Monday, 15 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Os pecados da carne e as testemunhas do antijeová

Então, você acha, mesmo, que a Gisele Bündchen lava o cabelo com o xampu Pantene e assina a TV a cabo SKY? Ou que a Ana Maria Braga consome toda aquela tralhaiada inútil que anuncia diariamente no seu programa de tevê? Ou que a Xuxa – a Xuxa, com toda a grana dela! – hidrata o corpinho com o simplesinho dos simplesinhos creme Monange? Ou, ainda, que o Faustão paga sem bufar as taxas abusivas de empréstimo da Fininvest e que a Hebe Camargo bebia Brahma? E que o Neymar tem mesmo conta no Bradesco, entre outros mil testemunhais dele e de tantos que abundam nas telinhas do Brasil?

Fala sério. Você sabe muito bem que tudo é rigorosamente mentira e faz parte de uma farsa em que anunciante e consumidor são cúmplices silenciosos de uma – diga-se de passagem – mediocrezíssima ficção. Por que agora tantos pudores, esgares, ohhs e ahhhs, justamente com o Rei Roberto Carlos e a Friboi?

Os motivos, imagino, são vários.

Roberto é um vendido – acusou um renomado blogueiro-jornalista, alegando que o Rei ganhou não sei quantos milhões pra dizer que desvirou de vegetariano pra carnívoro. Que falta de vergonha, tapa na cara de todos os vegetarianos e veganos do Brasil e do mundo. Falta de hombridade, seriedade, moral. O homem rasgou seus valores por dinheiro, isso não se faz! Bombou Facebook e Twitter. Parecia um quadro de Bosch: os rotos esbravejando dos rasgados.

Mentiras testemunhais

Tamanho moralismo de cuecas e mal disfarçada inveja me fizeram imaginar que havia ali algo muito mais metafísico que físico ou fisiológico.

Me dei conta de que Roberto Carlos é uma espécie de santinho do Brasil. Intocado, puro, sacristão, coroinha. Sempre de plantão no altar do nosso imaginário. Ele é aquele da família brasileira que se imola para todos os outros poderem pecar. Ele fala de Jesus Cristo, de mãe, de Nossa Senhora. Ele andou com uma turma da pesada – Erasmo, Tim Maia –, mas nunca se conspurcou, nunca se meteu com drogas, bebidas, escândalos. Ele perdeu uma perna num acidente e superou. Ex-voto! Ele é o cara. Ele é o mentor amoroso de tantas gerações. Como se atreveu a dizer que voltou a comer carne porque é Friboi? Como se atreveu a descer do sacrário e se vender por inomináveis trinta-dinheiros?

Desconfio que Roberto ocupe o lugar, também, de eterno namoradinho do Brasil, uma espécie de Regino Duarte de calças, baluarte do amor sem mácula, do romantismo que nunca morre, amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores. Tudo no papel, no ouvido, tudo no coraçãozinho com as mãos. Porque, francamente, ninguém imagina o Roberto Carlos pelado transando loucamente numa cama, mesmo que ele cante que vai cavalgar a moça e pedir café amanhã de manhã. Não! Roberto Carlos, não. Roberto Carlos é que nem mãe. Não tem sexo. Não tem pecado. É tipo um anjo, Roberto Carlos.

O único pecado que vejo, em tudo isso, é que o comercial de tevê é muito ruim, malfeito, mal dirigido, mal roteirizado, mal interpretado. Uma reverenda porcaria, sob o ponto de vista técnico e criativo.

Como ideia, em tese, me parece coerente com todos os outros mentirosos comerciais de testemunhais: Roberto Carlos voltou a comer carne e mente que a carne é Friboi. Mentiu, sim, como todos os outros antes dele. Exceção, talvez, ao Zeca Pagodinho, que – dizem! – sempre bebeu Brahma. Mas confirma a regra.

Praga abominável

Stanislaw Ponte Preta ironizava, nos anos 1960: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Cabe pensar, quem sabe, que esta é uma boa hora pra instaurar o direito, de fato, e começar a cumprir o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990):

Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.

Leu ali? Qualquer informação, inteira ou parcialmente falsa. Qual-quer. Nem pra Robertos Carlos, nem pra Fribois, Giseles, Anas, Hebes ou Faustões. Aleluia! Nós, os pobres-mortais-consumidores-telespectadores, nos livraríamos, de lambuja, também, de uma praga bem mais que abominável. Da propaganda ruim.

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Graça Craidy é publicitária; seu blog