
(Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação)
A jornalista norte-americana Janet Malcolm (1934-2021), tida por maldita e temida por seus entrevistados, teve seu livro de memórias publicado. O livro foi lançado no Brasil, em 2024, pela Companhia das Letras, com o título de Imagens imóveis: sobre fotografia e memória.
Malcolm elegeu uma separação entre a pessoa Janet Malcolm e a Janet Malcom jornalista. O que ela chamou de dois eus, uma espécie de Clark Kent e Super-Homem. E foi esse eu jornalista que ela construiu na prática profissional e que deixou uma mostra no seu trabalho e em poucas declarações e entrevistas que concedeu.
Malcolm atribuiu a uma política da New Yorker uma atuação marcada pela indiferença e superioridade como atitude profissional dos jornalistas da revista, que precisavam ser reservados e discretos, praticar a autoironia e serem engraçados de vez em quando.
Somada a essa demanda da publicação, Malcolm acrescentou como instrumento de trabalho a persistência, a repetição e uma dedicação a reiterados encontros com as pessoas sobre as quais escreveu. Ao colega de trabalho Joseph Mitchell atribuiu a sua escolha pela abordagem em primeira pessoa; e ao seu editor e marido, Gardner Botsford, o talhe da sua escrita.
E foi na prática que desenvolveu o método Malcolm. Uma performance em dois momentos. Uma empática e boa ouvinte, no momento da entrevista; e uma que não é nada condescendente no momento da escrita. Tudo para recuperar a fidelidade do pensamento do entrevistado e a sua forma de expressão. Esse o dever do jornalista.
Para ela, o jornalista deveria sempre ter em mente que jornalismo é sempre sobre o outro. Gravações e notas, portanto, sempre foram subsídios no momento da construção do texto. O uso de longos monólogos sem interrupções, numa linguagem que difere da falada, é o resultado de diversas declarações do entrevistado em determinado período.
Um processo no qual não cabe a imaginação. Há uma premissa do jornalismo que não lhe garante liberdade para criar ou inventar. Essa premissa é a realidade. O jornalista, que ela chama de escritor de não-ficção, deve, portanto, se ater aos fatos e às pessoas que de fato existem. Não cabe enfeite quando o assunto é jornalismo.
Mas o jornalista é humano, portanto, falível. Daí advém o seu entendimento da incompletude do jornalismo. Mesmo que procure a verdade e a objetividade, o jornalismo não as alcança em absoluto. O resultado é uma apropriação do discurso e, no final das contas, a pessoa se torna aquilo que o jornalista escreve sobre ela.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br
