Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Abelhas bebedoras de lágrimas e a mosca mimetizada

A revista Superinteressante resolveu reapresentar uma notícia publicada em agosto de 2012, com o título de “Abelhas gostam do choro humano“, em sua página do Facebook. Segundo um extremamente curto texto de divulgação, “Três espécies de abelha têm um paladar inusitado: adoram beber lágrimas humanas. Foi isso o que concluiu um estudo de pesquisadores tailandeses, que também descobriram outra coisa: se a pessoa tiver comido carne, queijo ou achocolatado, suas lágrimas se tornam mais ricas em proteínas – e ainda mais apetitosas para as abelhas.”

Para acompanhar essa divulgação, como de costume em todas as páginas do Facebook, a revista apresentou a imagem de uma abelha quase pousando sobre o dedo de uma pessoa. Nesse momento, um processo recorrente de falta de preparo e capacitação para a divulgação biológica teve inicio.

A imagem que acompanha a notícia não é de nenhuma espécie de abelha, mas de uma mosca conhecida popularmente como mosca-das-flores, pertencente à família das Syrphidae e ordem Díptera. As Syrphidae são importantes polinizadores de plantas com flores em uma variedade de ecossistemas em todo o mundo, sendo visitantes florais frequentes para uma vasta gama de plantas silvestres, bem como para as culturas agrícolas e são muitas vezes consideradas o segundo mais importante grupo de polinizadores após as abelhas. Acredita-se que as abelhas são capazes de transportar um volume maior de pólen em seus corpos, mas as moscas podem compensar isso através de um maior número de visita às flores.

As abelhas e moscas apresentam diversas características que as dividem em grupos biológicos diferentes. Apesar das semelhanças observáveis, um olhar mais criterioso mostra que a “abelha” da foto da Superinteressante é na realidade uma mosca. Moscas são insetos da ordem Díptera, como citado anteriormente, possuindo duas asas desenvolvidas e duas atrofiadas (balancins), possuem olhos muito grandes e antenas muito curtas. As abelhas são insetos da ordem Hymenoptera e possuem quatro asas desenvolvidas (as anteriores estão presas com ganchos as posteriores), possuem olhos menores do que das moscas e antenas mais longas. Quando observamos a imagem podemos perceber que o inseto apresentado possui apenas um par de asas e uma antena extremamente curta, o caracterizando facilmente como uma mosca.

Simplismo na transmissão da noticia

Ao utilizar essa foto, a Superinteressante acaba gerando um desserviço à divulgação científica e ao seu mote: “o site para quem ama conhecimento”. Ela acaba entrando no rol das revistas que propagam informações incorretas e de baixa qualidade para uma população sedenta de conhecimento. Além disso, a revista perde a oportunidade de apresentar esses insetos que são pouco estudados, mesmo sendo polinizadores de extrema importância.

A notícia extremamente curta cita apenas que três espécies de abelhas costumam beber lágrimas humanas, sem apresentar grandes detalhes sobre quais espécies realizam esse comportamento e de como isso ocorre. O simplismo na transmissão da noticia em um momento aonde a internet é a maior fonte de informação da população pode ocasionar problemas sérios. Ao ler um artigo como esse, crianças ou até mesmo adultos poderiam se sentir compelidas a deixar as abelhas se alimentarem de suas lágrimas e acabarem com uma séria picada nos olhos. Quando se trata de uma divulgação, todo o cuidado é pouco.

Segundo o artigo Bees (Hymenoptera: Apidae) That Drink Human Tears, os pesquisadores observaram, em mais de 262 casos registrados, que abelhas das espécies Lisotrigona cacciae, Lisotrigona furva e Pariotrigona klossi (Meliponini, Apidae) costumam se alimentar das lágrimas provenientes dos olhos humanos em regiões da Tailândia, durante todos os meses do ano. Além dos humanos, eles também observaram que essas espécies costumam visitar outros mamíferos como cães e zebus, o que indica uma ampla gama de hospedeiros. Um comportamento interessante observado é que essas abelhas também carregaram suor durante sua pastagem, algo já observado em outras espécies antropofílicas. Os pesquisadores propõem em seu artigo que essas espécies visitam os olhos em busca de lágrimas pelo alto teor de proteínas, além dos sais e água.

Poucos relatos de visitação de flores, rara presença de pólen nas pernas, reduzida pilosidade, ausência de resina no corpo e nas pernas, a presença de um metassoma fortemente extensível para o transporte de fluidos, são características interpretadas pelos pesquisadores como possíveis indicações de uma adaptação ao ato de beber lágrimas para a obtenção de proteínas. Essas adaptações não são compartilhadas por todas as espécies de abelhas e com isso o comportamento observado não pode ser generalizado. Esse parece ser um belo exemplo de diversificação e processo evolutivo ocorrendo dentro do grupo.

Um belo exemplo, mas não exclusivo

Esse comportamento observado nas abelhas é extremamente curioso, mas não é exclusivo. Espécies de dípteros também são conhecidas por visitarem os olhos de humanos em busca de alimento. Mosca-dos-olhos é uma designação comum para diversas espécies de moscas do gênero Hippelates, da família dos cloropídeos, que possuem o hábito de lamber o canto dos olhos do homem e de outros animais, causando, às vezes, ulcerações e infecções. Alguns drosofilídeos também são bebedores de lágrimas comuns e bem descritos, com ampla distribuição na China, no Japão e na Europa. Durante o artigo, os pesquisadores também relataram a visita de moscas-da-fruta aos olhos dos populares, mas essas visitas eram muito mais comuns em altitudes mais elevadas e em habitats obscuros. Entre 172 espécimes de drosofilídeos observados como bebedores de lágrimas, haviam pelo menos 31 espécies de Amiota, Apsiphortica, Paraleucophenga e Phortica, sendo mais da metade novas para a ciência.

Um dos problemas relatados pelos pesquisadores é que essas moscas não podem ser distinguidas de forma confiável enquanto circulam em torno de uma cabeça, mas foi observado que as moscas tendem a se aproximar do olho dançando no plano vertical, muitas vezes batendo repetidamente contra o olho antes de aterrissar nos cílios, enquanto as abelhas zigue-zagueiam no plano horizontal e pousam de forma mais suavemente.

Outro problema que deve ser estudado é o risco potencial de transmissão de patógenos por abelhas que visitam os olhos, da mesma forma que ocorre com dípteros.

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Fabiano B. Menegidio é biólogo, bioinformata e mestrando em Biotecnologia