Monday, 29 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1285

Jornalista torce?

Nesse clima da Copa do Mundo, é oportuno comentar aqui a pergunta de Juca Kfouri no artigo ‘O Brasil não vai à guerra’ [texto publicado originalmente no Jornal da ANJ, em abril de 1998, e republicado em: DOUBOR, L. et al. Desafios da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2000]: ‘O jornalista torce?’. O professor e profissional propõe o seguinte problema:

É sexta-feira, véspera de decisão da Copa do Mundo. No domingo, o Brasil e a Alemanha estarão em campo e você descobre que o juiz apitará a grande final está comprado para ajudar a seleção brasileira. O que você faz?

a) Publica o furo no sábado, o que dará tempo para que se mude o juiz.

b) Espera o jogo para confirmar a má atuação do juiz, só aí publica.

c) Não publica nada, nem antes nem depois.

Pergunta instigante, segundo Kfouri, tendo a esmagadora maioria resposta ‘b’ ou ‘c’ em suas palestras para estudantes. Na opinião dele, porém, ‘é óbvio que a sua (do jornalista) obrigação é contar tudo, mesmo que não seja agradável e não ajude a Seleção Brasileira’. A justificativa é de que não se trata de um segredo de guerra, não revelados em nome da pátria. Para Kfouri, o jornalista que optasse pela opção ‘a’ poderia ser considerado um traidor da pátria, assim como já acontece com aqueles que ousam criticar a seleção com mais veemência. Aliás, isso só é permitido em programas e sites de humor, críticas fundamentadas e contundentes há poucas.

‘Não cabe ao jornalista ser simpático, senão verdadeiro’, sentencia Kfouri, e emenda que ‘será importante, sempre, ressaltar que o pênalti não marcado para o Brasil deverá ter a mesma importância do que não é marcado contra o Brasil’.

Próxima Copa

Difícil seguir à risca esses conselhos, quando se vê uma cobertura apaixonada da Copa do Mundo. Para Jean Chalaby [CHALABY, J. K. The invention of journalism. New York: Palgrave, 1998.], o bairrismo nada mais é que uma estratégia discursiva utilizada pelos jornalistas desde o início do século passado, além de uma forma de marcar a concorrência entre jornais. Porém, ele utiliza exemplos de guerra, com a associação, por jornais, a valores como coragem, honra e orgulho, palavras recorrentes na cobertura futebolística atual. O bairrismo é uma oportunidade, segundo o autor, de promover o consenso sem incorrer no que ele chama de riscos comerciais, isto é, o bairrismo, o nacionalismo, resultam em lucratividade certa. Enfim, um jornalismo de consenso, uma ‘pseudo opinião’.

Mas, se o futebol é uma ‘paixão nacional’, como evitar uma cobertura apaixonada do campeonato mundial? Não estamos tratando de explicar uma decisão da equipe econômica, ou uma análise de conjuntura política. Em minha opinião, a cobertura apaixonada, colorida, vibrante, principalmente na televisão, é necessária, porém, concordo com Kfouri em que ‘a emoção cabe sim, na justa medida em que aconteça, que reflita o clima de uma Copa’.

Aliás, ganhar ou perder uma Copa do Mundo é somente ganhar ou perder uma Copa do Mundo. O Brasil não vai ser melhor ou pior sendo penta ou hexa no futebol, e comparações esdrúxulas, como fez a revista Veja sobre as trajetórias de Pelé e Nelson Mandela (‘Vidas paralelas’, edição de 2/6/2010) soam como um serviço à desinformação.

Interessantes, para os apaixonados por futebol ou não, são as muitas matérias sobre os arredores e bastidores da Copa, muitas vezes trabalho de jornalistas de outras editorias, que não a de Esportes. Assim o mundo vai conhecendo um pouco mais sobre a África do Sul e o continente africano, pela primeira vez sede de uma Copa do Mundo, sobre suas alegrias e mazelas. E em 2014 será a nossa vez, como sede, de mostrar mais do que somente o futebol, para o bem e para o mal.

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Mestranda em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina