Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

A neblina de desinformação e a guerra da Ucrânia – I

(Foto: Geralt/Pixabay)

No dia 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin alega que iniciaria uma “operação militar especial” para ‘‘desmilitarização’’ e ”desnazificação” da Ucrânia. Essa alegação tem sido usada em propagandas e desinformação para justificar a invasão do território ucraniano pelas tropas russas. Para entender quais são os reais motivos russos para esse ataque ofensivo e como a desinformação se espalha e afeta russos e ucranianos o Observatório de Imprensa entrevistou Marcelo Träsel, professor do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Alcides Peron, professor de relações internacionais na Universidade Federal de Sergipe e especialista em segurança internacional.

Träsel comenta que a expressão “operação militar especial” é um eufemismo utilizado por Moscou para se referir à guerra. “O Kremlin busca caracterizar a invasão como uma espécie de Missão de Paz, mas o termo “guerra” não combina com uma intervenção altruísta. A invenção de eufemismos ou a ressignificação de termos já existentes é uma técnica comum na estratégia de comunicação de regimes autoritários.”

Para Peron, o principal foco da operação seria a ‘‘desmilitarização’’ do país vizinho, acrescentando que a justificativa moral de ‘‘desnazificação’’ alegada pelo presidente russo seria relativamente fantasiosa. E acrescenta que de forma alguma os grupos e batalhões militares neonazistas ucranianos são totalidade e nem que a presença dessa parcela justificaria uma guerra.

Motivo histórico, militar e estratégico

O fim da Guerra Fria acontece com a dissolução da União Soviética (URSS). Assim, parte dos territórios que pertenciam à URSS começam a ter mais autonomia fazendo com que a Rússia deixe de ser tão influente nesses territórios. 

A partir de 1991, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) expande-se para o Leste Europeu, incluindo 13 novos países na aliança militar. Essa adesão dos vizinhos russos aumenta a projeção dos EUA sobre o continente europeu, fazendo com que a Rússia se sinta cercada e intimidada. 

A redução substancial da influência sobre os países vizinhos, juntamente com o sentimento de ameaça e isolamento com a expansão da OTAN reforça sentimentos nacionalistas e traz à tona a necessidade de afirmação do poder russo. Para Alcides Peron, esses são dois fatores históricos que também explicam a ofensiva russa.

Além disso, o professor retoma a questão do caráter militar estratégico do território ucraniano tanto do ponto de vista naval quanto do terrestre.

‘‘A Ucrânia, em específico, é importante para a Rússia porque é a partir dela que se consegue projetar maior poder sobre o mar Negro, e eventualmente sobre o Mediterrâneo, através do estreito de Dardanelos. A projeção de poder naval é muito importante; mais do que isso, Kiev é extremamente importante. De Kiev até Moscou, você não encontra acidentes geográficos muito expressivos. Então, aquele que controla Kiev consegue de uma certa forma projetar poder terrestre sobre a Rússia com maior facilidade’’, afirma.

Putin também tem receio de que com a aliança do país vizinho com a OTAN, o território ucraniano sirva de base para o lançamento de mísseis. Para que a Rússia mantenha o controle dessa área estratégica, o professor conclui que, diante dos fatores acima, o motivo por trás da “desmilitarização” da Ucrânia aparenta ser a deposição do atual governo de Zelensky e sua substituição por um governo mais alinhado com os interesses russos.

Disputa de narrativas e desinformação

A Rússia tem um grande histórico na manipulação através da desinformação. Na Guerra Fria, Stalin cunhou o termo “dezinformatsiya” (desinformação em russo). A desinformação era uma das principais estratégias da inteligência soviética utilizadas pela KGB, sigla para Komitet Gosudarstveno Bezopasnosti,  que pode ser traduzido como ‘‘Comitê de Segurança do Estado’’ em português. As intervenções russas na eleição presidencial americana de 2016 e no Brexit evidenciam a presença, até os dias atuais, do poder de influência russa.

‘‘O governo russo talvez seja o mais competente em promover campanhas de desinformação nas redes sociais. De fato, nem mesmo se esforçam muito para esconder sua participação em diversos momentos, como nas eleições em que Trump foi eleito presidente dos EUA. É de conhecimento público que a Internet Research Agency, ligada ao Kremlin, tem como função primordial difundir desinformação e hackear empresas e redes estatais ao redor do mundo. O governo Putin segue a cartilha da antiga KGB, que ainda antes da World Wide Web e das redes sociais já recomendava provocar confusão e incerteza com um fluxo constante de desinformação contraditória. Além de empregarem hackers e especialistas em mídias sociais, também financiam diversos jornais e emissoras de rádio e TV’’, diz Träsel. 

A desinformação russa se propaga através da propaganda na TV do país, rádio, jornais e redes sociais como o Instagram, Facebook, Youtube, Twitter e TikTok e grupos de mensagens, principalmente no aplicativo russo Telegram.

As falsas narrativas da guerra têm tentado justificar moralmente e ideologicamente a invasão da Ucrânia, principalmente para obter apoio popular russo. 

Como relata o professor Peron, ‘‘a atuação vai desde enaltecer as ações do Vladimir Putin, enaltecer o próprio Putin, até produzir notícias que não são exatamente inverídicas, mas são exageradas. Como a gente sabe, a desinformação tem um espectro muito grande; então nesse caso são informações que são exageradas, como a de que os nazistas estariam dominando e controlando a Ucrânia como um todo etc.’’.

Cada lado do combate tem seu viés e seus alvos diferentes; nesse conflito, ficou claro como a disputa de narrativas afeta os combatentes e o imaginário popular mundial sobre o conflito. 

Um exemplo claro da guerra da informação instaurada nessa invasão foi que o número de mortos anunciado por cada país diverge (e muito). A negação russa das informações vindas de fontes ucranianas faz com que o público russo não perceba o grau de gravidade e danos que seu país está causando. Vídeos com civis mortos e hospitais destruídos na Ucrânia, por exemplo, são acusados de serem falsos e feitos com atores.

Peron comenta que o principal alvo é o público russo e a moral de seus combatentes, porém ele diz que essas histórias enganosas e imprecisas vão além das fronteiras do território.

‘‘A Rússia tem como foco fundamentalmente o público interno, mas com algum espraiamento também para alguns países europeus e também na Ucrânia, angariando apoio interno da Ucrânia. Visam novamente uma visão nacionalista, uma contradita em relação ao expansionismo da OTAN sobre a forma de imperialismo, dominação etc.’’. 

Algumas das estratégias de desinformação russa continuam as mesmas, mas com algumas sutilezas e aprimoramentos. Um exemplo desse refinamento foi o uso de software que gera o rosto de pessoas que não existem. Esses perfis se passavam por pessoas reais, com discursos anti-ucranianos, que comentavam em sites hackeados, e também no Facebook e Twitter.

‘‘Vemos que os russos usam técnicas altamente sofisticadas, como inclusive foi esse caso da criação de um personagem crítico, que na própria Ucrânia seria um influencer que nem existe na verdade, mas que seria responsável pela produção de conteúdo absolutamente contrário ao governo Zelensky e de apoio a esse procedimento de desnazificação’’, comenta Peron.