Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Grande mídia se cala aos ataques à imprensa alternativa

(Foto: Eric Drooker)

Nos períodos mais obscuros da história da humanidade, os setores dominantes buscaram, a todo custo, calar qualquer tipo de voz minimamente dissonante.

Foi assim na Roma antiga, com a crucificação, empalação ou queima de poetas que porventura desagradassem o imperador; durante a Idade Média, com a censura de determinados livros; e na Alemanha nazista, onde periódicos foram fechados, além de jornalistas e editores serem detidos e seus equipamentos confiscados.

Guardadas as devidas peculiaridades espaço-temporais, podemos dizer que, atualmente, o Brasil passa por um momento similar aos casos citados acima. Não que isso seja novidade em nosso país. Durante o Estado Novo e na ditadura militar, houve forte censura estatal a opositores.

No entanto, neste início de século XXI, assim como os meios de comunicação estão muito mais avançados do que em outras épocas, os mecanismos de combate às vozes contrárias também se tornaram mais complexos: combinam novas e velhas estratégias de ação, que vão desde a censura estatal propriamente dita, por meio de órgãos jurídicos, até ataques virtuais, realizados, ao que tudo indica, por grupos de extrema direita.

Somente nos últimos dois meses, sites de importantes e combativos veículos da imprensa independente – como Diário Causa Operária, Ponte Jornalismo e A Nova Democracia – sofreram ciberataques; sendo que, no caso deste último site, também foram registrados cortes de dezenas de cabos de rede (o que veio a afetar o fornecimento de internet e telefonia).

“Os três casos têm em comum, além do fato de os alvos serem veículos de comunicação de esquerda, alguns aspectos que merecem ser analisados mais de perto. Percebe-se claramente que o objetivo imediato foi causar indisponibilidade, cessando assim a atividade militante dos jornais. Também houve a intenção de causar prejuízo econômico e dano permanente ao acervo dos jornais. Isso caracteriza a ação de forma clara e inequívoca como uma ação fascista”, concluiu uma matéria do Diário Causa Operária.

Como se já não bastassem os ataques cibernéticos aos portais progressistas citados anteriormente, na semana passada, a Justiça do Rio de Janeiro censurou o portal GGN, do renomado jornalista Luís Nassif.

O motivo para tal arbitrariedade está relacionado a uma série de reportagens publicadas pelo GGN que apresentavam denúncias de que o Banco BTG Pactual (fundado pelo Ministro da Economia Paulo Guedes) teria comprado uma carteira de créditos do Banco do Brasil, avaliada em R$2,9 bilhões, por apenas R$371 milhões.

De acordo com a justiça, os conteúdos divulgados pelo GGN poderiam abalar a imagem do BTG. Mas, para Patricia Faermann, jornalista que assina as matérias censuradas junto com Nassif, “o processo é um exemplo claro de pressão contra um jornal, que apesar de ‘pequeno’ – como é descrito pelo juiz no despacho – traz à luz pública esquemas de favorecimento, contratos milionários e com falta de transparência, que o banco, seguindo as mesmas regras do livre mercado pelas quais se beneficia, tem obrigação de prestar contas”.

Por outro lado, chama atenção o fato de, à exceção de algumas poucas postagens isoladas, não ter havido sequer uma matéria na grande mídia analisando a decisão judicial imposta ao GGN.

“O que mais apavora na questão da censura pelo BTG é o silêncio de jornalistas e veículos da mídia tradicional. É uma forma de dizer que pode censurar veículos que não são do clube deles”, apontou o jornalista Renato Rovai.

Desse modo, a mesma mídia hegemônica que, em editoriais e reportagens, têm criticado a liminar judicial que proíbe a TV Globo de exibir documentos sigilosos de investigações contra Flávio Bolsonaro, tem se calado diante das ofensivas contra a imprensa alternativa. Dois pesos, duas medidas.

“Acho hilário, para não dizer trágico, que a Rede Globo noticie que lá na Venezuela o jornalismo é censurado, mas não dá sequer uma nota de rodapé sobre a censura e a perseguição que o jornal GGN e o jornalista Luís Nassif sofreram aqui mesmo, no Brasil. Ditadura? Só se for no país alheio!”, ironizou o militante pelos direitos das minorias Pappi Xavi Moreno, em sua conta no Twitter.

Em outros termos, a liberdade de expressão que a grande mídia defende somente é a livre fala de seus pares, que possuem a mesma linha ideológica.

Aliás, assim como os exemplos do judiciário fluminense e dos hackers extremistas aqui analisados, a imprensa hegemônica brasileira também tem um histórico de buscar calar vozes dissonantes.

Nesse sentido, podemos citar os casos do Grupo Globo, ao fazer o possível e o impossível para que os brasileiros não tivessem conhecimento do documentário britânico “Muito Além do Cidadão Kane” (sobre as manipulações e conchavos da Rede Globo); e da Folha de S.Paulo, que entrou na justiça e conseguiu retirar do ar o blog “Falha de S. Paulo”, humorístico que se dedicava a satirizar a cobertura jornalística do periódico da família Frias.

No Brasil, a internet, único veículo de comunicação que permite a difusão da pluralidade de ideias presentes na sociedade, aos poucos vai perdendo sua função democrática; seja pela censura do poder público, seja pelas ações criminosas de grupos extremistas. Não bastou ter tirado a esquerda do poder, é preciso esmagar sua imprensa.

E assim, no país conhecido pela vergonhosa concentração de emissoras televisivas em propriedade de poucos grupos familiares, onde concessões radiofônicas são praticamente privilégios de políticos conservadores, questões como “liberdade de expressão” e “liberdade de informação”, infelizmente, não passam de meras retóricas.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Coordenador da área de Geografia da Vicenza Edições Acadêmicas. Professor da Escola Estadual Adelaide Bias Fortes e da Escola Estadual Detetive Marco Antonio de Souza. Autor do livro 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático (Editora CRV).