Tuesday, 24 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

A imprensa e sua cobertura nem sempre acolhedora sobre migração

Foto: wirestock

É urgente e global a necessidade de a imprensa reportar melhor sobre migração e refúgio. A problemática é ampla e concerne questões como nomenclatura, vieses preconceituosos e confirmação de estereótipos, infelizmente pelo jornalismo tradicional. São pequenos detalhes, às vezes inocentes informações, que, no âmbito do jornalismo de migração, têm potencial nocivo contra uma população já tão vulnerável, desvalorizada e subjugada — os migrantes: esses gatos e sapatos nem sempre bem-vindos.

Vou começar por um exemplo corriqueiro que observo aqui na Suíça, país onde vivo. É usual, quando o autor de um crime ou delito for estrangeiro, a informação sobre sua nacionalidade constar já no título da matéria. Quando não, já na primeira frase do lead. O mesmo não acontece quando o “criminoso” é um suíço. A questão, repito, não é exclusiva da Suíça, mas muito comum em países com número significativo de imigrantes [como Alemanha e Dinamarca, como mostram entrevistas publicadas neste Observatório] e/ou onde as políticas de extrema direita têm exercido influência, como a Hungria. Citei esses países, mas não excluo o Brasil da discussão.

A “crise climática”, por exemplo, que é um dos temas mais comentados atualmente na mídia mundial, quando relacionada à ameaça do surgimento dos “refugiados do clima”, que sairão dos lugares alagados, ou extremamente secos e emigrarão para onde eventualmente tenham mais chance de sobrevivência, seja talvez o exemplo mais atual do ponto em que a comunicação de um problema pode gerar outros ainda piores.

No curso em que fiz em outubro sobre Migração e Sustentabilidade, da italiana International School on Migration, a questão foi abordada didaticamente. Em uma das aulas, fomos alertados para a mensagem de iminente ameaça, geradora de medo e, dessa forma, palco fértil para a construção de um inimigo em comum. E quem seriam os potenciais infaustos? De novo, os refugiados, os imigrantes – os gatos e sapatos que vêm para cá “roubar nossos empregos, lugares, usar nossa ajuda social”.

Resumindo o conceito: “o assunto já começa errado quando tratamos de crise global. O nome certo deveria ser transformação, porque a questão não será resolvida até a próxima década. E, além disso, milhões já foram deslocados de seus lugares hoje por inúmeras questões — o clima é só um deles. A narrativa da “crise da migração”, muito usada para falar do êxodo que teve início em 2014, por exemplo, e agora agravada pelas mudanças climáticas, só torna as pessoas ainda mais vulneráveis, já que as expõem a mais segregação social, agora pelo medo e ameaça.”

Ética, jornalismo, migração

O discurso tem eco no Manual da Unesco, lançado em 2020 para jornalistas reportarem melhor o tema Migração e Refúgio. Liderado por professores do Erich Brost Institute for International Journalism, o texto se tornou realidade com o apoio de parceiros de quase todos os continentes. Com 319 páginas, discute inúmeros pontos, inclusive a ética do jornalismo referente ao tópico.

“Os jornalistas fariam bem em perguntar “uma crise para quem”, assim como “como uma oportunidade para quem”, reconhecendo que pode haver beneficiários dessa “crise” — inclusive aqueles em movimento, mas também aqueles que permitem o deslocamento e aqueles em espaços de destino. E, como o manual nos lembra, muitas vezes seria mais preciso fazer referência à “crise” como da política e não dos refugiados”.

O material enfatiza a questão do vocabulário, já mencionada aqui no texto. Para os estudiosos, é importante prestar atenção também a termos como “imigrante ilegal” ou “imigrante indocumentado”. As páginas são um tesouro dedicado à abertura de olhos e exercícios de aprendizagem inovadores.

O documento aponta sobre o papel do jornalismo de migração: “A mídia de notícias também tem um dever para com as pessoas em movimento sobre as quais estão relatando, como parte de suas obrigações para com os direitos humanos de forma mais ampla. Há questões tanto legais quanto éticas relacionadas ao movimento de pessoas, e os jornalistas precisam conhecer e alinhar-se a esses fundamentos”, diz o Manual da Unesco.

A ainda falta de sensibilização sobre o tema me remete rapidamente a uma frase que ouvi de uma brasileira, logo quando aportei aqui na Suíça em 2005. Ela me disse que “aqui não era para gato e sapato. Tem mais é que limitar a entrada de qualquer um mesmo”.

Quando penso no papel da imprensa e obviamente no seu poder de convencimento, me pergunto em qual ponto não contribuiríamos para opiniões como essa no âmbito do jornalismo de migração, principalmente quando advinda de uma imigrante latino-americana em solo europeu, mas que se via de certa forma especial. Se ela, que se sentia parte do clube dos ricos, pensava dessa forma, é preciso que nós, jornalistas, coloquemos a mão na consciência.

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Liliana Tinoco Bäckert é mestre em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana, autora de livro e artigos sobre jornalismo de migração