Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Quando o governo Lula vai retirar os garimpeiros da terra yanomami?

(Foto: Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto)

Nós repórteres temos que nos dar conta do seguinte. Tão urgente como levar atendimento médico-hospitalar, remédios e alimentação para os índios yanomamis é a retirada imediata dos garimpeiros das suas terras – uma vasta área de mais de 30 mil hectares no estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. Enquanto os garimpeiros estiverem na reserva yanomami a situação não se resolverá. Há uma estimativa de que há mais de 20 mil deles por lá. Por que a situação não se resolverá? A explicação é simples. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não sabe com quem está lidando. Quem hoje está lá não tem nada a ver com o perfil do garimpeiro tradicional, aquele que por anos vem perambulando pelos matos e rios da Floresta Amazônica extraindo ilegalmente ouro, diamantes e outros minerais valiosos. Esses, ao primeiro sinal da presença das autoridades na área, fogem para outro local. O garimpeiro que atualmente ocupa a área yanomami foi gestado pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao desmantelar a Fundação Nacional do Índio (Funai) e os órgãos de controle do meio ambiente, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Adesarticulação dos órgãos federais de fiscalização atraiu para o garimpo as organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), que já operava na região em parceria com facções locais, trazendo pelos rios a cocaína da Colômbia. A parceria com as facções locais também deu às grandes organizações criminosas acesso a contatos infiltrados entre as autoridades policiais e outras na região. Podemos afirmar com segurança que a presença das facções no garimpo é um efeito colateral da política indigenista e ambiental do governo Bolsonaro. Se foi de propósito ou não é um assunto que está sendo investigado pela Polícia Federal (PF). Os garimpeiros que estão na área não vão sair de lá na boa. Eles investiram muito dinheiro, estão armados até os dentes e não costumam fugir da polícia sem troca de tiros. Conversei com procuradores da República sobre a retirada de imediato dos garimpeiros da área indígena. Eles explicaram que as terras yanomami são propriedade da União. Portanto, legalmente podem ser despejados dos seus garimpos.Lembro que, em 1993, garimpeiros massacraram 16 yanomamis na fronteira do Brasil com a Venezuela. O caso teve repercussão internacional – há matéria na internet. Na ocasião, a Força Aérea Brasileira (FAB) fechou o espaço aéreo da reserva yanomami para os aviões dos garimpeiros. A mão do governo foi pesada nesse episódio. Estou falando pelos cotovelos e ainda não fiz, para os colegas repórteres, especialmente os jovens, e aos demais leitores, uma advertência que julgo necessária. O que estou escrevendo não é opinião. São fatos que temos publicado, somados ao meu conhecimento da questão de invasão de áreas indígenas por garimpeiros. Fiz reportagens na terra dos yanomami e conservo boas fontes em Roraima. Como também fiz matéria no garimpo de diamantes na Reserva Roosevelt, dos índios cintas-largas, em Espigão d’Oeste, Rondônia. Em 2004, houve um conflito e os índios mataram 29 garimpeiros. Fiz uma reportagem sobre o garimpo na Roosevelt chamada Os diamantes de sangue do Brasil. Desde os anos 90 ando pelos garimpos nos rios e matos da Floresta Amazônica.

Dava para escrever um livro sobre as histórias que ouvi dos garimpeiros, bebendo cerveja nas noites quentes e úmidas da imensa floresta equatorial. Outra boa fonte eram os chamados “pilotos de garimpo”, um profissional que era capaz de pousar um monomotor em qualquer tipo de pista. Não escrevi o livro de boca-aberta. Dito isso, vamos voltar a nossa conversa. A estrutura econômica dos garimpeiros antes da chegada das organizações criminosas era mais simples. Geralmente formavam uma espécie de cooperativa, pegavam dinheiro emprestado com comerciantes e agricultores e se embrenhavam mato adentro em busca do ouro. Tanto o ouro quanto o diamante valem muito menos na mão do garimpeiro que o seu preço de mercado. O preço começa a subir depois que o metal é vendido para o comerciante de ouro e diamantes. Dali para frente ele é legalizado e pega o preço do mercado. Todo mundo nas cidades próximas aos garimpos sabe que são os comerciantes que lidam com os garimpeiros. Na semana passada, eu conversei com um agente da PF que conheci em Humaitá, uma pequena cidade no meio da selva amazônica, às margens do Rio Madeira. Uma informação que considero relevante sobre Humaitá. Em 2017, uma turma de garimpeiros invadiu o escritório do Ibama e queimou um helicóptero e outros equipamentos. A minha conversa com o agente federal foi sobre o destino que as facções estão dando para o ouro dos garimpos. Ele disse que o metal está sendo usado como moeda na compra de cocaína dos cartéis de produtores de coca da Colômbia. A nossa conversa foi concluída com ele me lembrando que o PCC e outras organizações criminosas estão usando o ouro do garimpo para tornar o território brasileiro corredor de drogas para os grandes mercados consumidores nos países europeus e nos Estados Unidos.

Há muitos números sobre a produção de ouro no Brasil. Um deles, o mais usado, revela que o país produz 100 toneladas anuais, sendo que 52 “tem traços de ilegalidade”. O fato é o seguinte. Sempre que se vai fazer uma matéria sobre o destino do ouro retirado das reservas indígenas as informações disponíveis sobre a produção são, na maioria das vezes, chutes. O que todos concordam é que “é muito ouro”. Também há dificuldade para seguir a cadeia da ilegalidade, porque os inquéritos policiais abertos nas delegacias da PF e das polícias civis não cruzam as suas informações. Ajudaria todo mundo, principalmente os pesquisadores, se as autoridades policiais se organizassem e cruzassem as informações dos inquéritos. O certo é o seguinte. Os garimpeiros que hoje ocupam as terras yanomami não têm nada a ver com os antigos que perambulavam por lá. Têm outro perfil. São pessoas ligadas a facções, que não vão fugir pela simples presença das autoridades na região. Para o bem do povo yanomami, a imediata retirada desses invasores de suas terras é tão necessária como são os alimentos e os remédios.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.