Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Blasfêmia é conceito vago que radicais usam politicamente

Estudiosos e analistas muçulmanos afirmam que atos violentos não têm justificativa na teologia islâmica. Ao contrário, refletem sociedades corrompidas pela luta pelo poder e por ideologias que rivalizam entre si. “A punição por blasfêmia – e a própria definição de blasfêmia – não está no Alcorão”, diz Nina Shea, diretora do Centro pela Liberdade Religiosa do Hudson Institute, em Washington. “Trata-se de um conceito muito vago e manipulado por quem quer incitar esses grupos de fanáticos e exercer o poder numa sociedade.” Ela cita como exemplo recente de incidente explorado por motivos políticos os protestos instigados pelo Taleban no Afeganistão e no Paquistão contra o pastor Terry Jones, da Flórida, que queimou o Alcorão.

O vídeo amador de 14 minutos divulgado no YouTube, estopim das últimas revoltas, mostra Maomé como um mulherengo e pedófilo que elabora às pressas sua religião para satisfazer os próprios caprichos e incita seus seguidores a aderir à violência desenfreada. O vídeo foi extraído de um longa-metragem que teria custado US$ 5 milhões. Seja lá quem estiver por trás do filme, ele foi feito para provocar. “Infelizmente, alguns idiotas do nosso lado engoliram a história”, diz Arsalan Iftikhar, analista muçulmano.

Uma afirmação do Alcorão, citada em artigo de 2011 da Review of Religions diz: “Não permitas que os inimigos de um povo o incitem a agir senão segundo a justiça. Sejas sempre justo e estarás mais próximo da retidão”. Em alguns casos, os hadiths (ditados ou ações atribuídos a Maomé) foram usados para justificar o assassinato como punição pela blasfêmia. Um desses hadiths afirma que o profeta disse: “Mate a pessoa que calunia o profeta e açoite aquela que calunia seus companheiros”.

Liberdade negada

No Islã, a principal autoridade é o Alcorão, que, acreditam os muçulmanos, o profeta Maomé recebeu de Alá. Mas os hadiths também são fundamentais na jurisprudência islâmica.

Traduções e interpretação de ambas as fontes podem variar. Os muçulmanos destacam que o livro do Levítico, na Bíblia, afirma que a pessoa que blasfema deve ser condenada à morte. No entanto, alguns contestam as leis sobre a blasfêmia. Para Nina Shea, tentar proteger a religião de todas as ofensas equivale a negar a liberdade de expressão. “Isso só alimenta o sentimento de revolta.”

***

[Christa C. Bryant, do Christian Science Monitor]