Wednesday, 17 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

1808, a imprensa chega ao Brasil

O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (18/12) pela TV Brasil apresentou a terceira e última parte da série sobre os impactos da chegada da família real ao país, ocorrida em 1808. Participaram do programa pelo estúdio do Rio de Janeiro as historiadoras Isabel Lustosa e Mary Del Priore e, em São Paulo, o professor e escritor Antonio Fernando Costella.


A historiadora Mary Del Priore é doutora pela USP e escreveu mais de 25 livros sobre História do Brasil. O mais recente, O Príncipe Maldito, conta a história do herdeiro da família imperial escolhido para suceder o avô Dom Pedro II, último imperador do Brasil. Isabel Lustosa é doutora em Ciência Política pelo IUPERJ, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa e especialista em história da imprensa brasileira e sátira política. Escreveu D. Pedro I – Um herói sem nenhum caráter. Antonio Fernando Costella, escritor, foi professor universitário por mais de três décadas. Publicou mais de 30 livros entre obras técnicas nas áreas de Direito e História da Comunicação e da Arte e literatura.


A presença da Corte no Rio de Janeiro obrigou o Brasil a modernizar-se. Em pouco tempo, a colônia atrasada, onde não era permitido qualquer tipo de impressão por ordem do Rei, passou ser sede do reino. A partir da necessidade de a Corte comunicar-se com os súditos, D. João VI criou a Impressão Régia. A primeira tipografia brasileira publicou alguns livros e decretos até que, em 10 de setembro de 1808, lançou a Gazeta do Rio de Janeiro. O jornal era redigido por frei Tibúrcio José da Rocha, um frade franciscano, e publicava atos do governo, notícias sobre a Europa traduzidas de jornais portugueses e ingleses, e notas sobre o cotidiano da cidade. Desde agosto do mesmo ano, já circulava clandestinamente no Rio o Correio Braziliense, redigido pelo jornalista gaúcho Hipólito da Costa, em Londres. A publicação pretendia difundir no Brasil e em Portugal as idéias que circulavam na Europa. Os dois periódicos atuavam em planos diferentes, mas eram complementares.


‘De maio de 1808 até setembro de 1822, nasceu uma nação. Em apenas 14 anos aquele imenso território, descoberto pouco mais de 300 anos antes, transformou-se em país. O imenso salto foi facilitado por muitos fatores, mas a imprensa foi decisiva, fundamental. A imprensa oxigenou aquele ambiente sufocado pela censura. A imprensa trouxe idéias, aproximou o país do mundo, estimulou as ciências e a cultura’, disse Alberto Dines no editorial que precedeu o debate ao vivo [ver íntegra abaixo]. Para o jornalista, os dois periódicos são, de certa forma, os pais da imprensa brasileira. ‘O nosso país é uma criação de uma prensa tipográfica. Isso não pode ser esquecido.’


Dois marcos controversos


A historiadora Mary Del Priore analisou a função da Gazeta do Rio de Janeiro na vida da cidade. Para ela, foi fundamental o seu papel de observador social das modificações que o país passou a partir de 1808. A Gazeta teria captado a efervescência das mudanças econômicas, culturais e educativas e também no perfil da venda de produtos de consumo. Na opinião da historiadora, por intermédio dos anúncios desfilaram pelo jornal diversas ‘fisionomias’, oferecendo itens até então raros na colônia, como aulas de dança, equitação e pintura com mestres estrangeiros.


A publicação, também serve como fonte de pesquisa sobre os escravos. A mão-de-obra afrodescendente era frequentemente exposta nas seções de comércio, mas através das notícias de fugas pode-se ver um ‘instantâneo’ das condições precárias de vida a que estavam submetidos. Para encontrar negros fugitivos, os senhores os descreviam com detalhes que revelam os maus-tratos.


O desprezo com que Hipólito da Costa se referia à Gazeta do Rio de Janeiro foi abordado por Antonio Costella, que comparou o comportamento do jornalista com ‘o que pensa o pássaro livre dos que vivem em gaiola’. Mesmo com a severa censura da época e as perseguições que sofreu, o jornal continuava circulando tanto em Portugal quanto no Brasil. Na prática, usufruía em Londres de uma liberdade que não existia no Brasil. O panorama mudou, na visão de Costella, com o ‘Aviso’ publicado por Pedro I, em 28 de agosto de 1821, que instaura a liberdade de imprensa no país, ainda em tempo – embora pouco – de os meios de comunicação participarem do movimento pela independência.


Por meio do Correio Braziliense, Hipólito da Costa formulava políticas públicas para o Brasil, na opinião de Isabel Lustosa. Ao criticar a administração portuguesa, a falta de liberdade e o monopólio comercial, apontava novos caminhos para o país. A historiadora explicou que Hipólito era um defensor da liberdade de imprensa. O jornalista via o trabalho escravo como prejudicial não só para a economia, como para os costumes, a cultura e a educação. As idéias do jornalista teriam influído na geração que lutou pela independência. Lustosa exaltou o papel informativo da Gazeta do Rio de Janeiro e lembrou que os anúncios eram uma forma de comunicação que não existia. Para os historiadores a obra seria uma preciosidade, pois informa como as pessoas viviam no início século 19.


O nordeste nos primórdios da imprensa brasileira


Mas o período não foi só marcado pelo lançamento da Gazeta do Rio de Janeiro e do Correio Braziliense. Mary Del Priore comentou o surgimento de A idade de Ouro no Brasil, publicado em 1811, na Bahia, com a licença de D. João VI. Para a historiadora, assim como as outras duas publicações, o jornal baiano também oferece uma dimensão das mudanças estruturais do país após a chegada da Corte. O diferencial seria o realce no desenvolvimento do interior do Brasil, com obras públicas como a abertura de estradas, construções de pontes e mudanças na comunicação entre as províncias. ‘A Idade do Ouro acaba sendo um grande espectador dessas transformações’, disse.


Mary Priore também comentou o trabalho das mulheres nas primeiras décadas de imprensa no Brasil. O Espelho Diamantino, o Espelho das Brasileiras e o Correio de Senhoras foram exemplos de publicações citadas pela historiadora.


A atividade de dois ‘grandes panfletários’ de Pernambuco no século 19 chamou a atenção de Isabel Lustosa. Cipriano Barata, editor da Sentinela da Liberdade, e Frei Caneca, criador do Tifis Pernambucano, seriam exemplos do desejo de autonomia e de defesa da pátria dos pernambucanos. Antonio Costella citou outros jornalistas que levantaram o debate sobre a independência: Gonçalves Ledo, Luiz Augusto Maia e Soares Lisboa. Costella afirmou que a linguagem usada pelos jornalistas revela um sentimento de conflito entre os veículos e um radicalismo que acabou. Hipólito da Costa não participaria das acaloradas discussões entre os jornais da época. ‘Talvez nunca mais tenhamos tido tanta liberdade de imprensa no Brasil como tivemos no Primeiro Reinado, apesar de alguns atentados e agressões, ou como tivemos no Segundo Reinado’, avaliou.


Os insultos impulsionados pelo anonimato


Isabel Lustosa comentou alguns pontos da sua obra Insultos Impressos, que abrange o período entre 1821, quando a imprensa é liberada, até a dissolução da Constituinte, em novembro de 1823. A historiadora explicou que todos os jornais entravam no debate com boas intenções. A liberdade de imprensa instaurada na Revolução do Porto, em Portugal, instituiu o direito ao anonimato: ‘Havia seções de `cartas´. Você sabia quem era o editor do jornal, mesmo ele não assinando. Se ele se zangava com alguém, se ele achava que a idéia política do outro ela uma idiotice, ele começava as ofensas ali na seção de cartas. O fato é que alguns chegaram às vias de fato’, disse.


Antonio Fernando Costella avaliou como fundamental a importância do Correio Braziliense em Portugal. Para ele, o periódico registrou com precisão desde as invasões napoleônicas até o movimento de independência. ‘Para quem lê o Hipólito da Costa pela primeira vez, a impressão que fica é que ele está falando mais de Portugal do que do Brasil, o que de fato é, em termos de legislação. O foco mesmo era Portugal’, explicou. O escritor ponderou que, pelos critérios de hoje, o Correio seria mais parecido com uma revista por ter muitas páginas, cerca de 200, e poucas notícias urgentes. O jornal tinha todo o tipo de informações, não era só político ou doutrinário. ‘Registrava o que estava acontecendo em vários planos do conhecimento’, observou.


Um telespectador perguntou a Mary Del Priore como ela compara a imprensa de hoje com a de duzentos anos atrás. Para ela, atualmente, a imprensa carece opinião crítica. Faltaria reflexão, curiosidade, malícia e arrogância, atributos essenciais na era joanina. Costella explicou que Hipólito da Costa tinha informantes em diversos lugares – e só ele tinha informantes do Brasil – e que as cartas que o serviço de correios trazia serviram de base para vários furos de reportagem: ‘O grande pai da imprensa, sem dúvida, foi o correio, a carta.’


No encerramento da edição, Alberto Dines explicou que o programa fará uma pausa nas próximas semanas e voltará logo após o carnaval, ‘sempre comprometido com a idéia de que é preciso ler os jornais de outro jeito.’


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200 anos da chegada família real – Parte 3


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV nº 447, 18/12/2007


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


A imprensa nunca esteve tão desnorteada e desanimada com relação ao seu futuro como agora. Os otimistas dizem que o jornal vai acabar e os pessimistas afirmam que ele já acabou. No entanto, a história da imprensa brasileira é, em si, a prova cabal da capacidade de a imprensa operar mudanças e melhorar o mundo. Um instrumento com estes atributos não pode desaparecer.


De maio de 1808 até setembro de 1822, nasceu uma nação. Em apenas 14 anos aquele imenso território, descoberto pouco mais de 300 anos antes, transformou-se em país. O imenso salto foi facilitado por muitos fatores, mas a imprensa foi decisiva, fundamental.


A imprensa oxigenou aquele ambiente sufocado pela censura. A imprensa trouxe idéias, aproximou o país do mundo, estimulou as ciências e a cultura. O brasileiro descobriu de repente que existiam fórmulas políticas diferentes daquelas que conhecia.


O Correio Braziliense, que era escrito e impresso em Londres, tinha um segundo nome, Armazém Literário. Hipólito da Costa, repórter, editor, redator e revisor, pretendia que este armazém contivesse as idéias e debates mais importantes que corriam na Europa e na América do Norte.


A Gazeta do Rio De Janeiro era um jornal oficial, controlado pela Corte, mas era impresso na cidade, reproduzia a realidade. A partir do momento em que começou a circular, o que acontecia passou a ser do conhecimento público – e isso faz uma enorme diferença.


O Correio e a Gazeta são, de certa forma, os pais da nação brasileira. Este é um dado que explica o nosso passado mas deve servir de inspiração para o futuro. Há países criados pela força das armas – espadas, lanças, canhões. O nosso país é uma criação de uma prensa tipográfica. Isso não pode ser esquecido.

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Jornalista