Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Os erros e dilemas da imprensa na cobertura da Ucrânia

(Foto: Joshua Miranda/ Pexels)

A preocupação em tomar partido na cobertura jornalística na Ucrânia está cobrando um preço alto em matéria de notícias erradas, interpretações equivocadas do contexto do conflito, ao mesmo tempo que revela a desatualização das regras na cobertura de guerras. Basta ver episódios constrangedores como o das imagens do suposto tanque que esmagou um carro em Kiev bem no começo da guerra. E agora, mais recentemente, do noticiário sobre o incêndio na usina nuclear de Zaporizhzhia, no centro da Ucrânia.

Não era um tanque e sim um blindado para transporte de tropas. Não era russo e sim ucraniano e, aparentemente, o esmagamento do carro resultou da imperícia do condutor do veículo militar. Quando o Jornal Nacional mostrou as imagens, afirmando dramaticamente que se tratava de um tanque russo atropelando o carro de um indefeso idoso ucraniano, nenhum editor atentou para o fato de que era totalmente inverossímil a existência de um blindado russo perdido em plena Kiev quando as tropas de Putin ainda estavam bem longe.

O caso da usina também foi noticiado como se fosse um ataque russo capaz de provocar um imenso desastre nuclear. Mas depois a imprensa norte-americana mostrou que os russos já estavam dentro de Zaporizhzhia, quando começou o incêndio num edifício ao lado da usina e que era ocupado por estudantes ucranianos num curso de energia nuclear. A rede ainda admitiu que funcionários ucranianos e militares russos atuavam conjuntamente para monitorar os níveis de radiação.

São apenas dois exemplos de equívocos graves da cobertura jornalística brasileira na guerra da Ucrânia, causados pela “russofobia” editorial e pelo fenômeno das fake news. Muitos outros erros menores, e não checados devidamente, podem ter sido cometidos sem que os leitores percebessem. Mas o que foi flagrado lança a semente da dúvida sobre a ausência de checagem detalhada dos fatos, bem como a distinção entre fatos e propaganda pelos vários interessados neste conflito. Tudo isto mostra que a imprensa precisa rever seus métodos e objetivos quando é levada a cobrir conflitos bélicos.

É claro que numa guerra, mais do que noutras ocasiões, os jornalistas estão sujeitos a erros informativos. A vulnerabilidade a este tipo de falha profissional torna-se mais frequente e mais relevante quando correspondentes, editores e analistas optam por um dos lados em conflito, contrariando o dogma de isenção jornalística. Quando acontece uma situação como esta, a preocupação em checar o dado, esperar as consequências ou tentar ouvir a parte contrária, é atropelada pela submissão à linha editorial assumida pelo veículo e pela compulsão em buscar o “furo” noticioso.

Repórteres veteranos na cobertura de guerra desenvolvem um “sexto sentido” capaz de identificar a propaganda mais primária. Imagens que apelam para os sentimentos do público ou dados que semeiam dúvidas sobre planos e ações do adversário são as mais usadas como parte da guerra por “corações e mentes”, o popular jargão inglês Hearts and Minds.

Lobos solitários da guerra cibernética

A complexidade da guerra na Ucrânia aumentou exponencialmente com a avalanche informativa da internet e com o surgimento de verdadeiros “exércitos” de hackers tanto os organizados em empresas bem como os chamados “lobos solitários”, indivíduos isolados que atuam fora de qualquer controle por parte dos lados envolvidos no conflito. A jornalista britânica Carole Cadwalllard do jornal The Guardian assinalou que, pela primeira vez na era digital, pessoas comuns podem seguir uma guerra em tempo real e agora também participar dela, como estão fazendo os “lobos solitários” da internet.

Tudo isto complica extraordinariamente o trabalho jornalístico, expõe de forma clara o despreparo de muitas redações e o envelhecimento das rotinas profissionais na cobertura de situações como a da Ucrânia. Por razões que vão além dos custos financeiros, caiu drasticamente o número de correspondentes de guerra, o que significa o abandono da reportagem documental, que no passado marcou a atuação de inúmeros repórteres brasileiros como, por exemplo, José Hamilton Ribeiro. O que temos hoje são profissionais residentes em Washington, Nova Iorque, Londres, Paris ou Roma lendo notícias da guerra mais como locutores do que como repórteres em campo.

Outro sintoma da necessidade de revisão das normas e rotinas de reportagem, especialmente em tempos de guerra é a desatualização do conceito de neutralidade informativa. Trata-se de uma regra que pressupõe a existência de apenas dois lados num conflito, o que se tornou irreal num contexto de guerra complexa onde há vários confrontos simultâneos e integrados ocorrendo em ambientes diferentes. No caso da Ucrânia, temos agora uma guerra travada por dois exércitos, outra travada nas bolsas de valores do mundo inteiro e uma terceira acontecendo na internet, com ataques hackers e uma violenta batalha por corações e mentes, especialmente na plataforma Telegram.

A preocupação com a complexidade de uma guerra como a que ocorre na Ucrânia ainda é escassa na maioria da imprensa brasileira, que prefere tratar o caso seguindo o modelo dicotômico do bem contra o mal. No resto do mundo há algumas exceções, mas a maioria dos jornais e telejornais ainda cobre a crise na Ucrânia com as mesmas rotinas profissionais usadas na guerra do Vietnã, finalizada há quase 50 anos.

***

Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.