Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

A agonia da Bradesco Esportes FM

Relendo alguns textos antigos, deparei com um belo artigo publicado no Observatório da Imprensa, ainda em 2012, pelo professor Bruno Filippo, da Universidade Estácio de Sá e das Faculdades Integradas Hélio Alonso. O assunto do trabalho do mesmo era, como o título já nos dá uma pista, “O rádio carioca em ebulição” – as novidades, uma em especial, do dial fluminense em pleno 1º semestre de 2012.

O assunto que norteia as previsões do professor é a chegada de uma nova emissora ao dial carioca. Tratava-se da Rádio Bradesco Esportes FM, radio Bradesco Esportes FMrádio em uma parceria do grupo bandeirantes com o banco de nome já citado. Um projeto que olhava para as Olimpíadas na capital do antigo estado da Guanabara, ou seja, para 2016. Entre as novidades que trazia a rádio do Rio, a ida de José Carlos Araújo e cia. para a nova emissora e a agitação que promovia no mercado publicitário, de empregos para jornalistas e no próprio público, em função daquilo que prometia e da novidade que trazia: tirar José Carlos Araújo da Rádio Globo após 28 anos seguidos de Globo, a emissora era um boom de expectativas positivas para o rádio carioca e brasileiro, também estreava em São Paulo e, alguns meses depois, em Belo Horizonte.

Me lembro de acompanhar as notícias e o crescimento da emissora. Naquele ano já atuava em webrádios esportivas e as expectativas com a existência da Bradesco Esportes eram as melhores possíveis. E foram, durante poucos meses. A decadência da emissora foi se acelerando de uma forma intrigante. Com aproximadamente um ano de projeto, a sucursal mineira foi fechada, após diversos cortes e redução de funcionários. A justificativa, necessidade de ajustes financeiros na emissora. Terminou fechando as portas. A estadia de José Carlos Araújo na sede do Rio não durou muito. Com audiências “pequenas”, ficava entre a 4ª e 5ª posições no Ibope, e um retorno de mídia patrocinadora não tão eficaz, logo-logo Garotinho foi cantar em outra freguesia, a Rádio Transamérica.

É bem verdade que o principal nome da emissora não era o único. A programação da Bradesco Esportes era relativamente cheia. Haviam diversas atrações locais durante o dia, começando às 5 da manhã e indo até o final da noite. Algumas de produção própria e outras em cadeia com a matriz paulista, a única que efetivamente teve sucesso até hoje. A Bradesco Esportes FM tinha conteúdo, e não era pouco. Suas coberturas eram de diversos esportes, desde futebol, pela cultura brasileira e pela forma que o rádio esportivo se construiu como quase exclusivamente rádio futebolístico, seu produto principal e chave, mas passando por vôlei, basquete, automobilismo etc.

Uma perda inestimável

Porém, o choque com a saída de Garotinho não conseguiu recuperar a emissora, que já não estava das mais saudáveis quando da saída de José Carlos. No “seu lugar”, Edison Silva, que fazia expediente na Transamérica, foi contratado, levando uma parcela interessante de companheiros para a Bradesco Esportes. Mesmo sendo conhecido, tanto por seu histórico de rádio quanto por seu programa na CNT, hoje transmitido pela TV Bandeirantes Rio com outro nome, Édison nunca foi um Garotinho, um Wladir Amaral ou um Luiz Penido. Seu público e sua qualidade como locutor não trouxeram os mesmos holofotes que José Carlos levou para o projeto.

A emissora começou a despencar. A audiência foi caindo, os patrocinadores, por diversos motivos e razões que vão desde a crise econômica no mercado publicitário, que marca o rádio constantemente, quanto a crise do próprio grupo Bandeirantes que ataca cada dia mais as diversas emissoras dos diversos segmentos do grupo, miando e a emissora entrando num caminho já visto pela companheira mineira.

A situação se agravou de tal maneira a ponto de chegarmos ao presente. Quem ligar na Bradesco Esportes FM hoje ouvirá exatamente o mesmo conteúdo da sua colega paulista, que respira relativamente bem no dial paulista. Não há neste momento programação própria da Bradesco Esportes Rio. E nem pudera, já que, em dezembro de 2015, 90% da já sucessivamente reduzida equipe da rádio foi dispensada. Narradores, comentaristas, produtores, repórteres, operadores técnicos foram demitidos da rádio. Nem os breaks locais, que sucederam as reduções, permanecem. Nas transmissões do último fim de semana, no momento que a Rádio Bradesco de São Paulo fazia o giro do transito, os ouvintes no rio escutavam a mesmíssima informação. Até o trânsito paulista está sendo retransmitido no Rio. Penso eu se havia até operadores de áudio na sede da emissora, ou apenas o canal de satélite da emissora de São Paulo ligado na mesa de áudio da central técnica carioca.

A expectativa dita e comentada nos bastidores do rádio é que, após as Olimpíadas, o projeto que nasceu para falar de esportes 24 horas por dia, com conteúdo diverso, saia do ar. A esperança dos amantes do rádio carioca em ter alguém que os informe, debata e interaja sobre esportes 24 horas por dia terminará. Em contrapartida, a emissora de São Paulo vai muito bem obrigado, claramente dentro dos padrões já conhecidos do grupo Bandeirantes de gerir suas estações de rádio, que são, pelo menos, controversos.

Para aqueles que de rádio vivem e de rádio respiram, o fechamento da Bradesco nada mais é que uma perda inestimável. Uma de tantas, especialmente no fatigado rádio esportivo, que vem nos sendo informadas. Que possamos, daqui a alguns meses, ter o prazer de ler, como tiveram os leitores de 2012, outro artigo entusiasmado do professor Bruno Filippo sobre o rádio esportivo, mesmo que duvidando que isso ocorrerá.

Referências bibliográficas

http://portalimprensa.com.br/noticias/brasil/75556/radio+bradesco+esportes+demite+90+de+seus+funcionarios+no+rio+de+janeiro

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/interesse-publico/_ed693_oradio_carioca_em_ebulicao/

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Bruno Henrique de Moura é jornalista esportivo e estudante de Direito