Monday, 15 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Infodemia: A culpa é sempre – ou só – da imprensa?

(Foto: Isac Nóbrega/PR)

O sintoma é pandêmico. Vai e volta ao sabor dos tempos e de lugares. Principalmente quando são sombrios. Ou seja: atinge governos não muito afeitos à transparência no trato com as informações. E o pior: a ideia de que uma suposta culpa pelos desmandos e mazelas que ocorrem nesses períodos recai quase sempre sobre a imprensa. É como se um vírus sobrevivesse latente no senso comum, pudesse atravessar os séculos e se manifestasse em contingentes vez ou outra pelo mundo afora. Se recuarmos ao início dos anos 1990, por exemplo, não é difícil lembrarmos do que consta no relato de Yves Mamou, então jornalista econômico e um dos editores do jornal francês Le Monde, em “A culpa é da imprensa”. Na obra, mesmo que o autor destaque a desinformação, a mentira e o engano, num tipo de “carta” embasada em má-fé no jogo pelo poder, utilizados por políticos e comerciantes como possibilidades de corromper a sociedade – no intuito de provocar segundas intenções e descrédito –, ao cidadão comum é a imprensa a grande culpada desses males. Mas não é preciso ir tão longe. Nem na história, muito menos territorialmente.

O vice-presidente Hamilton Mourão responsabilizou a imprensa brasileira em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo na quinta-feira, 14/5, pelo “estrago institucional”. Na visão dele, ela “está levando o país ao caos”. Mourão enfatiza que a “grande instituição da opinião” precisa rever seus procedimentos nesta calamidade que vivemos. Se, pontualmente, o vice se manifesta de maneira acusatória contra os meios de comunicação, tem no parceiro na presidência alguém bem mais aguerrido nos ataques desferidos de maneira constante. E que vai além. Bolsonaro incita animosidade a jornalistas desde o Palácio da Alvorada – em quase todas as manhãs quando profissionais e apoiadores convivem muito proximamente – até as lives intensas e aos disparos de mensagens pelas contas via WhatsApp e Twitter diariamente.

Difícil não sobrar para os jornalistas

Em março deste ano, por exemplo, Bolsonaro atribuiu de forma direcionada à imprensa, culpa pela distorção na notícia amplamente disseminada, mas rebatida em sua versão midiática sobre uma piada dita por ele mesmo a respeito do PIB fraco. Quando tratava posteriormente em uma das manhãs sobre a pandemia do coronavírus comparou os profissionais a “urubus”. Também zombou das condições de trabalho dos jornalistas enquanto aguardavam por declarações: “Se vocês sofrem ataque todo dia, o que estão fazendo aqui? O espaço é público, mas o que vocês estão fazendo aqui?” A tensão se agravou quando Bolsonaro gritou para jornalistas calarem a boca. E alguns dos integrantes do popularmente chamado “cercadinho” ou “chiqueirinho” – espaço demarcado em que adeptos e seguidores também se concentram quando o presidente de passagem se manifesta – foram um tanto agressivos com apupos e ameaças aos profissionais de imprensa.

O episódio fez com que os grupos Globo, Folha de S.Paulo, Band e os jornais Correio Braziliense e Metrópoles, anunciassem a suspensão da cobertura naquele espaço no Palácio do Alvorada, a partir de 25/5, por tempo indeterminado, sob alegação de “falta de segurança”. Mas nem esse posicionamento de alguns veículos de comunicação alterou a percepção de um certo segmento da sociedade. Pelo menos de acordo com dados da pesquisa IBRE-FGV realizada com o apoio do Estadão, entre os dias 28/05 a 05/06. O estudo aponta entre outros dados o que parece ser preocupante: ter proximidade com alguém que veio a falecer por Covid-19, reduz em torno de 20% as chances do eleitor de direita e centro-direita votar em Bolsonaro. Contudo, possuir a identidade conservadora com o Presidente pode garantir quase 90% de apoio desse eleitor à reeleição do capitão. Dados do relatório Digital News Report 2020, pesquisa global feita pelo Reuters Institute, da Universidade de Oxford, onde mais de 80 mil pessoas foram entrevistadas em 40 países e seis continentes apontam uma situação contraditória: políticos são a fonte de desinformação mais frequentemente citada, embora em alguns países pessoas que se identifiquem como de direita tenham mais probabilidade de culpar a mídia. Paradoxo minimamente estranho.

Contradições e ataques

A denominada “grande mídia” ou mídia tradicional constitui-se hoje – com todas as complexidades, paradoxos e contradições – de uma coluna de sustentação dos poderes vigentes – quando não o chamado popularmente “quarto poder”, condição de suposto entendimento que permeia boa parte da sociedade. De acordo com o jornalista e escritor José Arbex Jr., a imprensa auxilia a construir “percepções, produzir “realidades” parciais, distorcer os fatos, mistificar – e até atuar como “partido”, autoproclamando-se porta-voz dos “interesses gerais” da sociedade civil”. Mas, na verdade, diz o jornalista, muitas vezes, centra-se mais na defesa de questões internas e em conquistas privadas e coloca o interesse público em segundo plano. Diante da complexidade que a envolve e das contradições que se apresentam somadas ao volume de informações circulantes, a percepção da sociedade torna-se um tanto espessa. O que faz com que a culpabilidade por tudo de mal que possa ocorrer em dada conjuntura ou em descompassos provocados por governos ou autoridades muitas vezes seja transferida por denunciados ou por grupos que apoiam esses segmentos às organizações de mídia e seus representantes diretos ou visíveis.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) alertou na quarta-feira, 11/6 que a mídia profissional sofreu no ano passado 11 mil ataques por dia por meio de redes sociais – uma média de sete agressões por minuto. Os dados constam do relatório anual sobre Violações à Liberdade de Expressão, coordenado pela Bites, empresa de consultoria que faz o monitoramento do universo digital. Constatou que dos 5.708 posts do presidente Jair Bolsonaro no Twitter, por exemplo, 432 continham críticas, insinuações e advertências sobre o trabalho dos veículos e jornalistas. O documento informa que os conteúdos registraram 51,7 milhões de interações (compartilhamentos, retuítes, comentários e curtir), o equivalente a 7% das 737,4 milhões obtidas nos perfis do presidente no ano passado.

Durante todo o ano, a pesquisa identificou também 3,9 milhões de posts contra a imprensa brasileira, totalizando 10% de tudo que foi produzido. Esses posts incluem palavras de baixo calão ou com expressões que tentam desacreditar o trabalho jornalístico.

Em 3/5, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), publicou novos dados de ataques do Presidente da República contra o jornalismo e os jornalistas: foram 179 agressões em quatro meses, 28 ocorrências de agressões diretas a jornalistas, duas ocorrências direcionadas à FENAJ e 149 tentativas de descredibilização da imprensa. De acordo com o relatório, as declarações continuam agressivas quando relacionadas ao contexto do coronavírus. Bolsonaro tenta responsabilizar a imprensa por um “caos” ou “histeria” com relação à doença.

Infodemia, presente!

De acordo com reportagem publicada em 27/4 no portal Estadão Saúde Summit, o mundo enfrenta uma pandemia em uma era de “pós-verdade”, causada pelo excesso de notícias sobre determinados temas, em que a opinião pública é modelada mais pelo apelo às emoções e crenças do que por fatos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) batizou esse fenômeno de infodemia: “uma superabundância de informações — algumas precisas e outras não — que dificultam muitas vezes que as pessoas encontrem fontes e orientações confiáveis quando precisam delas”. Segundo a OMS, como algumas das fontes são precisas e outras não, torna-se difícil em situações específicas, observar orientações confiáveis quando se precisa. A entidade faz um alerta: o fenômeno é amplificado pelas redes sociais e se alastra rapidamente, como um vírus. Com isso, gera ansiedade, crises de pânico e abala o emocional das pessoas.

O Brasil é um dos países em que as pessoas mais acreditam em notícias falsas. Contraditoriamente, é aquele que afirma se preocupar mais com o que é falso e verdadeiro dentre as informações que circulam na internet. É o que demonstra o estudo realizado em 2018 pelo instituto Ipsos, intitulado “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust”, onde 62% dos entrevistados no Brasil admitiram ter acreditado em notícias falsas até descobrirem que não eram verdade. O percentual ficou acima da média mundial de 48%. O Brasil aparece em terceiro no ranking, com 35%. Outro dado a se destacar é apresentado pelo professor Fábio Vasconcellos, em sua página “Sobre dados, política e tudo mais”. Ao citar a pesquisa “Índice de Percepção da Democracia 2020”, realizada pelo instituto Dalia Research, com sede em Berlim, sinaliza que 34% dos brasileiros consideram “muito boa” a atuação do país no enfrentamento de crise da Covid. O percentual, no entanto, é o mais baixo identificado entre os 53 países da pesquisa. O ranking é liderado por Vietnã (95%), China (95%) e Malásia (89%), países considerados não-livres ou parcialmente livres, pelo instituto.

Entretanto, de acordo com Lívia Vieira, jornalista, professora da UFBA e editora do Farol Jornalismo, a crise de Covid-19 aumentou substancialmente o consumo de notícias da mídia mainstream e, também, das mídias online e social. Por exemplo: em abril passado, a confiança na cobertura da mídia sobre a Covid-19 era relativamente alta e representava mais do que o dobro da confiança depositada em informações que circulam nas redes sociais, plataformas de vídeo ou serviços de mensagens. Em resumo, segundo a professora, a crise do coronavírus lembrou as pessoas do valor das fontes de notícias tradicionais.

O “telefone sem fio” da transmissão

A infodemia também se acentua por outros aspectos. Tiago Reis, pesquisador da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, acredita que os cientistas deveriam assumir uma parcela de culpa pelo “telefone sem fio”. Destaca que na triangulação entre a comunidade científica, a imprensa e a sociedade, muitas vezes alguns pesquisadores são puristas na maneira de apresentar resultados, pois procuram reportar exatamente o que encontraram, deixando em aberto a interpretação individualizada dos efeitos. “Como pesquisador, não gosto disso: acredito que nós devemos oferecer algo além do que os resultados puros”, enfatiza.

A professora Mariana Cabral, pesquisadora em jornalismo e história diz que, na hora de divulgar suas pesquisas, sempre se esforça para “fazer a pessoa refletir junto”. Entende que as deformidades científicas nascem da dificuldade de comunicação. “Muitas vezes, falamos com termos muito técnicos, que podem gerar entendimentos errados”. Pondera que algumas das dificuldades precisam ser divididas com a imprensa, já que jornalistas podem também não se dedicar a pensar mais cuidadosamente sobre as questões que estão sendo levantadas no período. Portanto, justifica que há falhas de comunicação dos dois lados e por conta disso, tantos mal-entendidos.

Talvez não exista receita para que os problemas que impulsionam a infodemia sejam resolvidos tão rapidamente. Mas, uma orientação que valorize ações de mão dupla que possam identificar os anseios da população com informações objetivas, precisas e claras, podem proporcionar a ampliação de canais que levem mensagens adequadas e possibilitem lidar melhor com a complexidade que envolve a área de saúde. Como no exemplo do Ministério da Saúde ao criar um serviço de verificação de fake news que pode ser acessado por WhatsApp. Ou por iniciativas bem conduzidas como a da Fiocruz, em que as pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública, Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, identificaram as principais redes sociais propagadoras de notícias falsas sobre o novo coronavírus no Brasil. O estudo analisou denúncias e notícias falsas recebidas pelo aplicativo “Eu Fiscalizo” entre 17/3 e 10/4, e demonstrou as mídias sociais mais utilizadas para disseminação de fake news sobre o novo coronavírus. Os dados revelaram que 10,5% das notícias falsas foram publicadas no Instagram, 15,8% no Facebook e 73,7% circularam pelo WhatsApp. Os resultados também apontaram um dado positivo: 26,6% das fake news publicadas no Facebook atribuem a Fiocruz como orientadora no que diz respeito à proteção contra o novo coronavírus.

No outro “lado do balcão”, uma maior transparência dos meandros e funcionamento que cercam os meios de comunicação e as mídias sociais, torna-se essencial para os profissionais de saúde e sociedade. Com ações como o Projeto Comprova, uma coalizão de veículos e entidades que identificam informações duvidosas sobre o novo coronavírus pelo monitoramento das redes sociais. Muito provavelmente, assim serão desnudados gradativamente os verdadeiros culpados em alimentar desinformações e mentiras e fomentar a perenidade da infodemia.

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Referências

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ESTADÃO SAÚDE SUMMIT. Como a infodemia pode afetar a saúde. Portal Estadão: 27/04/2020. Disponível em: https://summitsaude.estadao.com.br/como-a-infodemia-pode-afetar-a-saude/

FENAJ. Presidente é o maior responsável por ataques à liberdade de imprensa no país. 3/5/2020. Disponível em: https://fenaj.org.br/presidente-e-o-maior-responsavel-por-ataques-a-liberdade-de-imprensa-no-pais/

LIS, Laís. Imprensa sofreu 11 mil ataques diários nas redes sociais em 2019, diz associação de rádio e TV. Portal G1: 11/03/2020. https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/11/casos-de-violencia-contra-jornalistas-caem-pela-metade-em-2019-na-comparacao-com-2018-diz-abert.ghtml

MAMOU, Yves. A Culpa é da Imprensa! SP: Editora Marco Zero, 1991.

OPHAS. Entenda a infodemia e a desinformação na luta contra a Covid-19. Departamento de evidência e inteligência para a ação em saúde. https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/52054/Factsheet-Infodemic_por.pdf?sequence=5

PEREIRA, Carlos. Bolsonarismo identitário resiste à Covid-19? Portal Estadão: 23/6/2020. Disponível em: https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/artigo-bolsonarismo-identitário-resiste-à-covid-19/ar-BB15MlIM?ocid=spartan-ntp-feeds

VASCONCELLOS, Fábio. O país com a pior avaliação no enfrentamento da Covid. Portal Sobre dados, política e tudo mais. 17/6/2020. Disponível em: https://fabiovasconcellos.com/2020/06/17/o-pais-com-a-pior-avaliacao-no-enfrentamento-da-covid/?fbclid=IwAR0WB_9pibXV-rP3_2XOCaQg7VU2lEd2vUrcBHl2ZRMTwYoh2iYP-nOiu_Y

VEIGA, Edson. ‘Telefone sem fio’: como estudos sérios acabam virando boatos de WhatsApp. Portal Tab Uol: 3/6/2020. https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/03/ciencia-x-infodemia-como-estudos-serios-acabam-virando-boatos-de-whatsapp.htm

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Boanerges Lopes é jornalista e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Autor de livros, doutor e mestre em Comunicação pela UFRJ e Umesp.