
(Foto: appshunter.io/Unsplash)
O The Washington Post é um dos maiores, mais influentes e mais conhecidos jornais do mundo, referência na área principalmente por ser o lar do Caso Watergate. Não é uma surpresa, portanto, que as notícias sobre a demissão de 300 dos cerca de 800 jornalistas da empresa e a eliminação de editorias tenham causado um rebuliço na área, aumentando o pessimismo sobre o futuro da profissão.
O caso chama ainda mais atenção porque o veículo é controlado pelo bilionário Jeff Bezos desde 2013, dono da gigante Amazon e uma das 10 pessoas mais ricas do mundo, com fortuna estimada em mais de 240 bilhões de dólares. A situação calamitosa de um veículo controlado por um empresário de sucesso em outro ramo torna uma pergunta inevitável: afinal, será que é tão difícil assim gerenciar uma empresa jornalística atualmente?
A resposta curta e grossa é que sim, é. Mas é sempre importante levar alguns fatores em conta. Em primeiro lugar, Bezos sempre deixou claro que estava comprando o Post como forma de evitar a “morte” do jornal e como a sua contribuição para a saúda da democracia dos Estados Unidos. A compra, portanto, parecia muito mais um gesto de caridade do que uma grande estratégia comercial.
Por mais que tenha destinado recursos financeiros e tecnológicos para o veículo, o bilionário adotou uma estratégia de distanciamento do negócio (“hands off”, seguindo o jargão do mercado), talvez até para evitar acusações de interferência e conflitos de interesse. Por isso, optou por indicar publishers que tocariam a operação no seu lugar.
E a escolha desses nomes foi, talvez, o grande erro de Bezos. O primeiro, Fred Ryan, falhou em apresentar uma visão estratégica clara e adaptada à economia digital sobre o que o Washington Post buscava ser, e como ele chegaria até lá. Mas foi beneficiado pela explosão de audiência no primeiro governo Trump e pela capacidade de atração de público e recursos que a marca do jornal ainda carregava.
Ryan acabou ficando nove anos no cargo, mas caiu na sequência de um tombo de audiência e receita que o jornal enfrentou. Em seu lugar, Bezos escolheu Will Lewis, que segue no cargo. Lewis é uma “solução externa”, trazido do Reino Unido pelo bilionário. No Velho Continente, foi uma peça-chave do império midiático de Rupert Murdoch. Em pouco tempo, seu estilo caça-cliques de fazer jornalismo e uma série de problemas éticos do passado estremeceram a confiança da redação. Sem força interna e focado em se defender de críticas, fez pouco até o momento para reverter a situação do veículo.
Os sinais de um “passaralho” eram claros há meses. O jornal já havia feito demissões nos últimos anos, incluindo de repórteres consagrados, e os executivos não foram capazes de apresentar uma visão estratégica clara sobre o futuro do negócio. O resultado não poderia ser outro.
Ao mesmo tempo, a relação de Bezos com o Washington Post parece ter mudado. O bilionário tem mostrado insatisfação com a situação do jornal e uma disposição cada vez menor em injetar parte de sua fortuna em um negócio que parece à deriva. Cortar, portanto, virou sinônimo de sobreviver. Mas a solução para salvar o jornalismo é fazer menos jornalismo? A resposta parece óbvia para muitos, mas não para os executivos da área.
É interessante notar, ainda, que os cortes ocorrem em um momento de intensa aproximação entre Bezos e o segundo governo Trump. Governo esse que chegou a invadir a casa de uma jornalista do Post sem sofrer nenhuma crítica posterior do bilionário. Antes disso, chegou a barrar o apoio público — algo tradicional no jornalismo norte-americano — à então vice-presidente Kamala Harris nas eleições de 2024, perdendo milhares de seus leitores. Ou seja, as interferências se tornaram um novo normal na cobertura do veículo, mesmo que isso impacte negativamente o negócio.
Se em 2013 Bezos parecia interessado em se colocar como um “paladino da democracia”, agora parece estar mais focado em não irritar quem está no poder para garantir o máximo de dinheiro e influência possíveis. Mas, se os donos originais do jornal não tivessem errado desde o início na gestão da empresa na era digital, o Post não teria chegado na situação que permitiu a compra por Bezos e o seu controle questionável do veículo em primeiro lugar.
Apesar das suas particularidades, o caso do Washington Post é mais um dentre tantos exemplos da incapacidade das empresas jornalísticas em lidar com a verdadeira disrupção gerada pela ascensão da internet comercial, hoje controlada pelas plataformas digitais. E sobre a oportunidade que isso cria para a “captura” do jornalismo por outros agentes.
A tarefa, é claro, não é fácil. Estamos falando de uma disrupção de modelo de negócios, cultura organizacional, papel na sociedade, confiança do público, tipo de produção, rotina produtiva e tudo mais que possamos imaginar. Mas também está claro que o caminho escolhido até aqui não está funcionando.
Nos estudos da Administração de Empresas, o diagnóstico seria enfático: as empresas jornalísticas não estão conseguindo fazer um processo de transformação digital bem-sucedido. O que isso significa? Falta estratégia, clareza sobre o papel no mercado e na sociedade e a criação de um modelo de negócios centrado em plataformas digitais próprias.
Ao invés disso, os veículos criaram dependências de plataformas digitais externas, em especial o Google atualmente, passaram anos tentando repetir no digital o que já foi feito em outros meios e se recusaram a mudar estratégias de longo prazo e a rever o próprio papel desses veículos na sociedade e reavaliar sua relação com o público, se apoiando na reputação de outrora. O resultado é triste, mas não surpreendente.
Seja o Washington Post nos Estados Unidos ou a Editora Abril no Brasil, fica evidente que não há mais espaço para uma mentalidade gerencial nos veículos que ainda está presa no século passado. Não apenas porque ela resulta em demissões, precarização e sobrecarga para os jornalistas que ficam e até o fechamento dos veículos, mas também porque ela se tornou uma vulnerabilidade para a sobrevivência do jornalismo e, portanto, da própria Democracia.
E o cenário não deve melhorar tão cedo, salvo raras exceções. O avanço implacável da inteligência artificial está gerando uma nova onda de disrupção para os veículos enquanto eles não aprenderam a surfar a anterior. É preciso mudar rápido, antes que seja tarde demais.
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João Pedro Malar é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e Bacharel em Jornalismo pela mesma instituição. É integrante do grupo de pesquisa COM+, onde se dedica a estudar temas voltados a modelos de negócio no jornalismo, jornalismo digital e a relação entre veículos e plataformas digitais.
