Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

IA do MST: em busca de uma apropriação popular da tecnologia

(Foto: Tara Winstead/Pexels)

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou em janeiro de 2026 uma inteligência artificial própria, batizada de IARAA (Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia). A IARAA foi apresentada como ferramenta durante o 14º Encontro Nacional do MST em Salvador (BA) com o objetivo de apoiar a agroecologia e a produção de alimentos saudáveis pelo MST. Estive no lançamento e trago algumas observações.

Principais características da IARAA

A IARAA caracteriza-se por ser uma tecnologia de inteligência artificial desenvolvida com o objetivo central de fortalecer e massificar a agroecologia por meio do desenvolvimento tecnológico popular. Seu desenvolvimento é coordenado pelo MST e pela Marcha das Mulheres, com o apoio da Associação Internacional para Cooperação Popular (BAOBAB). A iniciativa possui um caráter internacional que envolve a colaboração de organizações de diversos países.

Diferentemente de modelos adotados por Big Techs, a IARAA do MST fundamenta-se em um padrão de desenvolvimento voltado para a prosperidade comum, buscando uma apropriação crítica da tecnologia e da técnica de IA a serviço de movimentos populares e sociais.

Uma outra característica fundamental da IA do MST é a construção de uma base de conhecimento coletiva, que reconhece e exalta o saber produzido por universidades, movimentos sociais e comunidades tradicionais, em oposição à apropriação privada de dados praticadas por grandes corporações. Além disso, a ferramenta é projetada para garantir rigor científico, conceitual e técnico nas respostas sobre agroecologia. Logo, seu funcionamento não é apenas como um canal de interação individual, mas um instrumento político e organizado para potencializar cooperativas, agroindústrias e a luta pela terra pelo povo da terra, sob uma perspectiva marxista.

A IARAA utiliza um vasto acervo de informações técnicas produzidas pelo MST, incluindo documentos do Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária) e Instituto Educacional Josué de Castro (IEJC).

Modelo chinês como inspiração

A inspiração do projeto IARAA no modelo chinês surgiu a partir da participação de militantes no curso de inteligência artificial para movimentos populares do Sul Global que foi realizado em Xangai em julho de 2025. A lógica deste curso difere da lógica de desenvolvimento tecnológico, fundamentalmente do padrão das grandes corporações transnacionais de grandes plataformas, como as Big Techs.

A consolidação da IARAA, nessa perspectiva, enfatiza os riscos estruturais implicados na crescente “algoritmização” da vida. Segundo Schlemmer, Schlemmer e Di Felice (2024), em tempos de algoritmização do mundo, romper com esta lógica altera o habitar do ensinar e aprender, superando dualismos e dicotomias (sujeito-objeto, individuo-meio ambiente, online-offline, físico-digital), levando a um movimento em fluxo pelas problematizações do mundo presente em uma perspectiva conectiva, ecossistêmica, simpoiética, que se desenvolve num habitar atópico, produzindo conhecimento com todos que habitam estas redes.

Precisamos aprender a lidar com o protagonismo datificado dos não humanos. E vale considerar que estes hoje representam mais que 50% da internet. Em 2025 o dado alarmante é que 57% do conteúdo que circula foi produzido por robôs; deste percentual, 22,6% são os conhecidos bad bot e robôs maliciosos criados para disseminar informações falsas, executar fraudes e outros danos na mesma linha dos distúrbios informacionais, como deep fakes e desinformação (Tecnoblog, 2024).

Além de criar prejuízos para integridade da informação, ironicamente, isso é prejudicial para as próprias IAs generativas, pois elas se retroalimentam, majoritariamente, desses dados e conteúdos que circulam na internet.

Entre os desafios mais urgentes destacam-se a vigilância e o uso indevido de dados pessoais, a precarização do trabalho e da educação mediados por sistemas algorítmicos, a propagação de desinformação, a influência sobre decisões políticas e processos eleitorais, a discriminação algorítmica, a erosão da privacidade e a fragmentação das relações sociais.

O próprio MST tem sido alvo de notícias falsas geradas por IA, como a desinformação ocorrida em janeiro de 2026, quando circulou um vídeo falso, compartilhado por políticos, utilizando a imagem e símbolos do movimento com voz clonada por IA, simulando uma invasão aos Estados Unidos para defender Maduro. Essa é uma situação que tem se tornado cada vez mais frequente, com a qual as instituições e movimentos da sociedade precisam aprender a lidar e a se defender de forma rápida e com o mínimo de dano possível.

Esse movimento do MST, ao projetar uma IA na perspectiva do modelo chinês definido como desenvolvimento socialista, de propriedade comum e tendo como contraponto o modelo neoliberal pode estar nos sinalizando uma alternativa que vai na contramão de ferramentas, com boas e qualificadas intenções, mas que se utilizam de modelos de linguagem das Big Techs para a criação de seus agentes.

Assim, espera-se que a IARAA se consolide e se associe a outras IAs que trazem no escopo de seu desenvolvimento a consideração, a soberania e o controle dos dados, principalmente por ser uma IA com um chat que se utiliza de dados muitas vezes sensíveis dos territórios e dos camponeses. Entretanto, com certeza saberemos mais sobre armazenamento e coleta quando houver o lançamento oficial, previsto para maio de 2026, na Feira Nacional da Reforma Agrária, com acesso gratuito para cooperativas e assentados. Trarei mais notícias… fique atento(a).

Referências

Brasil de Fato. IARAA: MST lança inteligência artificial a serviço da reforma agrária, 2026. Acesse em: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/21/mst-lanca-inteligencia-artificial-a-servico-da-reforma-agraria/ 

MENEZES, J.; SCHLEMMER, E.; FELICE, M. D.. Educação OnLIFE e Cidadania Digital: o desenvolvimento do pensamento computacional na cidade em tempos de algoritmização do mundo. Educar em Revista, v. 40, p. e88519, 2024.

TECNOBLOG. ​​57% do conteúdo na web foi criado por robôs, mostra estudo, 2024. Acesse em: https://tecnoblog.net/noticias/57-do-conteudo-na-web-foi-criado-por-robos-mostra-estudo/  

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Barbara Coelho é Professora da UFBA | Pesquisadora em Inteligência Artificial e desenvolvimento social | Pós-doutora em Ciência da Informação | Bolsista de Produtividade CNPq | Coord. LTI Digital | IA, gênero, democracia e inclusão sociodigital. @profabarbaracoelho