Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Roberto Carlos, da Jovem à Velha Guarda

(Foto: Divulgação/A Rebelião Romântica da Jovem Guarda)

Abro um WhatsApp do Pedro Varoni, editor do Observatório da Imprensa, me alertando sobre os 80 anos do cantor e compositor Roberto Carlos, na próxima semana, e me sugerindo um texto, já que publiquei o primeiro livro sobre o rei da Jovem Guarda, há 55 anos. Alguma coisa envolvendo experiência pessoal, situação política e comparações com a atualidade brasileira.

E lá fui eu à estante procurar onde estava o exemplar de A Rebelião Romântica da Jovem Guarda. Isso mesmo, só me restou mesmo um exemplar e ainda com a capa rasgada… que comecei a folhear, enquanto ia relembrando…

Estávamos no começo de 1966, o Brasil ia se acostumando com os dois anos de ditadura militar. Minha entrada no Estadão, como já chamávamos, ainda na época da rua Major Quedinho, no prédio do Hotel Jaraguá, era recente, alguns meses depois do Golpe de 64. Eu havia terminado Direito na USP e deixado um posto concursado melhor pago no Sesc, por pura paixão pelo jornalismo, mas continuava morando numa espécie de república de estudantes, na rua Taguá quase esquina com a São Joaquim, no primeiro andar do quartel do Exército da Salvação.

Aprendia o estilo conciso e objetivo do jornalismo com o chefe de reportagem Cleonte de Oliveira, redigindo anúncios de conferências, encontros ou resumindo comunicados e discursos. Não tinha sido fácil ter a chance de poder escrever naquelas máquinas pesadas, robustas, em cima do feltro verde nas mesas de ferro. Não me lembro de quais foram minhas primeiras reportagens e entrevistas, mas da primeira grande reportagem ocupando metade da página, na edição dominical de 8 de maio de 1966. Ainda um foca, como costumam ser chamados os iniciantes no jornalismo, ao “lamber minha cria” recém-publicada, outra expressão, não imaginava estar se acelerando ali um processo de rupturas na vida pessoal e profissional.

Qual era o tema da reportagem: comportamento, divertimento ou música? Esses três temas vinham juntos, porém o principal versava sobre política e tinha como referência o Golpe e a Ditadura. Entretanto, essas duas palavras estavam praticamente proibidas e ao escrever era preciso evitá-las com discrição, sabendo-se serem os leitores capazes de ler nas entrelinhas.

Para se entender a sequência é preciso se fazer um retorno ao ano de 1958, quando Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes compuseram Chega de Saudade, marcando o início da Bossa Nova, seguindo-se, em 1960, com João Gilberto, o famoso álbum de capa branca, O amor, o sorriso e a flor, composição de Jobim e Newton Mendonça. Era uma época de romantismo. Porém, não se pode esquecer ter sido composta em 1962 e ter circulado nos anos seguintes entre os estudantes a Canção do Subdesenvolvido, de Carlos Lyra e Chico de Assis.

O clima político esquentara e surgiam as primeiras canções de protesto. É também o caso da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, composta em 1963, um tipo de premonição da queda de João Goulart com o Golpe militar, no ano seguinte. A letra ainda é muito atual com a ascensão dos evangélicos contrários às músicas profanas — “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções/ninguém passa mais brincando feliz/e nos corações saudades e cinzas foi o que restou.”

O golpe em 64 paralisou as expressões musicais e, na falta de melhor, o rock brasileiro de Roberto Carlos com Erasmo Carlos e Wanderléa, apoiado por um programa dominical da TV Record e pela empresa de propaganda Magaldi, Maia e Prosperi, se transformou num fenômeno social, uma espécie de alienação coletiva. Surgiram o programa da Jovem Guarda em oposição à Velha Guarda, expressões como “É uma brasa, mora!” e a marca Calhambeque.

Uma composição, em especial, dominava com seu refrão as paradas de sucesso nas rádios — “quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno”. Era a reação ao vazio reinante, ao fim de muitas esperanças contidas nas Reformas de Base e à inércia da ditadura em termos de reformas sociais — mandar tudo para o inferno não dava cadeia porque não incomodava o regime militar. O cantor era um jovem de 22 anos, de rosto bonito, capaz de conquistar não só a garotada e a moçada como também as vovós, Roberto Carlos.

Foi nesse contexto minha proposta de uma reportagem com professores de sociologia e psicologia, catedráticos renomados, para interpretar o comportamento social que chamamos de uma rebelião romântica da Jovem Guarda. Eram eles Fernando Azevedo, Octavio Ianni, Ruy Coelho, Egon Schaden e Annita Castilho Cabral. As entrevistas foram resumidas e agrupadas, sendo publicadas sob o título “A juventude vive a rebelião romântica”.

Primeira interpretação do fenômeno social registrado principalmente na região urbana do país, a reportagem obteve repercussão e recebi uma proposta de meu colega Dácio de Arruda Campos, cujo pseudônimo era Matias Arrudão, editorialista do Estadão mas homem de esquerda. Dácio não era exceção, o Estadão possuía, de 1957 a 1974, um importante editorialista preferido pelo proprietário Júlio de Mesquita Filho, o português comunista Miguel Urbano Rodrigues, que retornou a Portugal depois da Revolução dos Cravos, para dirigir jornais e exercer cargos públicos.

Dácio me sugeria transformar o tema da reportagem num livro. Para tanto me levaria ao editor da Editora Fulgor, também homem de esquerda, de cujo nome infelizmente não me lembro. Feito o contato, recebi o prazo de um mês para escrever o livro. Foi um desafio. Partilhando meu quarto, na república de estudantes, com um amigo, Eliseu de Carvalho, empregado na Fotoptica, não podia bater ali à máquina durante a noite, ao voltar do jornal.

A solução era a de me fechar no refeitório comum, da meia-noite às duas da manhã, escrever à máquina na mesa onde eram servidas as refeições, e ficar torcendo para o barulho das teclas no papel não incomodarem quem dormia no primeiro andar e não acordar os oficiais do Exército da Salvação, morando no segundo andar. Fora isso, a iluminação era fraca, sendo preciso arrastar a mesa para ficar bem embaixo da lâmpada.

Mesmo assim, cumpri o prazo e o livro foi publicado em agosto de 1966 com o título A rebelião romântica da Jovem Guarda — e esgotou. Todo esforço tem sua recompensa, a reportagem e o livro sobre Roberto Carlos me permitiram conhecer e me tornar amigo do publicitário Carlito Maia, homem de esquerda, um dos fundadores do PT e criador, entre outros, do famoso slogan Lula Lá. Toda vez que uma reportagem me colocava por perto, ia me encontrar com Carlito e me atualizar.

Ao reler o livro nestes dias, percebi como se escrevia num país sob um regime de ditadura militar e num jornal de direita, que havia apoiado o Golpe. Escrevia-se nas entrelinhas com subentendidos. É surpreendente como nem eu e nem o sociólogo Fernando Azevedo, que se tornou um amigo, nomeamos diretamente a Ditadura militar como a causa principal do vazio criado, obrigando a mocidade a se alienar e fugir para dentro de si mesma e assim evitar, na medida do possível, a mediocridade e a pasmaceira dominantes.

Essa constatação não é só minha, nossos compositores, autores teatrais, escritores, outros jornalistas tornaram-se exímios dribladores da censura do regime militar. Essa capacidade se desenvolvia como um instinto de sobrevivência. Vejo uma diferença marcante, na maneira como escrevo hoje meus textos de crítica ao incompetente e perverso presidente com tendências ditatoriais, apoiado por fiéis religiosos exploradores da fé.

Talvez não seja forte demais dizer que a Ditadura militar tentou emascular boa parte das novas gerações de 1964 a 1985, destruindo muitos dos corajosos determinados a resistir. Mesmo assim, em 1968, apenas dois anos depois da Jovem Guarda, os estudantes estavam de novo nas ruas do Rio de Janeiro para protestar contra o assassinato de Edson Luís, seguindo-se em junho a Passeata dos Cem Mil. A reação dos militares foi em dezembro com o Ato 5 e a criação do DOI-CODI.

Aproveito para incluir um comentário bem apropriado do prof. Edmilson Alves Maia Júnior, da Universidade Estadual do Ceará, no Embornal, de Fortaleza, em 2013, sobre a maneira velada, própria da época da ditadura, como analisei a figura de Roberto Carlos, principalmente quando cantando mandava tudo para o inferno. Ele percebeu haver nas entrelinhas das críticas uma referência indireta ao regime ditatorial militar:

“Lendo o livro vejo muito além de uma crítica da canção, de Roberto Carlos e da Jovem Guarda. Temos o debate de questões-chave daquele momento como “rebelião”, “revolta”, “insatisfação”, “alienação”, “vontade política”, “transformação”, “juventude” e “ação política”. Avalio que o livro debate, tendo como mote a canção, a “ação política” na sociedade em meio aos primeiros anos pós-golpe de 64 (em especial diz que foca na ação do jovem e sua “rebelião romântica”, mas dedica-se a muito mais que isso). Caracteriza e discute a situação da cena política em um momento de instabilidade, onde os muitos sujeitos tateavam formas de avaliar como agir politicamente e precisam fomentar um debate politizado”.

Trecho do livro A rebelião romântica da Jovem Guarda, página 53:

a) A reação dos adultos ao “vá tudo pro inferno”
Uma música em especial exerceu influência decisiva na aceitação do cantor Roberto Carlos pelos diversos grupos etários, tornando-o suficientemente conhecido e consolidando seu sucesso. «Quero que vá tudo pro inferno» chamou a atenção dos adultos para o cantor predileto de seus filhos, pelo fato de ter incorporado à sua letra uma imprecação, bastante usada, mas ainda recebida com certa reserva pelos mais velhos.

Passada, porém, a primeira impressão dos adultos, foram eles mesmos os principais divulgadores da composição que lhes possibilitava uma válvula de escape. O estribilho «e que tudo o mais vá pro inferno» deixou de ser apenas o encontro de uma boa rima para sintetizar o desinteresse da geração moça ante os padrões da sociedade constituída e o desencanto dos adultos diante de uma situação política que não evoluiu na medida de suas expectativas.

A composição, naturalmente, não foi intencional, contudo, incluiu uma frase que todos estavam pensando. A aceitação foi rápida porque todos reconheceram na letra da nova música um pouco de sua autoria, sentindo-se também co-autores.

O mandar alguma coisa para o inferno já faz parte das expressões brasileiras usadas normalmente e expressa bem a atitude de quem, impossibilitado ou cansado de fazer alguma coisa, dela se desinteressa. Tem força de imprecação e sempre revela um descontentamento ou desânimo.

Para os jovens, a expressão representou o retorno a uma posição individualista, de simples defesa dos próprios interesses. Contraposta, portanto, à precedente atitude de preocupação coletiva da «bossa nova», caracterizada por uma oposição construtiva. «Vá tudo pro inferno» sintetizou a posição do jovem que diante de problemas que lhe são apresentados, reage com um «que me importa?», numa demonstração de uma precoce acomodação, de um desinteresse por tudo aquilo que ultrapasse seu desejo de ser «aquecido no inverno», ou seja, de ter suas necessidades individuais satisfeitas.

Para alguns, os versos «quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno» revelam, também, uma irresponsabilidade ética diante do amor, considerado como uma simples aventura temporal e inconseqüente. Nesta interpretação, a atitude imediata, é uma outra demonstração do revigoramento do individualismo entre a juventude «ié-ié-ié».

Entre os adultos, todavia, o motivo determinante da aceitação da música, está ligado à necessidade de desabafo e, de algum modo, a frustrações de ordem política. A classe média, principalmente, que desempenhou papel relevante no movimento contrário ao governo Goulart, não se considera satisfeita com a situação atual e não esconde suas decepções. Isto porque esperava, de imediato, uma atitude mais drástica do governo para com os corruptos e porque se vê atingida, em cheio pela política econômica, responsável pela redução do seu poder aquisitivo.

Assim, os adultos juntaram-se aos jovens no cântico –da melodia que lhes permitiu externar um pouco do seu sentimento. A questão da disponibilidade de liderança aqui também se aplica, pois os seguidores dos líderes esvaziados unem-se aos demais e também desejam que «tudo o mais vá pro inferno»,’ numa demonstração de desinteresse.”(MARTINS,1966).

E retomamos os comentários do prof. Edmilson Alves Maia Júnior:

“Defino esse livro de 79 páginas como um ‘panfleto’ político de sua época, cujos argumentos principais espalharam-se nos jornais, além de ter sido ele mesmo possivelmente bem consumido. Um panfleto que utilizou a repercussão da jovem guarda, de Roberto Carlos e da sua canção-bomba ‘Quero que vá tudo pro inferno’ para participar ativamente de importantes debates da época. Para chamar a atenção para o vácuo do poder político, para se inserir na critica a ditadura de forma velada, para tentar polemizar sobre a situação do país. No panfleto, penso, nem importa tanto a música ‘Quero que vá tudo pro inferno’ e sim utilizá-la como alvo para discutir topicamente a situação da juventude e mais que isso pensar em iniciar uma chamada à reorganização política da sociedade em pleno 1966. Os jovens sua ‘rebelião romântica’ ligada à cultura de massa, estão supostamente no centro do debate, mas sempre a análise desliza para o ‘mundo dos adultos'”.

Nota de rodapé — Quando da saída de Roberto Carlos do programa Jovem Guarda, em janeiro de 1968, o Jornal do Brasil no Rio de janeiro lançou uma ampla reportagem com base nas ideias discutidas em A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, reproduzindo textos inteiros do livro de Rui Martins. Nessa nova reportagem no Rio de Janeiro é feito o de questionamento da duração do mito Roberto Carlos “fabricado pela indústria cultural” e agora fora do programa Jovem Guarda que entrou em declínio. Tendo em vista essas reportagens podemos intuir que as suas ideias acerca da “rebelião romântica” e da música “Quero que vá tudo pro inferno” tiveram excelente divulgação no período.

182 Embornal — Revista Eletrônica da Associação Nacional de História/Seção Ceará Embornal, Fortaleza, V. IV, N. 7, p. 171-195, jan/jun 2013. Seção Artigos.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.