezes em lançar mão do lado negativo da comunicação, somente para juntar mais e mais riquezas, mesmo que tal objetivo desencadeie reações extremas e tão injustificáveis como os protestos que vêm acontecendo nos países de maioria islâmica.

Estes casos me lembram de uma história que ouvi quando ainda estava na faculdade. Um jornalista alemão, correspondente de uma das maiores revistas daquele país e que atuava no Rio de Janeiro, contou a seguinte história para as dezenas de alunos que o assistiam na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Você, sendo jornalista, é informado de que um político envolvido em escândalos está hospedado em um hotel de sua cidade e vai para o mesmo a fim de conseguir uma entrevista com o ele. Você chega ao hotel e fica esperando o possível entrevistado no saguão. Algum tempo depois, desconfiado da falta de notícias sobre o mesmo e vendo que ele não sai do quarto, você tem oportunidade de chegar ao andar do quarto e bater à porta: Lá dentro ninguém responde. O que você faz? Arromba a porta? Desiste da entrevista? Conseguindo entrar na suíte, você depara com o cadáver do político. O que você faz? Publica o “furo” ou deixa passar a “oportunidade”?

Para quem leu até aqui e ficou a primeira resposta, deixo aqui a mesma resposta dada pelo repórter alemão. Vocês não trabalhariam naquela revista. Ao ser perguntado do por que do veto, ele respondeu: por mais importante que seja o fato, ele não pode se sobrepor às questões éticas da profissão. Infelizmente, ao que vemos, a lição dada pela revista germânica não é seguida pelas co-irmãs da Europa e dos EUA.

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[Ricardo Abreu é jornalista, Maceió, AL]