Terça-feira, 20 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

Sobre jornalismo, um manual para repensar a nossa leitura do mundo

(Imagem: Divulgação)

Multitudo. Eis a forma que o jornalismo dá as caras por meio de notícias. Seja em texto, áudio ou vídeo. E o que antes era no papel, agora é na tela. Vindo de todos os cantos, tudo junto e misturado. É esse cenário que interessa a Jana Viscardi no seu livro “Como nos comunicamos importa: Um manual para repensar nossa leitura de mundo” (Planeta, 2025, 160p.).

Nesse burburinho multimídia, a proposta de Viscardi, que é linguista, é partir do texto do jornal para ver como o jornalismo vê e apresenta o mundo e as possibilidades da escrita. É justamente sobre como títulos, manchetes e notícias vêm sendo produzidos pela mídia.

Viscardi elege alguns temas e episódios para discorrer sobre os mecanismos da imprensa e suas abordagens. Cada tema ganha uma parte do livro. Segurança pública, as querelas políticas do mundo ambidestro atual, a violência inesgotável contra as mulheres e o nefasto racismo. Tudo a partir de estudos de caso.

O que Viscardi faz é um acompanhamento da mídia. Um trabalho meio detetive, meio ombudsman. Atenta onde a notícia é veiculada, ou seja, qual veículo, editoria, vocabulário escolhido e imagem que acompanha a matéria. Ela olha para os fatores que revelam, quando se presta atenção, e levam a pensar, sobre as questões que interferem na maneira como a mídia reporta.

Viscardi mostra que os portais de notícia são responsáveis pela forma como decidem enquadrar cada matéria e a maneira de abordar cada episódio. E como isso pode gerar um mau jornalismo, insosso e repetitivo, numa cobertura muitas vezes atordoada e caótica, diante do desejo e da urgência do furo e da audiência. Custe o que custar.

Assim, Viscardi acusa o mau jornalismo, em busca de clique, em busca de audiência, descumprindo o seu papel de informar e refletir sobre os fatos. E, assim, as notícias são fátuas, mal dadas, mal informadas. E a linguagem retrata isso. Longe até dos manuais do qual o jornalismo se vangloria para suas boas práticas.

Ela nos lembra que um texto é sempre uma versão e não uma interpretação única e acabada de um fato. E explica: a forma como se transmite uma informação é uma dentre tantas outras possíveis. É uma escolha.

E dentre essas escolhas, a forma como os jornais optarão por lidar com as manipulações de informação e a consciência de que, e isso infelizmente, entra na dinâmica da desinformação quando seguem por uma dada forma de reportar. Que é o que estão fazendo.

Essa acusação ela traz lá de Bourdieu em seu livro sobre a televisão: o jornalismo é um tanto pasteurizado. Mas isso não é uma condenação. Há solução. E uma delas é abandonar velhos hábitos que vendem velhas formas de pensar e reproduzir preconceitos. É fugir dos discursos hegemônicos.

O aviso é claro. O puxão de orelha é para o jornalismo abrir os olhos e superar as armadilhas desses maniqueísmos latentes na sua forma de expressão. É sair da banalização, sair da superficialidade. No final das contas, é mudar a mensagem. Mas para isso é preciso uma mudança no meio.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br