Wednesday, 25 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

A imprensa de lado

Eugenio Bucci contesta hoje [26/12] no Estadão a ideia de que a imprensa atua como “partido de oposição”. Argumenta que essa ideia não causava preocupações enquanto parecia restrita a defensores irracionais dos projetos petistas, mas começa a tomar proporções preocupantes, agora que o próprio governo e lideranças do PT ecoam a mesma crítica.

“Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa”, diz Eugenio, expressando o credo básico do jornalismo liberal. “Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada”, julga ele.

“Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”, observa Eugenio. Para ele, a imprensa não se articula nos moldes de um partido porque não segue comando centralizado, não se submete à disciplina que os partidos impõem aos filiados e não renunciou à função informativa “para abraçar o proselitismo partidário”.

Bucci acredita que a crítica ao partidarismo da imprensa está assentada “em bases fictícias, completamente fictícias”. Mas ela cumpriria uma função política. “Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a ‘herança maldita’ de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa”.

Confesso que sinto um considerável desconforto quando vejo Eugenio se referir ao petismo com essa alteridade impossível para quem, como ele, foi militante do PT a vida toda e funcionário em elevado cargo de confiança no Governo Lula. Mas o que interessa são os argumentos do colega e amigo, e se discordo deles, cabe rebatê-los.

Imprensa retrógrada

Primeiramente, observo que a imprensa não é criticada por converter-se formalmente em partido político, algo que, mesmo querendo, lhe seria impossível. A imprensa é criticada por agir partidariamente, por ter como único foco de crítica o PT e sua aliança governista federal, e por pautar o discurso e as ações dos partidos de oposição contra o governo petista. Desde Lula e agora sob Dilma.

Estão de tal forma sincronizados o noticiário da imprensa e as iniciativas do conglomerado PSDB-DEM-PPS, ambos alimentando-se mutuamente, que é dispensável qualquer organicidade partidária da mídia. Na verdade, mídia e oposição são faces inextrincáveis da mesma moeda, não existem mais separadamente. Fazem as mesmas críticas e defendem o mesmo receituário para os problemas do país, a ponto de certos parlamentares converterem-se em meros ventríloquos de conceitos exarados em editoriais e colunas de opinião. Ou vice-versa.

Mas é no plano estadual e municipal que se observa melhor como o empenho fiscalizador da imprensa aplica-se tão somente a gestões do PT. Erundina, Marta, Benedita, Olívio, Tarso, Jacques Wagner, qualquer governante petista sempre enfrenta o máximo rigor no julgamento de suas ações. Agora mesmo, Haddad está sob intenso fogo de barragem.

Já para os governos tucanos ou assemelhados, o que a imprensa oferece é pouca cobrança e muita condescendência. Haja vista tão somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, mas que está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais”. Aliás, está longe de ser minimamente noticiada.

É nítido e insofismável que a imprensa opera com dois pesos e duas medidas. Que demoniza governos populares, mas não governos conservadores. Que carrega nas tintas e dramatiza qualquer irregularidade que envolva petistas, mas diminui, relativiza ou esconde os “malfeitos” de opositores dos petistas. Que não perde a menor oportunidade de jogar no colo do PT problemas que não foram criados por ele, como ocorre nesse instante, na cobertura da Máfia dos Fiscais paulistanos.

Portanto, são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa. Não se trata da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia.

O Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes. Mas o país não consertará seus problemas nem avançará com o auxílio dessa imprensa parcial, manipuladora e retrógrada, que sabe ser muito combativa quando lhe interessa e frequentemente omissa quando interessa a toda a sociedade.

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Gabriel Priolli é jornalista, diretor de televisão e educador