
(Foto: Matheus Bertelli/Pexels)
“[…] qualquer político de importância precisava contar com a influência da imprensa e assim cultivava suas relações com o meio jornalístico”. Max Weber (sociólogo alemão)
A influência da imprensa sobre a opinião pública sempre despertou a atenção de alguns políticos poderosos, interessados em omitir ou salientar a verdade dos fatos conforme as suas conveniências. É realmente difícil imaginar prejuízo social comparável ao silêncio dos meios de comunicação diante dos descalabros do poder público. Uma das maiores redes de televisão do Brasil já foi acusada de omissão frente aos abusos cometidos pelo governo militar à época da ditadura (1964-1985). A referida rede de TV foi complacente diante do terror, não denunciou o regime antidemocrático, nem as perseguições políticas, nem as torturas. Em troca, favoreceu-se da mão generosa do Estado, tornou-se rica e poderosa obtendo sucessivas concessões de canais de televisão país afora. Oriunda de um Brasil miserável, alcançou a proeza de tornar-se a quarta maior rede de televisão do planeta, ao mesmo tempo em que uma parcela da imprensa crítica – que denunciava o regime autoritário – era censurada e perseguida.
A realidade de tais fatos não se restringe à grande imprensa nacional, tampouco se limita a uma determinada época na história do país. Referindo-se à imprensa americana, O´Sullivan pontuou que “o alarde frequente em torno da chamada imprensa democrática com base em critérios profissionais, objetivos e imparciais não resiste a um exame cuidadoso” (O´SULLIVAN, 2004, p.177). Com efeito, em qualquer tempo ou lugar a imprensa poderá render-se aos interesses infames de grupos poderosos. Basta para isso que se omita diante da corrupção, basta que informe haver austeridade em Prefeituras, Câmaras de Vereadores ou Assembleias Legislativas, entre outras esferas do poder público, cujos cofres são arrombados na calada da noite.
O político corrupto jamais dispensará o apoio da imprensa de sua região. Pelo contrário, buscará favorecê-la de todas as formas, cedendo benefícios, promovendo isenções fiscais etc. O retorno, quando ocorre, vem em forma de apoio político traduzido nas manchetes dos jornais. Com efeito, a palavra emitida nos canais de rádio, televisão e imprensa escrita, invariavelmente expressa o perfil dos homens públicos. Poderá destituí-los do poder ou alicerçá-los neste ainda mais. Dissertando sobre o assunto, Hobsbawn escreveu: “[…] tornou-se evidente que os meios de comunicação eram um componente mais importante do processo político que os partidos e sistemas eleitorais, e provavelmente assim continuariam” (HOBSBAWN, 1996, p.559).
O bom jornalista, todavia, não se rende às propostas imorais, nem se cala diante da corrupção. O jornalismo ético busca a verdade dos fatos, mesmo que isso acarrete a perda de benefícios e privilégios, o que não raramente acontece. Os ganhos oriundos do jornalismo complacente e omisso diante dos abusos do poder econômico e da ingerência na administração pública, poderão fazer da imprensa uma empresa lucrativa, mas nunca um canal de comunicação entre o cidadão comum e a realidade de seu tempo. O jornalismo tem uma função social a desempenhar – e por isso não deve ser visto como um negócio – devendo se posicionar a favor da democracia, educando seus leitores e ouvintes para serem cidadãos.
O mercado editorial apresenta duas excelentes obras sobre o assunto em discussão, são elas: Sobre ética e imprensa, de Eugênio Bucci, publicada pela Companhia das Letras, e também Ética no Jornalismo, de Rogério Christofolleti, Editora Contexto. Vale a pena ler.
Referências:
HERZ, Daniel. A história secreta da Rede Globo. São Paulo: Dom Quixote, 2010.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
O´SULLIVAN, Edmund. Aprendizagem transformadora: uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez, 2004.
WEBER, Max. A política como vocação. Brasília: UnB, 2003.
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Roberto Carlos Simões Galvão é professor de Sociologia em Joinville (SC). Graduado em Sociologia (UNICV). Graduado em Direito pela Universidade Norte do Paraná. Pós-Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá.
