Wednesday, 25 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

O futuro da imprensa está no jornalismo local

(Foto: Wild0ne/ Pixabay)

Alguns de vocês podem achar que estou exagerando. Outros, que o título reflete interesses pessoais não identificados. Mas quem for até o fim deste texto verá que a nova conjuntura da comunicação mundial transformou o jornalismo local na melhor alternativa para atender às necessidades informativas da sociedade digital. 

Já não há mais dúvidas de que o modelo tradicional de produzir notícias a partir de grandes empresas está em crise, da qual apenas poucas delas sobreviverão. Também está cada vez mais evidente que a disseminação de fake news e da desinformação abalou drasticamente a credibilidade das pessoas nas notícias publicadas na imprensa. Além disso, as redes sociais na internet acabaram com o monopólio da imprensa na produção e disseminação de notícias. 

Estas três manifestações mostram uma clara desestruturação da imprensa convencional e a inevitabilidade de uma reinvenção do jornalismo para atender o crescimento inédito na demanda de informações em todos os níveis da sociedade contemporânea. Está reinvenção do jornalismo é impulsionada por três grandes necessidades:

  • a) As pessoas precisam de informação para sobreviver e prosperar na era do conhecimento. Logo, a notícia precisa deixar de ser uma mercadoria na troca de atenção do público por publicidade paga, para se transformar num ingrediente insubstituível na produção de conhecimento individual e coletivo;
  • b) Os jornalistas já não têm mais o dom de saber o que as pessoas desejam ou precisam porque o mundo que nos cerca ficou muito complexo. Isto leva à necessidade de estabelecer uma nova relação entre profissionais e o público. Uma relação baseada numa parceria ao invés da dependência. 
  • c) O modelo de negócios baseado na oferta de notícias como isca para atrair atenção das pessoas e de anunciantes já não é mais lucrativo. Há um dramático esforço para achar um novo sistema, mas o pouco que se sabe até agora é que não haverá um único modelo e que tudo vai depender da inserção do projeto jornalístico na realidade local.

As três exigências têm em comum o fato de estarem vinculadas a situações bem especificas. Não se trata mais do velho expediente de oferecer um mesmo produto noticioso para muitos consumidores, mas da necessidade de adequar múltiplas ofertas informativas a uma gama diversificada de indivíduos.  Traduzindo em miúdos, significa produzir jornais com notícias que levem em conta as características do local para atender à necessidade de públicos específicos.

O jornalismo local é a modalidade de jornalismo que melhor consegue conjugar os esforços para tentar resolver tanto a busca de uma nova função da notícia, como a necessidade da parceria entre repórteres e o público, bem como da pesquisa de modalidades próprias de sustentação financeira.  Vejamos porquê:

Notícia e conhecimento

Pesquisas feitas nos Estados Unidos e a experiência prática de jornalistas brasileiros têm mostrado que nas pequenas e médias cidades as pessoas procuram notícias sobretudo para resolver problemas concretos e não apenas pelo prazer de consumir ou de bisbilhotar a vida alheia [1].  Notícias locais para saber onde se vacinar, mudanças no trânsito urbano, datas e locais de pagamentos, horários de ônibus e de atendimento em órgãos públicos, só para citar alguns. 

É uma informação de caráter utilitário que será usada para tomar decisões, expressar insatisfação ou propor soluções, ao contrário de notícias sobre assassinatos, roubos, corrupção e escândalos, a matéria prima de rumores, boatos e desinformação. É uma nova forma de encarar a notícia voltada para a utilidade prática que ela terá para o cotidiano do ouvinte ou leitor. 

Pode parecer pouca coisa, mas muda muito a rotina diária de repórteres, editores e fotógrafos que terão que ficar muito mais atentos ao que se passa nas ruas e bairros do que nas assessorias de imprensa da prefeitura, empresas e associações profissionais. O trabalho jornalístico será feito muito mais nas ruas do que nos escritórios e gabinetes. 

O grande parâmetro para definir a validade ou não de uma notícia passa a ser a sua função na comunidade, em vez da sua capacidade de atrair anúncios pagos.

Parceria jornalista / público

Para que a notícia possa cumprir com sua função no processo de produção de conhecimento pelos membros de uma comunidade local, é indispensável haver uma integração entre profissionais e o público, conforme mostram várias pesquisas acadêmicas realizadas nos Estados Unidos e Europa [2]. É o que ficou conhecido como engajamento social do jornalismo.

Para poder atender à diversidade de problemas e desejos dos habitantes de cidades, mesmo pequenas, o jornalista precisa ter dados e isto ele só consegue através do contato direto com o público. Nesta relação, a confiança é essencial para os dois lados. As pessoas precisam confiar na capacidade e empenho do profissional em formatar um dado, fato ou evento para atrair a atenção dos demais membros da comunidade. O jornalista, por seu lado, precisa confiar nos seus interlocutores para não divulgar fake news ou boatos.

Minha experiência num projeto de jornalismo local numa cidade de 40 mil habitantes mostra que a parceria com o público leva algum tempo para acontecer, porque a iniciativa de conquistar credibilidade tem que partir primeiro do jornalista. Mas uma vez estabelecida, ela consegue superar eventuais mal-entendidos e principalmente serve de base para a sustentabilidade financeira.

O desafio das finanças

Todo projeto de jornalismo local tem dois momentos cruciais: o seu lançamento e a hora em que o dinheiro acaba. Começar hoje um jornal online comunitário exige muito menos recursos do que na era analógica, quando tudo tinha que ser impresso e distribuído. A maioria dos novos projetos começam com mais boa vontade e entusiasmo do que com dinheiro. Quase todos acham que o problema financeiro será resolvido com o sucesso do projeto [3]. 

Mas chega um momento, em geral depois dos primeiros 200 dias de existência, em que, apesar do sucesso do projeto junto ao público, os que produzem o jornal ou programa de rádio, com salários simbólicos ou sem salários, já não conseguem mais pagar suas contas pessoais. É a fase dos abandonos ou das divergências, e aí a coisa pega.

Na minha avaliação e na de muitos outros que embarcaram na aventura de projetos jornalísticos locais pela internet, a questão financeira tem que ser pensada desde a primeira reunião para planejar o que será produzido. É uma decisão muito difícil porque envolve explorar um espaço desconhecido e enfrentar duas atitudes opostas. Enquanto os preparativos são movidos por otimismo, a busca da sustentabilidade financeira alimenta o pessimismo. 

Qualquer projeto terá que encontrar o seu próprio modelo de sustentabilidade já que cada localidade tem características próprias que influem decisivamente no tipo de ação a ser escolhida para captar assinaturas, doações, escambos e financiamentos. Várias empresas norte-americanas já fracassaram na tentativa de aplicar uma mesma fórmula para cidades diferentes. O que funciona para uma comunidade dificilmente poderá ser transplantado para outras.  

A combinação dos três fatores mencionados acima (notícia, engajamento e sustentabilidade) permite que o jornalismo local alimente a agenda de discussões entre moradores de pequenas ou grandes cidades. A profissão é insubstituível nesta função, em especial na era digital quando a informação passou a comandar nossas vidas. Isto transformou repórteres, editores, influenciadores e programadores em personagens obrigatórios em qualquer comunidade social.

___

[1] Sobre a definição de uma nova função da notícia, sugiro o seguinte link para quem desejar mais dados:  Notícias digitais como formas de conhecimento: um novo capítulo na Sociologia do Conhecimento

[2] Para mais detalhes sobre a questão do engajamento jornalismo/público,  sugerimos os seguintes links: To do deep community engagement, you can’t just buy a tool; The Continuum of Engagement; Thinking beyond the buzzword e Conceptualizing the Active Audience: Rhetoric and Practice in “Engaged Journalism”.

[3] Sobre sustentabilidade financeira em novos projetos jornalísticos online: To Protect and Extend Democracy, Recreate Local News Media; Public Investments for Global and Local News; Survival Tips for Nonprofit Newsrooms; The Commercial era for local journalism is over; What does it mean to be a “sustainable” news business? e What it takes to shift a news organization to reader revenue

***

Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.