Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

O papiro “Da Vinci”

A Reuters (18/9) publicou a descoberta de um pequeno pedaço de um velho papiro escrito em copta antigo (a língua nativa do Egito) que diz que o messias cristão teve uma esposa. O Último Segundo (19/08) também publicou a notícia. O melhor da matéria foi um link direto para o artigo de Karen King, a especialista contratada para interpretar e avaliar o papiro recém revelado ao mundo. Muitos outros jornais, sites e revistas publicaram a descoberta. A notícia espalhou-se como incêndio na imprensa. A existência do fragmento do documento original foi revelada no Décimo Congresso Internacional de Estudos Coptas com muito cuidado. Nada prova, até o momento, sua autenticidade.

Os coptas contemporâneos do Egito, por sua vez, estão na imprensa como suspeitos de participação no filme que ofendeu bastante todo o mundo islâmico. São minoria no Egito (cerca de 10%) e durante muito tempo foram considerados hereges por Roma por negarem a essência dupla de Jesus, humana e divina. Para os cristãos coptas, Cristo era apenas espírito. Sua vida carnal teria sido absorvida por sua missão sagrada e não teria relevância, segundo os coptas ortodoxos, que não estão alinhados com Roma e estão afastados de sua influência desde o Concílio de Calcedônia, em 451. Existe, entretanto, desde o século 18, uma pequena comunidade copta católica no Egito que aceita o papa de Roma como seu líder.

A reportagem do site brasileiro apoia-se no trabalho da Reuters. O site do Último Segundo informou que muitos testes precisam ser feitos, principalmente sobre a qualidade e as condições da tinta, principalmente sua composição. O pedaço de documento foi descoberto no Egito ou Síria, pertence a um colecionador privado que contratou a professora Karen King, da Escola de Divindade de Harvard, “para ajudar a traduzir e analisar o material”.

“Mulheres-irmãs”

A professora foi bastante cuidadosa, mas seu discurso revela claramente o que ela realmente pensa. Ao mesmo tempo em que em nenhum momento ela garante a autenticidade do achado, ela afirmou que só por volta do século terceiro começaram a aparecer as afirmações sobre Jesus solteiro, através do teólogo Clemente de Alexandria. Ela declarou que o fragmento indica que muitos cristãos da época acreditavam que Jesus era casado, mas o cristianismo preservou apenas as versões que acreditavam no celibato do messias cristão. A nova descoberta, segundo ela, seria a prova do contrário: muitos crentes na antiguidade acreditavam que Jesus fosse casado. Karen King anunciou para janeiro de 2013 a publicação de sua análise completa pela Harvard Theological Review.

A notícia teve grande impacto no mundo islâmico. O site onislam (19/09), do grupo Mada Media (do Egito), publicou a pergunta de um cidadão chamado “Jack”, que quis saber se “o profeta Jesus era casado”. Os muçulmanos do onlislam confessaram sua escassez de documentação sobre o assunto. Recorreram aos escritos cristãos (que eles interpretam de acordo com sua crença). De uma forma geral, eles enxergam o messias cristão como um profeta cuja missão foi reformar os costumes materialistas de toda uma geração de povos do Oriente Médio, influenciados pela cultura greco-romana. Sua posição desapegada da matéria, segundo o site islâmico, é mais compatível com uma vida de solteiro, acreditam os egípcios do onislam.

O Times of Israel (19/09) apresentou uma matéria bem feita e precisa. Com a colaboração da Associated Press, o periódico publicou a melhor reportagem sobre a revelação da descoberta do papiro.Apresentou os argumentos deBen Witherington III, professor do Seminário Teológico de Ashbury, Kentucky, que informou que o texto “segue os padrões dos textos gnósticos dos segundo, terceiro e quarto séculos, que adotam um ‘tom intimista para falar sobre relações espirituais’.” O acadêmico também informou que textos gnósticos nos tempos do surgimento do cristianismo informam que homens religiosos, nos primórdios do cristianismo, costumavam levar com eles “mulheres-irmãs” em suas peregrinações.

Sinônimo de desunião

Eram elas que cuidavam das vidas práticas dos místicos da época: lavavam suas roupas, cozinhavam para eles, recebiam seus recados, enviavam correspondências e faziam o que lhe era ordenado. Menos sexo. A argumentação desarma a armadilha do sensacionalismo que cerca a descoberta do papiro. Jesus poderia ter tido uma mulher para acompanhá-lo e cuidar de suas necessidades em suas peregrinações pela Judéia. É muito provável que, em algum momento de sua vida, ele tenha tido uma. A menção a mulher-irmã não é privilégio dos evangelhos gnósticos. A versão tradicional dos escritos cristãos também apresenta a figura da mulher companheira platônica e serviçal (1ª Epístola aos Coríntios, 9, v.5).

Toda essa fixação no estado civil de Jesus pela mídia e certas editoras está simplesmente a ecoar a argumentação do livro O Código da Vinci (ed. Sextante, 2004), de Dan Brown, que diz que Jesus teve filhos com Maria Madalena. Brown já afirmou que não escreveu o livro para provar nada ao mundo acadêmico ou religioso, que produziu apenas uma obra de ficção. Mas reconheceu que acabou com um sucesso enorme nas mãos. E muito dinheiro no bolso. Seu livro beneficiou imensamente o museu do Louvre, que até hoje recebe excursões de americanos, ingleses e outros estrangeiros que querem contemplar a obra do grande Leonardo e tentar decifrar os mistérios da Igreja Católica.

A maior virtude de Brown com seu famoso livro foi conseguir atrair a atenção do público para o tema da religião (ainda que de forma fantasiosa) num mundo que parece não querer mais saber dela. Em 2010, o Economist (15/10) promoveu um debate, na forma de uma moção, que afirmava o seguinte: “Esta casa acredita que a religião é uma força para o bem.” A proposição foi fragorosamente derrotada pelos leitores. Apenas 25% dos votantes concordaram com ela. O resultado do debate do Economist parece refletir bem a ideia que muitos fazem hoje em dia da religião como algo maléfico. Não é algo que cause espanto ou espécie. A população do mundo ocidental, cansada de tantas guerras, mortes e massacres perpetrados em nome da fé religiosa, reconhece na prática da religião organizada um mal no mundo contemporâneo. Não é difícil entender a atual rejeição da sociedade às religiões tradicionais. Religião, no mundo em que vivemos, virou sinônimo de desunião, assassinato, morte, condenação e ódio.

“Preparada para ser discípula”

Subitamente, na sociedade moderna, é visível a recusa implícita e explícita não só da religião, mas da figura de um messias que é apresentado pela Igreja como “solteiro e virgem”, como o Chicago Tribune (20/9) comentou. É uma imagem que não combina com o mundo moderno e com a sociedade contemporânea. Hoje as congregações cristãs parecem inclinadas a aceitar uma versão menos etérea e mais carnal do messias cristão. Por isso, a cada momento aparece um especialista, acadêmico ou não, decidido a provar que a vida de Jesus não foi assim tão diferente da de um homem comum de sua idade em sua época.

O Chicago Tribune por pouco não fez a melhor reportagem sobre a descoberta. Começou com muita prudência: a primeira coisa que o autor fez foi afirmar que tudo pode não passar de uma farsa. Patrick T. Reardon, escritor de assuntos urbanos do periódico, escreveu que a descoberta do papiro sobre a suposta esposa de Jesus é relevante porque leva a discussão para muito além do cristianismo. Estava certo: a questão envolve cristãos, judeus e muçulmanos, principalmente. Mas é uma questão que toca a cada sociedade onde existe o tabu da sexualidade e a subordinação da mulher. A notícia teve destaque nas mídias dos árabes muçulmanos e nas judaicas também.

Mas o autor, além de especialista em assuntos urbanos, também é membro de uma pastoral da arquidiocese de Chicago. Não é só um católico praticante. É mais do que isso. Em seu texto, cheio de eloquência, fica claro o seu apoio a reformas liberalizantes dentro da Igreja Católica. E ela bem que precisa de uma boa reformulação. Mas é precipitado ler no pedaço de documento menção a mulheres no sacerdócio. Tudo o que está escrito (além de “minha esposa”) é que “ela deverá estar preparada para ser sua discípula”.

Ordenação de mulheres

De qualquer forma, também nas escrituras sagradas dos cristãos fica claro que o papel da mulher na Igreja Católica já foi bem mais amplo e significativo que nos dias de hoje. O autor interpretou o pedaço de papiro segundo seus desejos. Não há provas sobre a validade do achado, nem evidências de uma mulher, no sentido carnal, na vida do messias cristão. Mas também ninguém pode provar que não houve uma mulher na vida de Jesus. Na verdade, isso não importa. Este é o ponto forte da argumentação de Reardon: para os crentes, os ensinamentos e a mensagem do Jesus não mudam se ele foi casado ou solteiro. Seu estado civil e sua vida privada não importam. Seus ensinamentos e a prática deles por seus seguidores é o que conta.

O Chicago Tribune apresentou uma matéria de opinião, sobre a descoberta do “Evangelho da esposa de Jesus” (observem como a mídia já aumentou a coisa: temos apenas um pedaço de papiro, “não maior que um cartão de visitas”, segundo a Reuters, que ninguém sabe se é verdadeiro ou falso, onde aparecem as palavras “esposa” e “discípulo”. Mas já virou evangelho, antes mesmo de ser testado em sua credibilidade histórica…). O autor pode ser um católico progressista do tipo que anda em falta hoje em dia na Igreja Católica. Mas como jornalista, deixou-se levar por suas crenças pessoais e acabou por apresentar ao leitor um sonho que eu acredito que dificilmente vai ser realizado: o ordenamento das mulheres como sacerdotes da igreja.

O jornal oficial do Vaticano L’Osservatoreo Romano não publicou nada diretamente relacionado ao controverso pedaço de papiro. Mas há um post intitulado “Da Igreja e das Mulheres” (1/9), onde freiras da Ordem de Santa Clara expressaram de forma inequívoca seu descontentamento com a subordinação da mulher dentro do clero católico: “Os homens na Igreja não compreendem o que as mulheres podem ‘oferecer’, creem que elas só podem ‘receber’, disse uma freira veterana.” As suas palavras denotam uma decepção inequívoca. “Os homens não entenderam que as religiosas não se limitam a rezar, mas pensam”, afirmou a religiosa. “Sentir a igualdade com um sacerdote é muito raro. Eles vêm à nossa casa celebrar a missa e vão-se logo.”

Muitos católicos (praticantes ou não) querem mudanças profundas na Igreja, entre elas a aceitação de mulheres como sacerdotes. Mas, cá entre nós, acredito que a possibilidade da ordenação das mulheres é algo que o Vaticano repele com horror. A hierarquia católica prefere aceitar tudo, reformar o que for preciso, a aceitar uma mulher como sacerdote. Uma sacerdotisa católica poderia abrir o caminho para um papa do sexo feminino. E isso é algo que eu acredito que não vá ocorrer tão cedo. Se é que um dia vai acontecer.

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[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]