Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Delenda Diogo? Não! Clemência!

Se a tese de Diogo Mainardi estiver correta, ele está a serviço de quem? É difícil a vida de um intelectual independente no Brasil. O método de condenação é o mais fácil em sua simplicidade, pois poucos conhecem o que no Ocidente é entendido por obra. Ao contrário, diz-se todos os dias que na obra tal, o escritor tal diz tal coisa. Obra? São muitos os sentidos de obra. Diz-se, por exemplo, na linguagem coloquial das mães quando os rebentos são vítimas de tenesmo, que ‘o bebê não obrou hoje’.


Discordando de muitos escritores, aprecio muito os romances de Diogo Mainardi e, por motivos diferentes, suas colunas. Escrevi neste Observatório:




‘O escritor irlandês Jonathan Swift, nascido em 1667 e falecido em 1745, propôs que fossem feitas salsichas de carne de crianças para matar a fome dos adultos, em violenta sátira à sociedade inglesa. Diogo Mainardi segue este padrão sarcástico em suas colunas semanais na Veja.


Nenhum escritor parece conseguir alguma coisa com a sua ferramenta de trabalho, a palavra, nos livros ou na imprensa. Consola-nos, entretanto, a certeza de que nenhum juízo de nossos contemporâneos nos absolve ou condena, pois a literatura consolida-se ou não na posteridade, com prazos mais longos. De todo modo, louve-se o leque de ofertas de pontos de vista, ensejados pela imprensa.


Por mais que um livro seja muito lido, nenhum deles alcançará o público de coluna de jornal, revista ou portal da internet. Mas uma conclusão se impõe: por mais que capriche, nenhum escritor tem semanalmente a calma de que desfruta para escrever seu romance. Nas colunas, o tormento da pressa revela-o em carne viva. Neste ponto, vale a sinceridade, a conversa clara’.


E em outro trecho do mesmo artigo:




‘O que talvez Veja poderia fazer seria alternar o ponto de vista de Diogo Mainardi com outros, de mirante diverso, como fez esta semana, em saudável iniciativa. Com efeito, o pessimismo esclarece, mas quando é assim insistente, pode provocar uma depressão quase insuportável pela repetição. Além do mais, que outros escritores deixem os livros e venham ao proscênio da imprensa escrever, falar e mostrar outros pontos de vista. Os leitores ganharão muito com isso.’ (‘O caso Diogo Mainardi‘, Observatório da Imprensa nº 274, de 27/4/ 2004)


Condenação civil


Eu não poderia escrever na Veja o que acho de Diogo Mainardi e de seus livros. Ali, autores brasileiros, por mais importantes, por mais plurais e reconhecidos que sejam seus méritos, não têm vez. A Veja, há muitos anos, faz de conta que a literatura brasileira não existe! E eu, escritor e masoquista, assino a revista. Meu código de assinante é 633976063-001.


Não vou cancelar a assinatura por causa do artigo de Diogo Mainardi desta semana, ainda que tenha sido funda e doída a facada da frase, que abomino e da qual discordo essencialmente: ‘Alberto Dines é seguidor de Dirceu, e só se cerca de seguidores de Dirceu’. Talvez tenhamos de nos acostumar a calúnias, vindas de onde menos se espera, ainda que o Barão de Itararé tenha dito que ‘de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada’.


Mas há limites para certas regras da convivência intelectual. Para mim, Alberto Dines é exemplo de escritor, de jornalista, de homem ético, voltado para o interesse público. Quando me convidou para escrever aqui, não me impôs qualquer restrição. Reporto-me sempre a profissionais como Luiz Egypto de Cerqueira e Marinilda Carvalho, a quem não conheço pessoalmente, o que considero uma pena, pois eu muito os admiro. Sei que certamente já editaram artigos de minha autoria, dos quais discordaram, como é óbvio.


Diogo Mainardi recuperou prática detestável, que deixou cicatrizes muito cascudas em seus irmãos mais velhos, como eu, que arrostei a condenação a dois anos de prisão em meu conto de estréia, denunciado num pequeno jornal do interior de alguma cidade do Brasil meridional de cujo nome não quero lembrar. Não quero lembrar, mas não pode ser esquecido, porque mais de vinte anos depois, minha filha, formada em Direito no Largo São Francisco, percorreu os tribunais e fez cópia de tudo. Ali encontrei uma verdade atroz: liberado pelos militares que me prenderam, atendendo a denúncia de um comandante militar, fui condenado pelos civis, que queriam ser mais realistas do que o rei e mostrar serviço.


Iguais mais iguais


De onde Diogo Mainardi tirou que os profissionais citados (eu entrei na quota dos anônimos, mas não deixei de ser incluído, afinal sou escritor e sei que nos expressamos também por elipses) são seguidores de José Dirceu?


Eu não agüento mais a Veja. Ela precisa urgentemente de mudanças. É uma revista importante, a maior do país. Defensor do Estado de Direito, quero colaborar, com minha modesta ferramenta de trabalho, a palavra, como escritor e professor, na construção de uma sociedade plural, democrática, com uma imprensa forte, nossa grande defesa nesses tempos em que, se formos julgados num concurso literário, os juízes serão qualificados profissionais de Letras; se defendermos uma tese, a qualificação mínima para a banca é o título de doutor; mas se brigarmos nos tribunais correremos o risco de, já no fim da vida, sermos julgados no STF, na melhor das hipóteses, por um grupo de onze, dos quais apenas dois foram juízes antes de ali chegarem!


Ou fortalecemos a imprensa ou os três poderes, daí, sim, unidos, a submeterão! Como, aliás, já está acontecendo com alguns órgãos, mas este artigo está ficando muito comprido. Desconfio de que, não fosse a imprensa, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário já teriam acertado suas divergências. O que os três temeram foi apenas a força da opinião pública, bem diferente, mas mais eficaz, por usar outras armas, da opinião da Força Pública.


Lamentemos e sigamos adiante. Mas condenar Diogo Mainardi, não! Quem quiser, pode processá-lo, é claro. Neste caso, não terá a sorte de José Dirceu, de ser atendido com tanta presteza. O STF somente agiu rápido porque em nosso país, hoje, banqueiros e políticos parecem castas que têm mais direitos do que o restante dos cidadãos. Foi rapidinho que os juros prescritos pela Constituição de 1988, já no patamar elevado de 12% ao ano, vieram legalmente para mais de 12% ao mês, sem que nenhum promotor tenha, ao menos por algumas horas, fechado uma das milhares das agências bancárias que o praticam!

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro), onde dirige o Curso de Comunicação Social