Tuesday, 24 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

Noticiários diários da imprensa esqueceram as matérias “buraco de rua”

Foto: Ashni/Unsplash

Para quem não é jornalista, vou explicar o assunto. Existiram, existem e existirão, por muitos anos, pessoas que acreditam ser possível resolver um problema particular se o denunciarem para um veículo noticioso, tornando-o público. A maioria das reclamações é contra a qualidade dos serviços públicos e privados.

Mas tem de tudo um pouco. Uns acusam os vizinhos de fofoqueiros, outros reclamam de casais que fazem barulho durante a relação sexual e há os que se queixam de latidos de cachorro e até de galos que cantam anunciando o raiar do dia. Em muitas redações de grandes empresas de comunicação, esse tipo de matéria é chamado pelos repórteres de “buraco de rua”. Por quê? Quando o repórter começa na profissão, as primeiras pautas que lhe são confiadas tratam de assuntos simples, como as reclamações de leitores sobre os buracos na rua por onde transitam carros e ônibus. Pela simplicidade do fato, não tem como o “foca” escrever bobagens. Existe inclusive uma corrente de pensamento, entre os teóricos da comunicação, de que é necessário o repórter iniciar a sua carreira fazendo “buraco de rua”.

Lembro que, quando comecei a trabalhar em redação, em 1979, não existia um setor para o qual o leitor pudesse ligar e encontrar, no outro lado da linha, uma pessoa especializada para atendê-lo. Havia pela redação vários telefones espalhados com a campainha regulada para fazer o máximo barulho. Só assim podiam ser ouvidos em meio ao matraquear ensurdecedor que dominava as redações nos tempos das máquinas de escrever. Além do barulho das máquinas, havia a má vontade do repórter em atender uma ligação que interromperia o seu raciocínio naquela hora de redigir a matéria. E quando o repórter finalmente atendia para se livrar do som estridente do telefone, a conversa com o leitor geralmente acabava em troca de desaforos. Mas, no meio dessa bagunça, existia certa ordem. As reclamações de problemas sobre saúde pública, falta de professores e autoritarismo da polícia raramente deixavam de ser noticiadas. Com o passar do tempo, as grandes empresas de comunicação viram nesse tipo de leitor uma oportunidade de negócio e criaram os seus jornais populares e o empurraram para lá. E, nas redações dos outros jornais tradicionais, foram criados setores específicos para atender o leitor de classe média. Acabou-se o bate-boca entre repórteres e leitores. Com as novas tecnologias de comunicação, como celulares, e-mail, aplicativos (WhatsApp), a comunicação dos leitores com as redações se tornou instantânea.

Mas, se por um lado foi facilitada a comunicação dos leitores com os noticiários, por outro as empresas colocaram filtros que só permitem a divulgação de fatos comprovados. Ou que sejam favoráveis a reportagens publicadas. A maioria dos leitores correu para as redes sociais, onde não precisa da intermediação de jornalistas para botar a boca no trombone e fazer as suas reclamações. Mas, se procurar bem, ali e aqui ainda é possível encontrar uma matéria “buraco de rua” nos noticiários. Nos dias atuais, elas estão quase extintas. É compreensível. Nos últimos três anos, os espaços nobres dos noticiários têm sido ocupados por três assuntos: política, economia e saúde pública. Não poderia ser diferente. Desde o primeiro dia em que assumiu o seu mandato, o presidente Jair Bolsonaro (PL) semeou confusão na administração do país. E depois veio a pandemia da Covid-19, que teve os seus efeitos ampliados devido ao negacionismo do presidente e ao poder de contágio e de letalidade do vírus, que já matou mais de 600 mil brasileiros. No entanto, os problemas que complicam a rotina do brasileiro continuam, e alguns deles se agigantaram. E muitos, sendo apenas publicados nas redes sociais, não ganham a dimensão necessária para forçar as autoridades a se mexerem. Por exemplo, a bagunça em que se transformou o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O atual governo herdou um caos no INSS, que começou quando houve alterações na legislação da aposentadoria, provocando uma grande corrida de trabalhadores em busca de seus direitos. O governo Bolsonaro teve a ideia de rechear o serviço público federal com 6 mil militares da ativa, reserva e reformados. A maioria dessas pessoas é desqualificada para o serviço para o qual foi contratada. Resultado: o número de processos atrasados soma dezenas de milhares de aposentadorias e perícias médicas, caso de trabalhadores afastados por motivo de saúde. Outro serviço que está uma lambança é o prestado pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A desorganização dos Correios vem de longe. E, nos dias atuais, chegou ao ponto mais alto. A imprensa sempre aborda a questão pelo lado defendido pelo governo, que aponta a privatização da empresa como solução. É uma abordagem superficial, porque a urgência do usuário é para hoje.

Abordei dois assuntos, INSS e Correios, como de grande interesse dos leitores e que precisam da atenção da grande imprensa para pressionar as autoridades em busca de uma solução. Mesmo dentro do caos em que estamos vivendo, é necessário às vezes mirar os canhões nos problemas mais urgentes da população. Aqueles que antigamente as pessoas acreditavam que, ligando para as redações, seriam resolvidos. Nós nunca tivemos a capacidade de resolver problemas. Mas ajudamos a solucioná-los pressionando as autoridades. Sou um velho repórter estradeiro que nunca se deu o direito de ser saudosista. Por não acreditar que antigamente se fazia um jornalismo melhor do que o feito hoje. Cada época é cada época. O que é verdade, e creio que continuará sendo por muitos e muitos anos, é que no tempo das máquinas de escrever o jornal que virasse as costas para as reclamações dos leitores acabava fechando. Isso continua sendo verdade nos dias atuais.

Texto publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.