Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Um ano surpreendente

É corriqueiro, ao final de mais um ano, relembrarmos determinados fatos e acontecimentos que marcaram o período que finda. Nesse sentido, podemos afirmar que 2014, ano bastante aguardado por muitos, devido à realização da Copa do Mundo no Brasil e às eleições, correspondeu às expectativas e não decepcionou: para quem gosta de surpresas foi um ano bastante movimentado. A eleição presidencial mais emocionante desde 1989, a pior derrota da seleção brasileira em um Mundial de futebol, tensões geopolíticas e radicalizações sociais, entre outros fatores, fizeram com que 2014 já entre para a história como um dos anos mais importantes deste início de século.

Na mídia brasileira os destaques foram as ações de “justiceiros” em várias cidades do país, os problemas relacionados ao abastecimento de água no estado de São Paulo, a volta do fantasma da inflação, o abuso de autoridade de alguns juízes e as revelações de casos de corrupção na Petrobras, envolvendo políticos da situação e da oposição. Infelizmente, 2014 também será lembrado por vários atos de preconceito. Em São Paulo, adolescentes da periferia, adeptos dos “rolezinhos”, foram impedidos de entrar em shopping centers de bairros nobres. Durante uma partida da Copa do Brasil, alguns torcedores gremistas insultaramo goleiro Aranha, do Santos, chamando-o de macaco. Nas redes sociais, internautas dirigiram ofensas à Miss Brasil Melissa Gurgel por causa do seu sotaque nordestino. Não obstante, diversos moradores do Centro-Sul achincalharam os habitantes do Nordeste por causa da maciça votação que Dilma Rousseff obteve nessa região do país.

O ano que está terminando foi marcado por perdas irreparávies no mundo das artes. Na literatura, tivermos as mortes dos escritores Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Gabriel García Márquez. As telas de cinema e televisão perderam José Wilker, Hugo Carvana e Robin Williams. No mês de novembro faleceu o grande Roberto Gómez Bolaños, criador e protagonista dos seriados Chaves e Chapolin, exibidos no Brasil pelo SBT. Nos noticiários internacionais, os principais destaques foram as atividades do grupo terrorista Estado Islâmico nos terrirórios iraquiano e sírio, as atrocidades dos radicais do Boko Haram contra adolescentes nigerianas, as tensões geopolíticas entre a Rússia e potências ocidentais, as tentativas frustradas de independência da Cataunha e da Escócia, os bombardeios de Israel à Faixa de Gaza, o surto de ebola na África Ocidental e o ataque realizado pelo Talebã a uma escola do Paquistão causando a morte de mais de cento e quarenta pessoas.

Partida que parecia treino

No cenário musical, houve o lançamento de um álbum do Pink Floyd (após vinte anos sem material inédito), a volta dos Racionais MCs aos estúdiso, os setenta anos de Chico Buarque, o falecimento do veterano cantor Joe Cocker e os vinte anos da morte do maestro Tom Jobim (com direito a estátua de bronze em tamanho real na orla da praia de Ipanema). Em contrapartida, composições como “Lepo Lepo”, “Fui fiel” e “Dom dom dom” comprovam que no atual mainstream radiofônico brasileiro nada é tão ruim que não possa piorar. Por sua vez, a programação da sexagenária TV brasileira continua em franca decadência. Programas de auditório popularescos, humorísticos apelativos e novelas com enredos extremamente padronizados dominaram a programação. Em outros termos, uma grade inerentemente voltada para manter as massas alienadas e submissas. O grande destaque negativo do ano foi o polêmico seriado Sexo e as Nega, exibido pela Rede Globo, que trouxe à tona a clássica estigmatização da mulher negra na televisão brasileira.

Já o segundo campeonato mundial de futebol realizado no Brasil cumpriu as expectativas: foi realmente a “Copa das Copas”. Antes mesmo de a bola rolar em campo, fora das quatro linhas os mais variados setores da sociedade brasileira travaram diversas batalhas ideológicas que tiveram o Mundial como pano de fundo. Nessa “partida extracampo” estiveram os grupos contrários à realização da Copa (ou que pelo menos agouraram o evento) e os setores cegamente favoráveis ao torneio realizado pela Fifa. Sendo assim, a dicotomia “vai ter copa versus não vai ter copa” foi a principal discussão do primeiro semestre. Contrariando o desejo daqueles que esperavam que o Brasil passassse vergonha frente à comunidade internacional, a Copa do Mundo transcorreu sem maiores falhas de organização. Porém, dentro de campo, a seleção brasileira decepcionou. Logo na estreia, uma vitória sofrida contra a Craoácia, com direito a ajuda da arbitragem. Ao longo do torneio, o Brasil continuou não convencendo até que, na partida contra a Alemanha, pela semifinal, o time comandado por Felipão protaganizou o maior vexame da história do futebol: uma humilhante derrota por 7 a 1. Nem o mais otimista dos alemães, ou o mais pessista de nossos compatriotas imaginaria um placar tão elástico. Surgia o “Mineraço”: uma partida surreal, que mais parecia um treino de ataque contra defesa. Na final da Copa, a Alemanha bateria a Argentina na prorrogação e sagrava-se tetracampeã mundial. No futebol tupiniquim, mais uma vez as equipes mineiras foram hegemônicas, com Atlético (campeão da Copa do Brasil) e Cruzeiro (campeão brasileiro), o que veio a frustrar a grande mídia esportiva, declaradamente favorável às equipes do eixo Rio-São Paulo.

Surpresas positivas e negativas

Desde 1989, quando os brasileiros puderam escolher seu presidente após um hiato de quase três décadas, não tínhamos uma eleição tão disputada. O pleito ganhou novos contornos depois da trágica morte de Eduardo Campos em um aciedente aéreo no mês de agosto, contou com o efêmero fênonemo Marina Silva, teve Aécio como principal favorito nas primeiras pesquisas para o segundo turno, mas, no final, em uma disputa acirradíssima, Dilma Rousseff foi reeleita presidenta da República. Durante o processo eleitoral, um considerável número de simpatizantes petistas e tucanos trocaram vários insultos, difamações e apoiavam cegamente seus respectivos candidatos como se estivessem defendendo a própria pele. De repente, muitos brasileiros aparentemente alienados politicamente, se tornaram partidários ferrenhos de Aécio Neves ou Dilma Rousseff. Típico exemplo de nosso personalismo, em que os indivíduos, ao invés de debaterem argumentos, preferem ataques pessoais.

Após as eleições, no chamado “terceiro turno”, setores golpistas de nossa sociedade organizaram passeatas pedindo o impeachment de Dilma e, por sua vez, o governo já sinalizara uma guinada à direita, ao nomear um ministério conservador, de acordo com as exigências do mercado financeiro e dos grandes empresários. Um enorme paradoxo para uma candidata que, durante a campanha, se postava como representante das camadas mais pobres da população. Por fim, no apagar das luzes de 2014, no mês de dezembro, Estados Unidos e Cuba restabeleceram laços diplomáticos após cinco décadas de relações cortadas. Um histórico acontecimento que finalizou um 2014 com muitas surpresas positivas e negativas.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG