
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
O objetivo deste ensaio é a análise da ascensão do fenômeno bolsonarista a partir das lentes pedagógicas de um dos mais importantes nomes do pensamento sociológico contemporâneo: o professor José de Souza Martins, um dos últimos membros em atividade efetiva pertencente à Escola Paulista de Sociologia, criada por Florestan Fernandes, na Universidade São Paulo (USP), na segunda quadra do século passado. Tomamos aqui por “bolsonarismo” um sintoma disfuncional do capitalismo periférico que abarca um “fenômeno político que transcende a própria figura de Jair Bolsonaro” (Pinheiro-Machado e Freire, 2019, p. 19) – ainda que se articule com o período de tempo em que ele governou o país (2019-2022). A hipótese que perpassa esta exposição é de que a análise deste período de sucesso eleitoral do “bolsonarismo”, no ano de 2018, realizada pela mirada singular da sociologia martiniana, em artigos publicados no jornal Valor Econômico, pode ser fundamental para a melhor compreensão do fenômeno de ascensão da extrema-direita – no país e no mundo.
O OCASO DO LULO-PETISMO
Na primeira coluna de fevereiro, o sociólogo paulista afirma que uma das marcas desse capitalismo hodierno, socialmente irracional, ainda periférico e cada vez mais selvagem, se caracteriza, por uma “pressa econômica e tecnológica” que finge ser “moderno”, mas acaba por não corresponder “às possibilidades e ao ritmo de incorporação das novas gerações ao mercado de trabalho” (Martins, 2018a)– fazendo perdurar os malefícios e a indignidade da existência de uma população economicamente ativa potencial que é jogada no lixo da história.
Não são acidentes relacionados apenas com a cegueira e as orientações equivocadas deste ou daquele governo nas políticas econômicas desgrudadas de políticas sociais. Remendos como o Bolsa Família não emancipam as pessoas nem nelas fazem renascer a esperança do pertencimento. Ao contrário. São consequências da desativação interesseira dos mecanismos sociais de integração das novas gerações ao sistema econômico. Aos poucos, neste meio século, essas mudanças atingiram seriamente a mentalidade popular fundada na esperança de reconhecer em quem trabalha o legítimo direito de fazer parte da sociedade. Essa esperança vem sendo cada vez mais negada, aos jovens, sem dúvida, mas também aos que acima dos 50 anos de idade são mais alcançados pelo desemprego e pelas condições adversas de vida. Vivem mais que seus avós, porém sem a esperança que seus avós tiveram (Martins, 2018a).
Essa “forma aparente incluiu socialmente os excluídos”, resultando numa superficialidade “democrática”, afirmaria Martins (2018b) na semana seguinte. De acordo com o sociólogo, tal fenômeno teve início nos esforços de educação “semi” popular que floresceram nos anos de 1960. Foi um “faz de conta” que fingia saber e simulava conhecimento – gerando “uma nova forma social de ignorância”. Na década posterior, quando as chamadas classes populares ressurgiram no cenário político, acabou-se por se forjar uma “intelectualidade” nos movimentos populares que “produziu racionalizações que na essência asseguravam que o ignorante é sábio” – na contramão dos valores de uma classe trabalhadora que “sempre valorizou a escola”. Para o professor uspiano, “a nova ignorância elegeu a escola como inimiga” (Martins, 2018b).
Na coluna consecutiva, Martins (2018c) aborda um dos efeitos deste processo o “lulismo”. Segundo o autor, a “historiografia do atual”, cerradamente centrada na figura do metalúrgico que virou presidente, acabava por obscurecer “a trama de relacionamentos e de fatos que é essencial para a compreensão da crise política que tem nele o principal protagonista”.
O lulismo surgiu e se firmou não propriamente como desencontro com a estrutura partidária e desvio de sua ideologia de coalizão social-centrista. Mas como sucedâneo de uma fragilização de identidade partidária decorrente das contradições internas do partido. Fracionado em três grandes grupos ideológicos – a facção religiosa, a sindical e a de esquerda resultante da implosão que o stalinismo impôs ao comunismo –, o PT se propôs como um partido social-democrata da luta de classes. Diversidade demais para uma convergência viável (Martins, 2018c).
Essa difícil “identidade partidária” fez com que o “populismo lulista” pairasse acima do programa e da ideologia manifesta. O sucesso apareceu, com quatro vitórias eleitorais presidenciais seguidas, fato histórico singular no país. Mas o preço foi alto: “o do fazer sem saber, nas condições adversas da ação política dominada pela complicada trama de vontades desencontradas de uma governabilidade sofrível” (Martins, 2018c). Luiz Inácio Lula da Silva, na sua acepção, tornou-se “a personificação do poder sem sê-lo e sem saber que não o era”.
O presidente Luiz Inácio, a seu modo, teve nas mãos a possibilidade de definir e executar um projeto de nação que transformaria o homem simples, fosse ele pardo, branco ou negro, simbólicos remanescentes da nossa sociedade de escravidões, num protagonista ativo e consciente da história moderna do Brasil. O Partido dos Trabalhadores foi o único que percebeu que estava à disposição de protagonistas potenciais essa missão política. Porém, Lula e o PT a compreenderam no viés do populismo que acoberta a realidade opaca do processo político. Foram capturados pela ambição do poder sem alternância partidária, que os trouxe até estes dias cinzentos de incerteza para o país inteiro (Martins, 2018c).
Lula, ao fim, acabou por entrar numa porta lateral do processo histórico. Caiu na armadilha “da falsa consciência do que é o povo”, minimizando o poder das instituições. Para o analista, o maior “inimigo oculto” do lulismo, reforça, estava “nas contradições de origem de seu próprio partido”.
Devido a ela, o PT não logrou coerência doutrinária para cumprir sua missão histórica. Aprisionou seu líder nos desencontros de um encontro meramente verbal e discursivo. O poder transformou Lula num ser bifronte: uma coisa no poder e outra diferente coisa na porta da fábrica e nas manifestações de rua (Martins, 2018c).
Mas não só o lulo-petismo estaria relativamente perdido. Todos nós, de alguma forma, estávamos às voltas com um Brasil que já não mais existia. Na segunda coluna de março, o sociólogo traçava as linhas de entendimento desse “novo” país. O que tinha sido uma população de católicos, hoje tenderia a se transformar numa nação de evangélicos. Mas alertava: o declínio da proporção de católicos em relação à de evangélicos, no Brasil, é “numericamente verdadeiro”, mas “sociologicamente falso”. Isto porque o importante, para a “compreensão do fenômeno”, é constatar que o se ampliou foi outra coisa: “cresceu significativamente a religiosidade, a intensidade da religião, tanto de católicos quanto de evangélicos e dos adeptos de outras crenças” (Martins, 2018d).
Segundo o articulista, o que se observa, na sociedade brasileira, é “uma convulsão do sagrado”. E é esta convulsão que merece reflexão, para além dos “rótulos de fé”, que não passam de adereços. E é daí que viria o seguinte risco: “Logo seremos mais religiosos e, provavelmente, mais intolerantes com aqueles que de nossa crença diferem” (Martins, 2018d). Ainda na visão do sociólogo, esses novos espaços de fé seriam “também lugares de migrantes, abertos à procura de nova inserção social e de ajustamento na geografia da sociedade de consumo”. Não seria de se estranhar, portanto, “que em algumas igrejas os ministros sejam mais gerentes de negócios da fé do que sacerdotes do sagrado. Não vendem indulgências, mas vendem a certeza da prosperidade em tempo de crise” – afirmava Martins (2018d), com certo lamento, talvez lembrando a sua origem familiar protestante de marca mais tradicional.
ESVAZIAMENTO DO PODER
Não é acaso, portanto, que será desses grupos que virá um tipo de reposta à crise política brasileira do momento – crise essa que se revelava a antítese “de um tempo em que se fazia política com lucidez e patriotismo”, afere o sociólogo na coluna ulterior. De acordo com ele, tal situação era resultado do que sobrou da “grande promessa que foi a do Brasil político arquitetado pelos constituintes de 88” – promessa essa que foi sabotada por seu uso oportunista, que “encheu de brechas as liberdades nela consagradas” (Martins, 2018e).
Em nome de uma concepção simples de liberdade, acolheu-se o que havia de pior e mais antimoderno na tradição política brasileira: o localismo e o clientelismo da troca de favores. Neste cenário, os eleitos continuaram a agir “em causa própria, viabilizando uma casta antidemocrática que se alimenta de privilégios inaceitáveis”. Uma democracia em que todos são iguais perante a lei. Mas, concretamente, “alguns são mais iguais”. Para o articulista, o povo brasileiro, de joelhos, se via sem caminhos – restando “optar entre as (alternativas) que lhe são impostas justamente pelos próprios aproveitadores” (Martins, 2018e). Na proximidade de um novo pleito, o articulista afirmava: “não há nenhum indício de uma saída que nos afaste da proximidade do precipício”.
Os diferentes partidos e candidatos, da esquerda à direita, sem exceção, estão pensando o processo político na perspectiva do poder, são partidos do poder. Não o estão pensando na perspectiva da sociedade e das contradições sociais que pedem e possibilitam a inovação e a renovação política de que o país carece. Nesse cenário, é improvável que nos ofereçam a viabilidade de um pacto que devolva os políticos à política e o Brasil a si mesmo (Martins, 2018e).
As razões para isso estariam no que o autor paulista chama de esvaziamento do poder político, especialmente o presidencial – tema que vai ser desenvolvido no início do junho, logo a seguir aos “caminhonaços”, movimento que varreu e paralisou parte do país no mês anterior. De acordo com Martins, tais manifestações seriam sintomas do “vazio político” que teve origem na intensidade dos “movimentos de rua de 2013”, cujos atores foram os mesmos que protagonizaram o impedimento, três anos depois, da nossa primeira presidenta. Foi este fenômeno que abriu a “brecha num sistema político” antes impermeável a novos sujeitos, mas que agora passou a ser dominado por difusos “agrupamentos de interesse e de famílias radicados em nosso provincianismo” – do qual o “caminhonaço” do agronegócio seria um dos melhores exemplos (Martins, 2018f). Manifestantes de 2013, agronegócio e religiosos neopentecostais. Martins vai identificando, assim, os “novos” sujeitos políticos dessa década tão conturbada e confusa – que, ao fim, acabava por simbolizar o sentido das eleições daquele ano: polarizada, mas “despolitizada”. O principal indício era o recrudescimento do apelo explícito a uma intervenção militar, provinda de uma militância “tosca e ingênua” que concebe a política como instrumento do retrocesso ao passado, e não como progresso e superação de problemas e de atrasos. Ao fim da crônica, o alerta: “Nossa democracia unidimensional anseia por autoritarismo” (Martins, 2018f).
No intervalo entre um artigo e outro, Martins concede ao Valor Econômico uma entrevista para comentar os resultados do primeiro turno das eleições daquele ano. A apreciação que faz o sociólogo é de que as duas principais forças que dominaram a cena política do país desde a redemocratização tinham substantiva responsabilidade na nova polarização. A esperança do cronista seria o “real” candidato do partido, Fernando Haddad, se mostrar mais ousado, deixando de ser a “linha auxiliar do ex-presidente” (Martins, 2018g). Na sua visão emergencial, o PT deveria retomar o caminho das propostas programáticas para denunciar nossas injustiças, indicando os veículos de sua superação a partir dos vínculos com as classes que trabalham – ou “com o que resta da classe operária” (Martins, 2018g). Mas, naquele momento de indefinição, o sociólogo via escassas possibilidades de se evitar a vitória de Jair Messias Bolsonaro.
E, talvez como um mecanismo de defesa, já imaginava como seria um futuro governo.
Bolsonaro tem problemas parecidos com os do PT e do Lula, mas com características próprias. Bolsonaro é uma pessoa, não um partido. O partido dele não é nada. Ninguém sabe direito o que é. Não tem doutrina, que o PT, de certa forma, tem. O Bolsonaro pode até ser eleito, é o mais provável. Mas vai ter de enfrentar o fato de que não será eleito pela maioria do povo brasileiro. Vai ficar um enorme vazio de pessoas excluídas das concepções dele, da doutrina dele e de seu vice. Essa grande massa fica onde nessa estrutura do governo? Porque ele não será mais candidato; será governo. Um pouco como o que ocorreu com o PT: uma população que se sentiu excluída, marginalizada e que está dando a resposta agora. Bolsonaro vai ter problemas muito parecidos (Martins, 2018g).
Desta forma, na sua interpretação sociológica, realizada com mais vagar na sua coluna daquela mesma semana, mais do que uma superação do lulopetismo, o bolsonarismo nada mais seriado que um sintoma e uma resposta disfuncional ao nosso capitalismo tardio e periférico, na sua atual conformação.
O candidato que alcançou o primeiro lugar, Jair Bolsonaro, apresentou-se ao eleitorado com um programa político que é uma lista de propósitos que são apenas negação “do sistema partidário”, especialmente, daquilo que o PT viabilizou ou realizou durante seus 13 anos de governo. Ele apenas listou os antagonismos que formaram sua plataforma eleitoral. Não é, portanto, um candidato propositivo, mas apenas um candidato da negação. Ou seja, a função cumprida por sua candidatura é, na prática, a de uma extensão do voto nulo e do voto em branco. É um voto antipolítico. Ele inaugura, na lista das omissões, o voto negativo e inaugura a reivindicação de personificar a negatividade e transformá-la em presidente da República (Martins, 2018h).
O RECADO DA TRAGÉDIA
Confirmada a tragédia no segundo turno, Martins, numa de suas colunas de novembro, orientava aos derrotados “tentar compreender os motivos de sua rejeição pela maioria eleitoral” – afinal, numa democracia, em que é prevista a rotatividade do poder, é assim que as coisas funcionam. E nela, a maioria tem o direito e a missão “de manter as coisas como eram ou de modificá-las”. Deveria, assim, usar este momento pós-eleitoral para colocar na balança a necessidade de “abandonar ou reformular concepções e práticas, mudar de rumo, encontrar caminhos, repensar a própria identidade. Sobretudo, repensar e decifrar quem é o outro que teve a preferência do eleitorado” (Martins, 2018i).
O que seria fundamental para que a sociedade brasileira pudesse enfrentar o que o sociólogo identificaria, em outra crônica novembrina, como a hora do “poder da incerteza” (Martins, 2018j). De acordo com o autor, a direita “tosca e unilinear” que iria dirigir o Brasil já demonstrava, com “escolhas frágeis e tendenciosas”, que o seu governo “será inaugurado como um programa de guerra contra ideias, contra o conhecimento e contra a cultura” – uma “orientação política de guerra aberta contra o cerne da civilização, que é a da diversidade social e de idéias” (Martins, 2018j).
Não era, enfim, apenas um recado aos derrotados. O apelo martiniano para refrear o triunfo da barbárie, com a confirmação da vitória política de uma direita que se mostrava cada vez mais extrema, também se destinava aos seus potenciais leitores no mais importante veículo de jornalismo econômico do país.Com esse apelo reflexivo, as nossas classes burguesas nativas, seja a “produtiva” ou a “rentista”, de atuação nacional ou com interface internacional, talvez pudessem repensar melhor seus posicionamentos políticos futuros e assim colaborar para evitar a “fragilização” da democracia brasileira. Um fenômeno, lembramos novamente, imbricado com o fortalecimento da tendência mundial de um “modo de governar” os Estados-Nações da contemporaneidade que possui as seguintes características iliberais e autoritárias: sem lei, imprevisível, anti-intelectual e retoricamente nacionalista.
Parece que até agora, em 2026, o recado ainda não tinha sido ouvido.
REFERÊNCIAS
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MARTINS, José de Souza. PT tem responsabilidade pelo cenário de extremos. Valor Econômico, “Política”, 08 out. 2018g. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/coluna/pt-tem-responsabilidade-pelo-cenario-de-extremos.ghtml. Acesso em 30 nov. 2023.
MARTINS, José de Souza. A margem de erro. Valor Econômico, “Eu&”, 11 out. 2018h. Disponível em: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/a-margem-de-erro.ghtml. Acesso em 30 nov. 2023.
MARTINS, José de Souza. Novo cenário, novas personagens. Valor Econômico, “Eu&”, 16 nov. 2018i. Disponível em: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/novo-cenario-novas-personagens.ghtml. Acesso em 30 nov. 2023.
MARTINS, José de Souza. De boca fechada. Valor Econômico, “Eu&”, 30 nov. 2018j. Disponível em: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/de-boca-fechada.ghtml. Acesso em 30 nov. 2023.
PINHEIRO-MACHADO, Rosana; FREIXO, Adriano de. Brasil em transe: nova direita e desdemocratização. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2019.
Texto resumido e adaptado do trabalho apresentado no 4º Seminário de Pensamento Social Brasileiro, realizado pelo Núcleo de Teoria Social e Interpretação do Brasil da Universidade Federal do Espírito Santo (NETSIB/UFES).
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Marcos Marques de Oliveira é jornalista e cientista social. Pós-doutor em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Professor de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
