Thursday, 25 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Os eternos impuníveis

Entre os riscos da saraivada de denúncias que assola a imprensa nativa, um dos mais subestimados talvez seja o da “saturação”. Conhecido, sim, cantado em prosa e verso por cidadãos indignados, às vezes um tanto ingênuos. Ainda assim, subestimado.

O mecanismo que está por trás do espetáculo é o da “concepção circense da política”, como gosta de ironizar o professor Antônio Carlos Peixoto. “Respeitável público, o cachorrinho amestrado; a trapezista; o engolidor de espadas…”

O processo em vigor no Brasil, industriado pelo marquetismo que calibra as reações do Planalto, não nega suas origens: “Respeitável público, a súbita riqueza do ministro Antônio Palocci; o Dnit; o Ministério da Agricultura; o Ministério das Cidades, o Departamento de Engenharia e Construção do Exército…”

A saturação faz com que, no curso da prática jornalística, não haja tempo e/ou condições para recapitular, a não ser de modo errático e idiossincrásico, o que já foi denunciado e ficou sem resposta institucional – ou, se for o caso, judiciária. As “suítes” morrem bem antes de dar à praia.

Faxinas e faxinas

Entretanto, recapitulemos.

A palavra “faxina” remete à vassoura janista e aos marajás do teatro collorista. Relembremos também que Jânio Quadros e Fernando Collor foram duas personalidades ao mesmo tempo fortes e hábeis na manipulação da opinião pública, e que ambos foram tragados na tentativa de dispensar a interlocução, tantas vezes exasperante, com o Congresso.

A principal mídia, televisão aberta, ou, mais especificamente, o Jornal Nacional, finge que não entende e toca o bonde. Nem bem se completou o noticiário sobre um “escândalo”, aparece outro. Articulistas da imprensa não faltam ao dever de alertar o distinto público.

Ricardo Mello escreveu na Folha de S. Paulo de quinta-feira (4/8), referindo-se à tentada criação de uma “CPI da Corrupção”:

“É de provocar risos antecipados imaginar caciques do PT, do PMDB, do PSDB, do DEM, do PC do B e quem mais for posando de inocente ultrajado diante de alguma transgressão.”

Quantas e quantas vezes já se sublinhou que a presidente Dilma Rousseff representa a continuidade de um governo do qual ela mesma foi destacada integrante durante oito anos. E que isso a coloca na situação de ou não ter tido conhecimento de nada, o que não é bom alvitre, ou ter tido e ter preferido não reagir, o que também não melhora a percepção que se possa ter de sua maneira de conceber o trato da coisa pública.

Josias de Souza, na mesma edição da Folha, afirma:

“Sob Dilma Rousseff existe a ‘faxina’ e a faxina. A limpeza sem aspas foi insinuada contra o PR. Com aspas, contra o PMDB.”

Da frustração ao cinismo

Mas essas manifestações de realismo não mudam a dinâmica do denuncismo.

De escândalo em escândalo, produzem-se efeitos negativos. Um deles é a frustração, má conselheira dos eleitores. Outro é o desespero, péssimo conselheiro dos cidadãos.

A última coisa que uma liderança política pode matar é a esperança do povo. Pode-se até viver sem utopia, trocar o entusiasmo pela reflexão serena, mas sem esperança o osso fica muito duro de roer.

A frustração pode ter outro desdobramento, no longo prazo: o cinismo generalizado.

Por volta de 1999, para explicar a ascensão de Hugo Chávez na Venezuela, a revista The Economist publicou uma reportagem em que, a certa altura, o jornalista descrevia uma manifestação popular vigorosa diante do palácio do governo, durante o mandato de um antecessor de Chávez. O povo bramava e rugia, encolerizado. E o jornalista: mas no fundo eles pareciam dizer “também quero o meu!”…

Muito eruditamente, Walter Benjamin disse que o rosto do anjo da História está dirigido para o passado e que “onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”.

Memória e ruína

Algumas dessas ruínas recentíssimas do País do Jambon são:

1. O prodigioso enriquecimento do consultor Antônio Palocci.

2. Em reportagem de Fernando Mello na Veja (8/6): Ferrovia Norte-Sul (já levou pelo ralo R$ 500 milhões, segundo o TCU), construção do TRF-DF, Porto de Maceió, reforma do Aeroporto Santos Dumont (o preço dos vidros do teto curvo passou de R$ 3 milhões para R$ 30 milhões), novos fingers no Aeroporto de Congonhas (custaram R$ 8 milhões, mas o consórcio OAS-Camargo Correa-Galvão terceirizou a obra por R$ 2 milhões).

3. O “filho-prodígio” do então ministro Alfredo Nascimento, Gustavo Morais Pereira, conseguiu fazer seu patrimônio crescer 86.500% em poucos anos.

4. Denúncia do deputado Júlio Delgado, noticiada pela Veja (13/7): 2,5 quilômetros da BR-040, que corta Juiz de Fora, custaram R$ 35 milhões. Cada quilômetro saiu duas vezes e meia a média nacional.

5. Mauro Barbosa, um dos demitidos do Ministério dos Transportes, onde era chefe de gabinete, constrói casa de padrão incompatível com seus vencimentos. Circunstância curiosa: Barbosa é servidor da Controladoria Geral da União, CGU. Estava emprestado ao Ministério dos Transportes.

6. José Francisco das Neves, o Juquinha, então diretor-presidente da Valec, empresa pública encarregada de ferrovias, também construía uma casa considerada cara demais para seu padrão de remuneração.

Segundo a Veja, Luiz Antônio Pagot, o demitido diretor do célebre Dnit, “chegou a insinuar que o dinheiro coletado também custeou a candidatura de Dilma”. Política e institucionalmente, o nó cego estaria no financiamento da campanha eleitoral de 2010. Se chegasse ao TSE um processo em que o recurso a fontes proibidas estivesse competentemente fundamentado, a pressão política subiria a alturas perigosas.

Isso pode explicar por que, até aqui, nenhuma denúncia grave transitou das manchetes para os autos.

Já foi muito pior

Os padrões éticos da imprensa brasileira avançaram extraordinariamente, mas num processo dessa natureza convivem rupturas e continuidades. Alguns desatinos são tão corriqueiros que passam praticamente em silêncio. Campanhas ideológicas em veículos que se pretendem isentos. Favorecimento político aberto (ver “Deputados usam rádio e TV em campanha permanente”). Mostrar rostos de suspeitos como se fossem de condenados. Ou usar material da polícia para ilustrar reportagens (aqui, a simetria está no fato de que as autoridades não controlam suas corporações; são empurradas por elas). E mais uma coleção quase impossível de enumerar.

Ainda se pratica chantagem, sobretudo em circuitos paroquianos. É grave, porque obstaculiza o fluxo democrático onde os cidadãos têm maiores dificuldades para enfrentar os poderosos.

Mas no passado os chantagistas não faziam cerimônia na capital da República. No romance Acidente em Matacavalos e outros faits divers, o jornalista Mateus Kacowicz retrata o que era quase norma nos idos de 1921.

“E nós, indignados cidadãos…”

O livro se abre com a imitação, na linguagem e na tipologia, de uma notícia de época. Um bonde havia atropelado e matado uma lavadeira. Protesto da Folha da Capital.

“É a quarta vez este anno que um tramcar da Rio de Janeiro Electric Railway Company provoca acidente assemelhado, sendo a segunda com desenlace fatal. (….) E nós, indignados cidadãos, perguntamos: Até quando estes estrangeiros que nos exploram com preços escorchantes e pessimos serviços estarão matando e mutilando impunemente nossos compatricios?”

A Electric paga mensalmente um reclame que rende ao jornal 20 contos de réis por mês. O diretor, Gross, sabe que a cacetada sinaliza que o diretor do jornal, Diógenes, ambiciona receber mais. E promete mais. O dinheiro não vem. A Folha da Capital volta a fustigar:

“…as escorchantes tarifas que os estrangeiros nos impõem para engordar as burras da City serão augmentadas na calada da noite. Não perde apenas o cidadão carioca. Perderá a República, já tão exhaurida, com mais essa sangria sobre nossas divisas…”

Eles frequentam o mesmo bordel de luxo. Encontram-se. Marcam encontro no gabinete de Gross. Diógenes quer comprar maquinaria nova para seu jornal. Pede uma soma que ultrapassava de longe o limite fixado pela matriz para “molhar” a mão do jornalista. Gross liga para Londres. E o romancista narra assim o resultado da consulta:

“A Rio de Janeiro Electric Street Railway Company offerecerá sua valiosa colaboração ao engalanamento da Capital Federal para as festividades do Centenário da Independência. Soube o corpo noticiarista da Folha da Capital, com absoluta exclusividade, de seus planos de empregar 800 novos conductores e motorneiros para tornar mais ágil e efficiente  este já excellente e moderníssimo sistema de transporte que coloca nossa cidade a ombrear com o que há de mais avançado no orbe. O distincto usuario poderá aos domingos se servir de carros limpos, com os assentos forrados de panno, conduzidos por efficientes e gentis conductores e motorneiros que ligarão os diversos pavilhões magestosamente erguidos pellos pontos nobres de nossa cidade.

“É por iniciativas como esta que a Rio de Janeiro Electric  Street Railway Company é tida como empresa de escol, padrão de urbanidade e…”