Wednesday, 29 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Nem eles nem o pai deles

A educação do brasileiro ainda padece de sérios problemas. Começa que o sujeito joga papel, latinha de cerveja ou de refrigerante pela janela do carro, e faz isso acompanhado dos filhos.

Ele chegou a outra classe social, comprou um carro, tarefa facilitada pelo crediário, mas mostra que não foi educado para o trânsito, é só observar como dirige.

E ainda xinga os filhos com perguntas do tipo “você não tem educação, não?”. Não. Nem eles nem o pai deles. Vai-se saber como obteve a carteira de motorista.

Há outras coisas para as quais o brasileiro também não foi educado. A música, por exemplo.

Lugares marcados

Outro dia eu estava num cinema do Rio que apresenta um programa imperdível. Transmite ao vivo, na telona, óperas em cartaz em Nova York.

Notei os primeiros indícios da falta de educação de muitos dos espectadores ainda na entrada. Muitos faziam das tripas coração para ultrapassar os carros um pouco antes da cancela do estacionamento e assim ganharem alguns metros de vantagem, como se estivessem numa corrida de cavalos.

Já no estacionamento, impediam o prosseguimento da fila de carros por uma razão muito simples: ligavam o pisca-alerta e paravam alguns metros antes do carro que ia sair, com o fim de garantirem a vaga. Os outros esperavam, mas muitos deles fariam o mesmo nas vagas seguintes.

Quando desciam do carro, as mulheres ostentavam roupas, calçados, joias e penteados que estimei valessem mais cobertas de tudo aquilo do que sozinhas, com o corpo que têm e a educação e a cultura que adquiram ou lhes deram ao longo dos anos.

A propósito, o humorista José Simão comentou assim um ranking internacional:

“E adorei a lista das mulheres mais poderosas da revista Forbes! 1) Angela Merkel; 2) Hillary Clinton; 3) Dilma Rousseff; 60) Gisele Bündchen. Agora bota elas peladas e refaz a lista. Classifiquem de novo. Rarará.”

Dentro da sala, a coisa piorava. Ainda que a numeração das poltronas evitasse mais estripulias, o lanterninha era obrigado a pedir que “entrões” deixassem os lugares onde estavam e sentassem onde os respectivos números lhes indicavam o lugar.

Cultura geral

Começou enfim o espetáculo, que exige recolhimento, mas a plateia apresentava pontos de burburinho, manchas barulhentas à frente, atrás, à direita e à esquerda. Aos poucos, os barulhentos foram se aquietando enfim para que todos pudessem degustar aquele belo e saboroso acepipe literomusical.

Foi quando lembrei de um episódio com que os poderosos da ocasião muito entristeceram Verdi. A pedido de autoridades do Egito, ele compôs a Aida. Uma jovem escrava etíope se apaixona por Radamés, comandante do exército egípcio. No fim, o militar, acusado de traição, morre executado: trocou o amor de uma egípcia pelo de uma etíope. Aida, é, pois uma história de amor com final infeliz, uma tragédia.

Para a estreia, foi gasta uma fortuna. Contrataram trezentos figurantes e importaram da França todos os trajes. O elmo e a espada de Radamés eram de prata verdadeira, não bijuterias, como a daquelas senhoras que desciam dos carros e preferem, por segurança, deixar suas joias verdadeiras no cofre, em casa.

Verdi ficou muito aborrecido com aquela ostentação e parou de compor. Passou a cuidar do jardim e dos animais em sua casa de campo.

Alguns anos depois, porém, fez o famoso Requiem, e compôs mais duas óperas. Faleceu em 1901. Estava com 87 anos.

Mas quantos têm educação e cultura geral para degustar uma ópera como Aida? Dos motoristas aos quais aludi, nenhum. O comportamento no trânsito oferece sérios indícios de como a pessoa é em todos os outros setores.

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[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]