Tuesday, 09 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

A força do rádio

Sendo a única mídia que ainda supera a audiência da televisão em algum momento do dia – no caso, pela manhã – e estando presente em 87,9% dos domicílios brasileiros (PNAD 2009), é indiscutível que o rádio mantém-se relevante enquanto atrator de público e gerador de negócios. Mais do que isso: é uma das únicas mídias a tratar a prestação de serviço público como um diferencial competitivo, e não como um estorvo. Tudo isso fica ainda mais evidente durante os momentos críticos vividos por uma sociedade – quando uma informação pode, literalmente, salvar milhares de vidas.

Para comprovar isso, nem será necessário recorrer aos conhecidos exemplos da chamada “era de ouro”. Mesmo em tempos de iMacs, iPhones e iPads, nada supera a força do rádio como fonte onipresente de informação nas horas mais importantes, mesmo nos países tecnologicamente mais desenvolvidos.

Em março de 2011, o Japão foi assolado por uma das maiores catástrofes naturais da sua história, deixando milhares de mortos, desaparecidos e refugiados, além de um acidente nuclear cujas consequências para o futuro ainda não podem ser medidas com exatidão. Naquele momento, todas as grandes corporações japonesas se mobilizaram para ajudar e a Sony – marca diretamente associada com a reconstrução do país após a II Guerra Mundial – também procurou fazer a sua parte, desenvolvendo um equipamento específico para ser doado aos atingidos pela tragédia. Enganaram-se aqueles que pensaram num novo modelo de smartphone ou de tablet: toda a alta tecnologia da Sony foi concentrada num… radinho! Além de sintonizar AM/FM, o Sony ICF-B02possui lanternas, apito e pode funcionar tanto com pilhas quanto pela força gerada manualmente através de uma manivela. Com o auxilio de um adaptador, a energia produzida com o radinho pode ser usada também para carregar um telefone celular.

Indispensável e insubstituível

O Chile, outro país assolado pela fúria da natureza, também tem uma história importante com o rádio. Após o grande terremoto ocorrido em 2010, o OmnicomMediagroup realizou uma pesquisa para verificar como se deu o consumo de mídia durante a tragédia. Quando perguntados sobre qual meio consideravam o mais confiável para se informarem numa situação fora do normal ou limite, 67,8% dos entrevistados responderam: rádio. Em tempo: o meio jornal ficou em 2º (13%), a TV em 3º (9,6%) e a internet em 4º (5,2%). Lembrando que o Chile possui um excelente sistema de televisão pública – conforme já abordado num artigo anterior–, quase 40% dos lares possuem TV paga e mais de 35% tem acesso à web – isso sem falar dos celulares 3G (segundo dados da Subsecretaria de Telecomunicações do governo chileno).

Voltando um pouco mais no tempo, pode-se também citar como exemplo o apagão ocorrido em 2009, que deixou quase meio Brasil sem luz. Para a maioria esmagadora dos cidadãos, que ficou sem poder ligar a TV ou não possuía notebooks nem telefones com conexão à internet, o rádio foi por onde descobriram as proporções do problema, ficaram sabendo das condições de trânsito e ainda foram informados das primeiras ações por parte do governo. Aqueles que puderam acessar as redes sociais – especialmente o Twitter – tiveram condições não apenas de repercutir os acontecimentos com seus amigos, mas também informar as emissoras de rádio sobre o que estava acontecendo na sua região. Segundo reportagem do Meio & Mensagem de 11 de novembro de 2009, a CBN “registrou um aumento de mensagens entre 200% e 300% em comparação com os dias normais”.

Interatividade, agilidade e mobilidade: as palavras de ordem da era digital, e que estão presentes desde o rádio de Galena, fazem a diferença nas horas em que a informação é mais necessária. Muito além das questões tecnológicas, a força do rádio nasce justamente dos diferenciais intrínsecos à sua linguagem e que fazem dela uma mídia ainda indispensável e insubstituível.

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[Fernando Morgado é professor convidado da ESPM-Rio, pesquisador e escritor]