
(Foto: Suzy Hazelwood/Pexels)
Absurdo, histórico, o maior.
Não existe mais jornalismo sem estas três atribuições. O “absurdo” é relegado ao descaso do “poder público”, sem cara, sem rosto, essa entidade à qual a matéria do jornal televisivo se dirige revoltada ao manifestar a indignação pela ausência do “poder público” para socorrer as vítimas de uma catástrofe.
Um jornalismo que se encerra na pura denúncia. Por que o jornalismo não vai a fundo? Por que não investiga? Apenas mostra situações particularizadas sem procurar ir além da superfície dos fatos. Fica apenas no “o que”. Onde foram parar o “como” e o “por quê”?
O alagamento. Qual a causa? O que dizem os especialistas? Quais seriam as soluções e por que não são ou não foram adotadas? Quem de fato são os responsáveis? Houve descaso? Há falta de investimento público? Se sim, por que os recursos estão sendo destinados a outros propósitos?
E o papel fiscalizador da Câmara Municipal? E o Ministério Público? Por que não são chamados em suas responsabilidades e por que não são ouvidos a respeito? Não bastasse o jornalismo do “absurdo”, atualmente, tudo para o jornalismo é “histórico”.
O alagamento na cidade é “histórico” porque, segundo as autoridades, os especialistas e o próprio repórter, é o “maior” em três anos. Assim é também a seca, a “pior” na “história” de uma dada região. Isso, para não falar dos que estão fazendo história.
O “histórico” sai das declarações aos repórteres e se torna o motivo da própria notícia ou reportagem. Um “histórico” associado ao maior. É o “maior” cachorro-quente do Brasil, o “maior” bolo de Páscoa produzido numa padaria da cidade, a “maior” árvore de Natal.
Não existe mais o dono que mordeu o cachorro, mas a “maior” mordida de dono no cachorro ou o “maior” cachorro do mundo já mordido por um dono. Uma mordida “histórica”. Esse é o critério de noticiabilidade: o banal é o inédito.
O festival literário é o “maior” do Nordeste, a manifestação religiosa reúne o “maior” número de fiéis da região, a árvore de Natal é a “maior” do Estado.
Ser “maior” é o único fato que justifica a notícia, a um passo de se tornar também “histórica”, pois aquela edição do festival reuniu o “maior” número de participantes da “história” do evento.
Qual a razão de uma árvore de Natal luminosa ser notícia? E onde fica a relevância da “maior” árvore e o do “maior” festival literário, no fato de serem simplesmente maiores? Mas “maior” em relação a que e por quê? A quem se destina? O que foi apresentado? Que fiéis são esses, por que uma manifestação ainda reúne tanta gente?
Parece que falta ao jornalismo brasileiro capacidade de ser o que já foi um dia. Isso sim é absurdo, histórico e menor. Superficialidade, falta de contexto e espetacularização: até quando?
***
Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
