Terça-feira, 20 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

​​Novo transpassar cultural – a perenidade da mídia

(Foto: Gertrūda Valasevičiūtė/Unsplash)

A tríplice ética, regulação e transparência ronda os aspectos fundamentais do fazer jornalístico. Se a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa para potencializar a produção de conteúdo, ela também se impõe como desafio existencial: o que é autoral, confiável e adequado? Além do imediatismo dos dias, está o fazer história. Quais narrativas estarão nos livros de história? Quais serão priorizadas pelos buscadores e pela própria IA? O conteúdo orgânico ou aquele produzido com o uso — ou exclusivamente — da inteligência artificial?

Livros, canções, pessoas, comportamentos: milenares, seculares. Qual será a longevidade dos “filhos” da inteligência artificial? O pensamento pode ser extrapolado para questionar o comportamento da geração que cresce e se desenvolve em diferentes estágios da utilização cotidiana da IA. Tanto quanto se pode refletir sobre o conteúdo cultural criado por ela, sua durabilidade e representatividade ao longo dos anos. A cibercultura, tão abordada por Pierre Lévy, instalou-se como uma nova dimensão da sociedade.

O conhecimento não está mais restrito, mas no coletivo. Todavia, os frágeis parâmetros de atuação têm petrificado narrativas que ao longo do tempo podem ser o equivocado recorte, registro de uma era. Ignoramos ao rolar freneticamente a tela, ou pedir à IA para resumir textos, áudios, explicar o que não se quer raciocinar, colocando a culpa no tempo. A sociedade e sua luta contra o tempo, tal qual a relação da imprensa com a objetividade. Além de repensar modelos de negócios para incorporar a IA, a Imprensa precisa estar atenta no seu papel como coautora da história ao longo das gerações.

Desta feita, a contemporaneidade firma um novo cenário: a audiência dos veículos de imprensa sofre abalos diante do grande volume de comunicadores informais, influenciadores, que prezam pelo imediatismo e por tornar virais suas mensagens. Como desdobramento, conseguem monetizar sua audiência. O que se faz necessário estar atento, aqui, é que além de comprometer modelos de negócios, compromete-se também as narrativas. Tanto em seu efeito imediato de interpretação quanto em seu poder cultural ao longo do tempo, formando a opinião de gerações futuras, em especial quando pesquisam ou estudam sobre um tema do passado.

Antes, a relevância histórica dos fatos era debruçada não apenas em sua influência no comportamento social, mas especialmente na repercussão midiática do fato. Atualmente, com produtores de conteúdo que trabalham paralelamente à imprensa tradicional, e com o volume de conteúdos gerados por inteligência artificial, o que definirá a relevância histórica dos fatos a serem ensinados nas salas de aula? A serem resgatados em retrospectivas?

Atravessarão gerações por estarem enraizados na internet? Ou sucumbirão ao soterramento digital? A relevância das obras — e o que as torna históricas — está cada vez mais subjetiva. Da Ilíada e da Odisseia até os títulos mais recentes das livrarias físicas e virtuais. Da prensa de Gutenberg aos bits e bytes dos novos portais de notícias, que já não precisam ser sustentados por medalhões da imprensa. A perenidade da narrativa midiática não é pauta cotidiana da sociedade, mas determina cruelmente quem ela se tornará ao longo dos anos.

Como há de ser categorizado o acervo da imprensa e dos produtos culturais ao longo da história? De forma prática, como a imprensa definirá seu conteúdo (orgânico x IA) e a representação dos fatos? O que nasce como instrumento de amparo nas mais diversas atividades tem se estabelecido por diversas vezes como ferramenta principal, autor de narrativa: a tecnologia.

Para produzir uma matéria que necessita de embasamento histórico, se procura em acervo de veículos tradicionais, em enciclopédias, solicita-se para a inteligência artificial ou busca em canais do YouTube que produzem conteúdo a partir de fatos históricos. Os chamados reviews. Nesta época do ano, em que os aplicativos e serviços de streaming fazem suas retrospectivas individuais e gerais, fica uma observação: e a retrospectiva midiática? Será pontuada por narrativas orgânicas ou produzidas com uso ou exclusivamente de IA?

Na imprensa, entre verificações, contextualizações e o controle da presença da inteligência artificial, o fato precisa ser visto com maior distanciamento da crença e proximidade da reflexão. Não há instrução satisfatória para lidar com esse processo. Ler notícias tornou-se um exercício ainda mais elaborado, independentemente do tema.

Produzir narrativas e estruturar notícias ganha, a cada dia, maior complexidade, interferindo em toda a estrutura social. Não é tão simples como apontar a câmera do celular e gerar um prompt para o texto perfeito e imediato. O reverberar da ação aparentemente simples é o que tem definido nosso poder de percepção, interpretação e reprodução. Não se trata de ser “vintage” ou eufórico em uma resistência à tecnologia, mas de compreender as nuances de sua presença. É salutar atentar-se às intercorrências do processo midiático na manutenção da identidade cultural e na construção dos elementos que atravessarão gerações — ou serão esquecidos.

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Rudson Vieira é escritor e jornalista de Coronel Fabriciano (MG), especialista em Sociologia Política. Autor dos livros Cobogós, Poros, Aspargos e Pinhole, trabalha há mais de 20 anos em comunicação corporativa, assessoria, ghostwriter e produção cultural.