Tuesday, 24 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

O jornalismo, o lobo, os cordeiros

Vamos falar de uma fábula. De uma terrível história de ficção, daquelas em que a bruxa vence o camponês e a onça vence o macaco. Esta já é, infelizmente, uma história antiga, quase tão repisada quanto os contos de Esopo. E nada indica que terá um final feliz.

Antes, porém, pergunto: ainda vale observar o jornalismo brasileiro a partir das atitudes que a revista Veja tem tomado há pelo menos 15 anos? Sim, infelizmente. Revisitar os erros que a chamada grande mídia continua cometendo já é quase um clichê, mas nada resta, senão isto, aos adeptos do jornalismo que ainda sonham com reportagens realizadas dentro de padrões mínimos de ética e decência. Padrões que a Veja não segue mais.

Na edição da semana passada, a 24ª do 44º ano de vida da revista, ela continuava sua suposta investigação sobre os contratos do ex-ministro Antonio Palocci. Até aí, trata-se de uma demanda da sociedade saber e de um direito da empresa investigar. Há indícios, contudo, de que Veja não está investigando nada.

Ficção da pior qualidade

O último parágrafo da reportagem “O laranja-fantasma” é o único sobre o qual este signatário detém informações. Diz o texto:

“Os trambiques do fantasminha laranjão ocorreram especialmente no ABC paulista. Boa parte dos endereços falsos que ele apresenta é de Mauá, lugar que Gesmo conhece bem. Foi lá que, em 16 de abril de 1988, ele se filiou ao PT. O partido tem uma relação profunda com a cidade: além de ter sido uma das primeiras cuja prefeitura a legenda conquistou, ela foi palco de uma série de escândalos políticos e de corrupção protagonizados por petistas. No ano passado, o Ministério Público acusou a prefeitura do PT de ter participado de um esquema que desviou 615 milhões de reais dos cofres públicos. Foi também a partir de Mauá, em 2009, que o sigilo da filha do tucano e então presidenciável José Serra foi violado nas dependências da Receita Federal, por meio de procurações falsas fornecidas por um petista. O partido transformou Mauá num centro de malversações, malfeitos e maldades.”

Simples assim: o leitor desavisado – e muitos dos que se mantêm fiéis à revista o são – conclui que há uma grande, uma imensa maracutaia envolvendo o PT de Mauá. Ocorre que o texto, ou ao menos esse parágrafo, é uma peça de ficção. Da pior qualidade. La Fontaine, se tivesse ideia parecida, rasgaria o papel com a pena, resistiria à tentação de arremessá-lo no rio Sena – afinal, o fabulista era também um inspetor de águas – e depositá-lo-ia, não sem raiva, na lixeira ao seu lado.

Eu ou você podemos ser os próximos

Para começo de conversa, a prefeitura do PT de Mauá nunca, jamais, foi acusada de ter participado de nenhum esquema de desvio de R$ 615 milhões dos cofres públicos. Não é que Veja tenha transformado uma suspeita em constatação: essa história, nem mesmo a referida suspeita, basicamente nunca existiu. Em Mauá, ninguém nunca ouviu falar dela. No ABC também não. No estado de São Paulo, idem, exceto, talvez, num cada vez mais obscuro prédio situado na Marginal do Rio Pinheiros, um prédio alto o bastante para se trancafiarem mais de mil rapunzéis.

Então, por que Veja cometeu tal descalabro? Ninguém sabe, exceto os cardeais da revista. O PT de Mauá nunca foi informado de que alguém, em algum momento ou lugar, havia aventado a possibilidade de acusar a prefeitura ou o partido de desvio de R$ 615 milhões de verba pública. O PT só soube da acusação, na verdade, na sexta-feira, dia 10 de junho, quando a edição da revista chegou às bancas.

Foi a revista Época, na edição desta semana – sete dias, portanto, depois de Veja ter publicado a sua história da Mamãe Ganso –, quem deu um sinal de onde estaria o erro de sua concorrente. As investigações do Ministério Público, segundo Época, sugeririam desvio de R$ 615 milhões dos cofres de Campinas, não dando ensejo a nenhuma acusação contra o PT ou contra a prefeitura de Mauá.

Perplexidade. Indignação. Preocupação. Se uma calúnia tal pode ser publicada impunemente, então a conclusão terrível é de que a qualquer momento eu, ou você, caro leitor, cidadãos comuns, que trabalham e pagam seus impostos, podemos ser vítimas de uma ilação maliciosa por parte da revista Veja. Não haverá defesa. Nossa imagem vai para a lama inapelavelmente. Basta a revista decidir que eu ou você sejamos os próximos. Este signatário – que, viciado em justiça e em cidadania, enviou um texto para o Observatório da Imprensa criticando a revista – pode muito bem ser este próximo, mas que diabo!

Acusação forjada

Acossados por uma acusação de tamanho vulto, o PT de Mauá e a prefeitura procuraram a revista. Pediram, no mínimo, que a informação fosse corrigida. Foram recebidos com o dar de ombros que, quem tenha se visto em situação semelhante nos últimos anos, já conhece por parte de Veja. A última edição ignorou o erro, porquanto fosse gravíssimo, tal como já era esperado.

Veja poderia ter apurado melhor a matéria? Não. Para se apurar alguma coisa melhor, é necessário, antes, tê-la apurado pior. E a verdade é que Veja não apurou nada. Quando da apuração ou da redação da reportagem, nem os responsáveis pelo PT de Mauá, nem a prefeitura ou os respectivos assessores, receberam uma única ligação da revista, questionando as informações que publicaria ou a versão dos supostos acusados. Aparentemente, não foi necessário, para os sectários da redação, sequer fazer jornalismo. Sentaram-se em seus computadores e bolaram uma história da carochinha que desonraria os irmãos Grimm, com a qual o império Abril continua enchendo as burras com o dinheiro de assinantes e de compradores.

A acusação dos R$ 615 milhões é a mais grave e, claro, os acusados vão tentar – escrevo “tentar”, note bem – obter reparação na Justiça. As esperanças são pequenas, dado o vasto número de vítimas que a publicação faz há 15 anos – lembremos, há muito tempo, o caso do ex-deputado Ibsen Pinheiro, contra quem a revista forjou uma acusação, de acordo com a confissão do próprio jornalista responsável pela farsa. Lembremos, também, tudo o que veio depois, e não foi pouca coisa. Se houvesse punição possível, Veja não continuaria useira e vezeira no procedimento.

Cidadãos supostamente de Mauá

Mas o suposto desvio de verba pública não foi a única alucinação que a revista publicou com ares de verdade. Informou a Veja que a prefeitura de Mauá foi uma das primeiras que o PT conquistou. Os escrivinhadores, além de não serem dados a checar informações pelo telefone, parece que não conhecem nem mesmo o Google. Uma pesquisa de cinco minutos derrubaria por terra a declaração. A primeira eleição petista para o executivo mauaense data de 1997, 15 anos depois de o partido ter conquistado sua primeira prefeitura no Brasil – em Diadema, vizinha de Mauá. Nesse meio-tempo, o PT governou mais duas cidades na região do ABC: São Bernardo e Santo André, cujas prefeituras foram conquistadas em 1988. E, claro, a própria capital paulista, cidade-sede da Editora Abril, foi gerida pelo PT também em 1988. Seriam necessários mais 10 anos para que Mauá fosse governada pelo partido.

Por último, a covardia. Mauá é uma cidade pobre, com 420 mil habitantes, a maior parte dos quais lutando por inclusão social. Com o dinheiro que São Caetano – que tem menos de 200 mil habitantes – tem para cuidar de uma pessoa, Mauá precisa cuidar de quatro. O seu orçamento em 2010 foi de R$ 511 milhões, o que, se já torna difícil governar, torna impossível o desvio de R$ 615 milhões. A cidade corre atrás de infraestrutura e de assistência para suas famílias. Nessas condições, um dos problemas, claro, é o de investir na autoestima da população.

Mas assim fica difícil. Primeiro, houve aquela acusação da violação de dados na Receita Federal, sobre a qual nem a prefeitura e o PT local, nem a população, têm nada a ver. Depois, houve as suspeitas ligações do ministro Palocci com cidadãos supostamente de Mauá. Um deles fora filiado ao PT na década de 1980, e eis como a revista justifica sua fúria pseudo-jornalística.

Só que o sujeito em questão nunca militou de fato no partido. Nem mesmo é conhecido na cidade, diga-se. E por que seria? Se ele tem um apartamento de R$ 4 milhões em São Paulo e se é um multiempresário com ligações em todo o Brasil, que razões teria para fazer-se conhecer numa cidade pobre, na qual 70% dos imóveis ainda carecem de regularização? Seu sobrinho, igualmente envolvido no caso Palocci, este, sim, é um mauaense de escol. Só que não tem nada a ver com o PT. Pelo contrário: trabalhou na prefeitura em 2008, quando a cidade foi gerida pelo PV que, na cidade, é o principal adversário dos petistas. O indivíduo foi prontamente exonerado no ano seguinte, como sói acontecer com os cargos de confiança durante uma mudança de gestão.

Fábulas escritas pelo Lobo Mau

Em que pesem todas as evidências, Veja sentiu-se à vontade para tentar transformar uma fábula pouco edificante numa história real. E conclui: Mauá é um centro de malfeitos, malversações e maldades. Aí está a moral da história. Ela torna ainda mais difícil morar em Mauá. O mauaense médio, como os cordeiros das fábulas, é pobre, é honesto, corre atrás de uma vida melhor. E tenta amar uma cidade que parte da mídia trata indevidamente como se fosse um antro.

Compreende-se. Cordeiros, nas fábulas, servem mesmo é para o sacrifício. Mas quem conhece de fato a história, perguntaria: onde é que estão estes malfeitos, estas malversações, estas maldades? Em Mauá ou às margens do Rio Pinheiros?

Saudades de Esopo, de La Fontaine, dos Irmãos Grimm. Hoje em dia, ao que parece, as fábulas são escritas pelo Lobo Mau.

***

[Léo Bueno é jornalista e assessor da prefeitura de Mauá, SP]