Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Detalhes tão pequenos

Há quem diga que o carnaval e o futebol fazem a melhor síntese do Brasil. Pode-se acrescentar, com os mesmos argumentos, que o quadro fica mais completo e equilibrado se incluirmos nessa moldura a religião. Porém, sempre é bom lembrar que não estamos observando diretamente a sociedade brasileira, mas sua expressão na mídia, o que se torna essencial porque, como sabemos, todo o conteúdo do ambiente comunicacional está se transformando progressivamente num simulacro da realidade.

Há, portanto, um carnaval real, que se passa na interação entre o estado de espírito que vai da alegria exagerada, pura sensação, a suas expressões corporais através da dança, dos saltos, dos rodopios, da disposição para o prazer. Há também o futebol real, que acontece na expectativa de cada partida, na tensão das jogadas extremas, na explosão do gol – evento feliz para uns, tristeza para outros. Da mesma forma, a religião possui uma realidade, que se resume na busca íntima de uma relação privilegiada com a divindade e se realiza socialmente nas comunidades de crentes.

Mas aqui falamos dessas realidades quando passam pelo filtro da mídia, pois é nesse processo que se constrói o simulacro de sociedade através do qual tentamos entender a sociedade em si. Nesse ambiente específico, que funciona como uma outra dimensão da vida, carnaval, futebol e religião sintetizam o gosto brasileiro pelas sensações extremadas, mas são meras alegorias do carnaval, do futebol e da religião reais.

A questão é: quando a mídia interpreta essas alegorias, devolve uma versão distorcida ao campo da realidade, num processo contínuo que, em algum momento, vai provocar rupturas. Na vida real, não no simulacro.

Há muitos exemplos na rotina da imprensa. Na quarta-feira (18/2), podemos apanhar uma reportagem de página inteira publicada pela Folha de S. Paulo para ilustrar esse fenômeno. O assunto é a manchete do jornal, que diz o seguinte: “Impunidade é regra em brigas de torcidas em SP”. O pano de fundo é a partida entre Sport Club Corinthians Paulista e São Paulo Futebol Clube, em torno da qual se discute a conveniência de promover jogos com uma só torcida no estádio.

Estimulando os valentões

O texto faz um apanhado das mortes produzidas em confrontos de torcidas organizadas, no território paulista, para demonstrar que a Justiça não alcança os brigões nem mesmo quando eles produzem vítimas fatais: apenas três torcedores, dos milhares que se envolveram em centenas de casos nos últimos dez anos, estão na cadeia. Todos os três são corintianos, acusados de participar do assassinato de um torcedor do Palmeiras, ocorrido em agosto do ano passado, e estão em prisão preventiva aguardando julgamento.

O último caso grave que resultou em condenação ocorreu em 1995, e colocou um palmeirense na cadeia, em 1998, pela morte de um torcedor do São Paulo. Ele cumpriu pouco mais da metade de uma sentença de doze anos de prisão e foi colocado em liberdade.

A reportagem parece movida pela ótima intenção de alertar as autoridades e dirigentes esportivos para o risco da partida marcada para a noite de quarta-feira, quando Corinthians e São Paulo se defrontam pela primeira vez em um jogo da Copa Libertadores da América. O jogo abre a fase de grupos, e apenas um dos dois times prosseguirá na competição.

Estão dados, portanto, os requisitos para uma disputa acirrada dentro de campo, mas é fora dele que se desenrola o outro enredo, do qual trata o jornal paulista.

O ponto central da reportagem questiona: os organizadores deveriam permitir apenas torcedores do Corinthians, mandante da partida, no estádio? Como a imprensa considera que todo assunto tem apenas dois lados, há um artigo a favor, outro artigo contra a proposta.

Mas a realidade tem outros elementos. A começar da verdadeira dimensão da violência entre torcedores: em dez anos, brigas envolvendo torcidas organizadas no estado de São Paulo provocaram “ao menos onze mortes”, diz o jornal. Ou seja, a letalidade desses conflitos é relativa, comparada a outras causas. Por exemplo, morrem mais pessoas em quatro dias de carnaval do que em um ano com duas partidas de futebol por semana. No entanto, o assunto ganha muita repercussão na mídia e tem valido proveitosas carreiras políticas a autoridades que defendem medidas restritivas à liberdade de expressão e associação.

Há recursos tecnológicos e legais para identificar e controlar os indivíduos propensos à violência, sem estragar o espetáculo do futebol. Outra questão subjacente nasce da própria manchete: ao anunciar que ninguém é punido por causa de brigas entre torcedores, a Folha não estaria estimulando os valentões?

Como se vê, detalhes tão pequenos mostram que a imprensa já não dá conta de retratar a sociedade.