Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

E agora, imprensa?

Estou perplexo. Já escrevi aqui sobre a conduta desregrada de uma imprensa inquisidora que condenou uma jovem torcedora do Grêmio à fogueira da opinião pública. Ela errou e teve que responder pelos seus atos. Mas isso não incluía perder o emprego, ter a casa atacada e queimada, ser vítima de agressões etc.

Agora, isso acontece de novo. Só mudou o time. O torcedor é colorado, do Internacional. A diferença, no entanto, ultrapassa a cor da camisa. A gremista cometeu injúria racial, o colorado não. Por conta da irresponsabilidade da revista Placar, o torcedor Vinícius Paixão virou o novo bode expiatório de uma imprensa sem qualquer comprometimento com a ética e com a precisão das informações. Não se preocupam com a reputação alheia, pois, parafraseando Balzac “para o jornalista, tudo o que é provável é verdadeiro”. É a prática do denuncismo tomando as coberturas esportivas, com jornalismo zero.

A polêmica é fruto de uma ignorância comum em jogos de futebol: a ofensa como ferramenta de torcida. O lateral-esquerdo do Inter, Fabrício, saiu de campo fazendo “gestos obscenos” para sua própria torcida, que, insatisfeita com a vitória colorada de 1 a 0 sobre o Ypatinga pelo campeonato gaúcho, o xingava de volta, na quarta-feira. Foi em pleno dia dos bobos que a imprensa caiu na sua própria mentira e repercutiu a notícia da Placar. Condenou Vinícius como o novo torcedor racista do Rio Grande do Sul. A base da apuração é risível: um vídeo de 9 segundos em que Vinícius aparece xingando o jogador, sem dúvidas. Ele admite o xingamento, nega o racismo.

Vítimas do jornalismo

Uma análise da leitura labial do torcedor revela o tiro no pé que a imprensa se deu. Aos 6 segundos, Vinicius é filmado no meio de uma frase. Ele diz dois palavrões. Daí para os jornalistas entenderem que ele disse “macaco” é um pulo de um galho a outro. Sem contar que sem “macaco” não haveria “notícia”. Acontece que Vinícius Paixão é negro, como toda sua família. Seus pais são negros, sua esposa e seus dois irmãos. Alguns deles, inclusive, já foram vítimas de racismo. Então, Vinícius, negro, cercado de outros torcedores também negros, teria insultado um jogador negro. Faz sentido? A probabilidade de um insulto racista como “macaco” ser proferido contra o jogador do Inter e não iniciar uma briga na torcida é 0 à enésima potência. Mesmo que quisesse, Vinícius sairia com um olho roxo do estádio.

Mais uma vez, Heródoto Barbeiro estava certo. Não se faz jornalismo sem fazer vítimas. Ah, mais só um detalhe: isso foi qualquer coisa, menos jornalismo. Pois jornalismo é algo que se faz muito pouco no Brasil. E que quando a imprensa acende suas fogueiras, ela mesma é flambada.

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Tiago Lobo é jornalista