
(Foto de JESHOOTS.com/Pexels)
Está ficando cada vez mais claro que a reinvenção do jornalismo local na era digital passa, obrigatoriamente, pela definição do problema da sustentabilidade econômica e financeira. É a conclusão a que cheguei após quase 15 anos de pesquisas e experiências na produção de notícias para pequenas e médias comunidades. Desculpem se uso a primeira pessoa nesta narrativa, mas nós, jornalistas, temos que nos acostumar ao fato de que não podemos mais dar aulas e receitas para o leitor, mas sim conversar com ele. O diálogo é um desdobramento da interatividade criada pelas plataformas digitais e redes sociais, locais onde o público expressa suas opiniões, o que não acontecia antes.
A sustentabilidade é uma questão-chave porque, sem ela, os projetos jornalísticos locais não sobrevivem. O que a experiência mostrou é muito preocupante porque cada fracasso amplia a desconfiança das pessoas em relação ao jornalismo e aumenta as resistências a novos projetos. Isto sem falar no desgaste sofrido por profissionais e amadores do jornalismo local.
Já se sabe que a sustentabilidade depende do engajamento dos jornalistas com a população local e do atendimento das necessidades informativas do público-alvo. Sustentabilidade, engajamento e atendimento de demandas formam um conjunto só, em que cada parte depende das demais. O engajamento estabelece uma relação permanente e direta entre as pessoas comuns e o jornalismo, permitindo que o profissional identifique o que elas necessitam, quais são os problemas locais e o que elas farão com as notícias recebidas.
Uma questão de confiança
O engajamento também é condição fundamental para a confiança mútua e para o suprimento contínuo de dados, fatos e eventos locais, já que o jornalista não terá condições de montar sozinho uma agenda de notícias e investigar todas as necessidades informativas de uma comunidade. À medida que o engajamento cresce, o profissional dedica menos tempo à coleta e seleção de notícias e passa a se preocupar mais com a interpretação, contextualização e checagem do material informativo bruto fornecido pelo público.
O atendimento das necessidades informativas equivale a uma retribuição do jornalismo à confiança que recebeu da população. Isto exige o uso de uma narrativa adequada ao contexto econômico, cultural, social, político e religioso da comunidade. A escolha da narrativa adequada, seja ela em texto, podcast ou vídeo, dependerá da experiência do profissional e do seu nível de engajamento com a população. A formatação final da história a ser contada precisa incluir, obrigatoriamente, também a checagem da veracidade, exatidão, relevância e contexto dos dados, fatos e eventos narrados. O conjunto de todos estes fatores deixa claro que as exigências de qualificação dos praticantes do jornalismo local são bem maiores do que as impostas pela maioria das empresas jornalísticas comerciais.
É óbvio que a manutenção de um jornalista nestas condições e da infraestrutura, mesmo pequena, necessária para a sobrevivência do projeto noticioso local depende de dinheiro, insumo que se tornou escasso depois das mudanças provocadas pela digitalização na produção de notícias. O modelo de negócios baseado em anúncios pagos não garante mais a sobrevivência financeira a médio e longo prazo de jornais locais. As doações e financiamentos quase sempre têm prazo e seus valores são determinados por quem doa e financia e não pelos responsáveis do projeto. Por outro lado, as pesquisas mostram que, em média, 70% das pessoas não aceitam pagar por notícias, porque acham que podem obtê-las de graça e porque não consideram as informações recebidas como fundamentais no seu dia a dia.
O super-jornalista
A conclusão a que está chegando a maioria dos profissionais envolvidos em iniciativas jornalísticas locais é a necessidade de uma combinação de alternativas. A questão é que cada local tem sua especificidade, o que exige do jornalista conhecimento local (engajamento) e avaliação de infraestrutura necessária. A combinação de alternativas inevitavelmente implica soluções de curto prazo (doações, financiamentos, anúncios, prestação de serviços, permutas) e de médio ou longo prazo (assinaturas, paywall e taxa municipal).
A busca da sustentabilidade também exige tempo e conhecimento, o que inevitavelmente sobrecarrega o trabalho do profissional, já envolvido com o engajamento permanente e no atendimento das necessidades informativas. A maioria dos projetos jornalísticos locais reúne entre dois e três jornalistas (boa parte sem diploma e com escassa experiência na mídia convencional) que não têm tempo e nem a habilidade para sair à cata de dinheiro. A solução já desenvolvida em alguns lugares é a criação de miniagências de captação de recursos, com pessoal próprio, orientado pelos projetos associados à iniciativa e financiados por um percentual dos recursos captados. Uma miniagência funciona bem para financiamento a curto prazo.
No médio e longo prazo as exigências são diferentes, principalmente no tocante à criação de uma taxa municipal de financiamento do jornalismo local. É uma solução institucionalizada que, além da questão financeira, envolve algo mais profundo que é a mudança da percepção pública do jornalismo como uma função social e não como um negócio lucrativo. A criação de uma taxa para financiamento do jornalismo local amplia o debate envolvendo a administração municipal e a câmara de vereadores (*). Implicará também uma redefinição das relações entre contribuintes, legisladores e funcionários públicos, porque a taxa não pode ser transformada num tema eleitoral ou partidário, já que isto equivaleria a um novo desvio na destinação pública dos valores arrecadados. A cobrança da taxa visa, entre outras coisas, quebrar a resistência das pessoas ao pagamento de notícias locais. O grande objetivo é que cada comunidade seja capaz de sustentar pelo menos metade do orçamento do seu jornal local.
O exposto acima é um resumo do que já se pensou, testou e conseguiu em matéria de reinvenção do jornalismo local, uma modalidade noticiosa que é vista por alguns pesquisadores como essencial para a reinvenção da imprensa na era digital. Falta muita coisa ainda a ser pesquisada e experimentada, o que só será possível por meio da conversa entre jornalistas e o público.
(*) Maiores detalhes sobre este tema no artigo É inevitável o financiamento público do jornalismo
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
