Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Um silêncio indigno

O jornal Diário de Cuiabá desempenha um papel no mínimo questionável no que diz respeito à cobertura da discussão acerca da concessão (por 30 anos a uma empresa privada) dos serviços de água e tratamento de esgoto na cidade. A percepção de que isso faz sentido se deu dias atrás. Na quarta-feira 13 de dezembro, ocorreu uma audiência pública na Câmara Municipal para tratar do assunto. O fato de que o evento ocorreria foi divulgado aos quatro ventos. Porém muito menos se falou sobre o que lá aconteceu.

O prefeito de Cuiabá, Wilson Santos, defensor da concessão da Sanecap, empresa pública do setor (administrativamente viável, conforme ele mesmo disse), expôs seus argumentos. Foi aplaudido e vaiado. Ouviu técnicos e representantes da sociedade civil contrários e favoráveis. Ouviu vereadores que concordaram e discordaram de sua fala, também.

Não conseguiu obter a unanimidade que esperava, e como havia planejado. Pois as faixas em frente à Câmara, de defesa escancarada à concessão da Sanecap, já davam o tom da ‘festa’ programada pela administração municipal. Mas nada de extraordinário em tudo isso, visto que numa disputa de posições, de pensamentos, de idéias, de projetos de sociedade, tantas outras táticas são utilizadas.

Crítica à direção

O estranho é que o clima tenso dentro do plenário onde ocorreu a audiência pública não foi reportado por dois dos três jornais diários da cidade. O único que deu espaço destacado ao tema, de evidente interesse público (o destino da água), foi a ‘Folha do Estado’. Deu capa e uma página interna inteira, ouvindo os defensores da concessão e os que se posicionavam contra, sendo estes últimos do PMDB e do Fórum de Luta Contra a Privatização da Sanecap. O material foi ilustrado com fotos, declarações num quadro à parte, três retrancas além do texto principal.

O jornal A Gazeta veiculou apenas uma nota, e da assessoria de imprensa. Trata-se do periódico mais lido na cidade e o que pertence ao maior grupo de comunicação do estado de Mato Grosso. Portanto, falta de equipe para cobrir não foi. O problema ocorreu na linha editorial, isto sim. Ou melhor: nas conveniências da administração jornalística.

Mas o pior ocorreu com o Diário de Cuiabá, que tem profissionais admiráveis, mas que desta vez esbarrou num posicionamento diretivo que no mínimo merece ser melhor exposto. É que o Diário esteve no local da audiência pública, mas não publicou o assunto. Nada de crítica ao repórter, ao fazedor de matérias, mas à direção da empresa jornalística e uma possível relação com a prefeitura de Cuiabá, passando pela habilidade de trabalho da Secretaria de Comunicação.

Contra a cidadania

Digo que com o Diário ocorreu o pior porque para ele a audiência pública nem mesmo aconteceu. O periódico nem mesmo defendeu ardorosamente a idéia do prefeito. Nem mesmo falou mal sobre quem entende concessão como prejuízo à população. O Diário de Cuiabá foi omisso, no mínimo. Desrespeitou os que o lêem.

E o pior é que na sexta 15, em notinhas, o jornal passou a criticar os que apresentam argumentos opostos à idéia do prefeito. Ou seja, assim o Diário amplia, neste caso, a sua falta de dignidade com a população de Cuiabá (plano genérico), com os seus leitores (patamar específico). E com os seus assinantes (esfera de associação ainda mais imediata).

O que se espera, e se cobra, é que a direção do Diário de Cuiabá faça o que costumeiramente diz que sempre fazer: jornalismo. E ressalta-se que a crítica em pauta é sobre a cobertura (ou falta de) relativa à discussão sobre a privatização/concessão da Sanecap. Também se destaca que a crítica se apresenta contra a direção do jornal, uma vez que os trabalhadores da notícia, ao que se percebe, têm tentado cumprir com dignidade a sua lida diária.

Nunca é demais pedir que o Diário de Cuiabá, por conta desse episódio, peça desculpas por agir contra a cidadania.

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Jornalista em Cuiabá, integrante do Fórum de Luta Contra a Privatização da Sanecap