Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1405

Antes de leitores críticos, precisamos de leitores

(Foto: cottonbro studio?Pexels)

Recentemente me deparei com um vídeo nas redes sociais que me fez refletir bastante sobre essa necessidade cultural e atual de leitura crítica e única, onde ler muitos livros é performático, ler poucos livros é alienação, e para ser considerado letrado e inteligente você precisa ter lido determinados títulos, de preferência bons clássicos ganhadores de prêmios literários e politicamente aceitos entre os acadêmicos e estudiosos.

Sendo bem sincera, eu entendi perfeitamente todos os pontos debatidos no vídeo, e não só isso, eu concordo com tudo que foi dito. Ele apontava na verdade de forma bem coerente sobre a leitura rasa, e essa dificuldade de aprendizagem e senso crítico onde não sabemos interpretar textos, entrelinhas, diferenciar a voz do autor, do narrador e dos personagens, onde cancelamos autores por falas ditas pelo narrador, sem compreender onde se encaixa cada julgamento, e ainda, que esse senso crítico é elitista, e que saber ler é caro. Eu concordo com tudo isso. E, de fato, é verídico que o letramento social dos indivíduos, muito além da pura alfabetização é necessário para uma relação crítica do saber e do conhecimento, e que sem entender e interpretar o que de fato os livros nos dizem fica difícil produzir novos conhecimentos, novas pesquisas e novas ciências.

O ponto é, existem muitos debates hoje em dia sobre o que é ser leitor, qual repertório literário faz de você portador dos grandes conhecimentos, se não ter lido Dostoievski é considerado iniciante e se ler livros eróticos é viciado em pornografia, se ter muitos livros na estante e não ler é meramente consumismo capital, se ler rápido é leitura dinâmica ou se audiobooks podem ser considerados leitura. E para mim, esses debates só fazem com que o hábito da leitura se distancie cada vez mais da população, já que por meio deles a gente acaba perdendo o fio da meada, a essência principal de tudo relacionado a arte e cultura que é: o prazer.

Nós não fomos projetados socialmente para a leitura, nós fomos projetados para trabalhar, sobreviver, produzir e consumir. O grande objetivo do capital é que sequer tenhamos tempo, energia e disposição física e cerebral para sentar e ler, formar frases, opiniões, viver a experiência da sensação de se colocar em outra realidade, em outro universo, se apegar a personagens, dar risada, chorar, SENTIR.

No texto “Literatura e Revolução” (1923), Trotsky aponta com muita clareza o processo de dominação da cultura pela burguesia. Muito antes que o poder e o controle das classes fossem organizados pelo capital, toda bagagem cultural e intelectual já havia sido programada e disciplinada a partir da conjuntura elitista. Essa classe específica é quem dominava a imprensa, o teatro, a música, a dança, o circo, os livros, revistas e jornais, desde o feudalismo, muito antes de dominar todo o lucro produzido a partir da exploração do homem sobre o homem.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que a falta de tempo é o principal fator que os entrevistados citaram para não ler. Com o dia a dia corrido entre trabalho, trânsito e cuidados com a casa e filhos, fica cada vez mais difícil aproveitar o tempo livre. Outras pesquisas apontam que a Região Sul é a única das cinco do país onde ainda há uma maioria de leitores na população: atualmente, 53% dos moradores desses três estados leram total ou parcialmente pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Ou seja, os estados mais privilegiados do país são os que mais leem, e quando existe um boom da internet e das redes sociais na produção de conteúdo sobre livros e os “hypes” do momento, isso é ovacionado como performático e raso.

O que me incomoda é, todo mundo sabe que o incentivo a leitura tem como fato comprovado que ler estimula o cérebro, auxilia no desenvolvimento cognitivo, expande vocabulário e uso de palavras novas, melhora a dicção e a oratória, sensibiliza a empatia, traz questionamento e reflexões, e principalmente, diminui o estresse, alivia a tensão cotidiana, aumenta a criatividade e a imaginação, o que por si só auxilia na construção do pensamento crítico e trabalha em um processo de EMANCIPAÇÃO SOCIAL. Quando pensamos em emancipação, nesse debate, as pessoas acham que isso significa ler conteúdos políticos, clássicos, com crítica social profunda e bagagens acadêmicas por trás. Mas, para muito além disso, a emancipação social é exatamente ter o direito de fazer o que a estrutura não quer que você faça, isso é, descansar a mente, ler um romance e chorar, ler um suspense e trabalhar a imaginação e a curiosidade, ler uma fantasia e se desprender da realidade por um momento. Isso é emancipar o corpo humano de um sistema que só quer que você sobreviva a fim de produzir mais.

Antônio Candido em O Direito à Literatura (in: Vários Escritos) defende a literatura como uma necessidade universal que humaniza e liberta, agindo como um “direito” fundamental, não apenas como ferramenta pedagógica. A arte tem como papel essencial na vida humana encher de objetividade a nossa racionalidade e individualidade, encher de incertezas as nossas convicções, isso não é lindo?

Digo tudo isso porque vejo muitos jovens e muitos dos que não têm o hábito ou o costume ou talvez até o apego e gosto pela leitura terem o desejo de começar, mas se sentirem envergonhados por não possuírem o “repertorio necessário” ou não serem detentores do conhecimento que se deve ter para ser considerado um leitor. E isso, além de triste, não poderia estar mais longe da verdade. Não existem leituras superficiais, rasas ou desnecessárias. O objetivo principal da leitura é sentir, é experienciar. Nós aprendemos e adquirimos conhecimento a partir daí, não o contrário. A habilidade crítica de interpretação e literatura é necessária, principalmente se você é um estudante da área, se você produz conhecimento e pesquisa por exemplo, mas isso não é um pré-requisito para o ato de simplesmente ler. E se apegar a esse discurso afasta leitores iniciantes e aumenta a tendência já permanente de preferir conteúdos rápidos, acelerados e digitais no nosso tempo livre ao invés de sentar-se e ler.

Quando estudamos a fundo a história da ditadura militar no Brasil e os conflitos da literatura, da censura, da queima de livros e bibliotecas, por exemplo, percebemos que o objetivo nunca foi apenas proibir o pensamento crítico de reflexão, mas também o divertimento, o encantamento, o ócio, a distração de uma estrutura capital e governamental que te quer em um lugar específico de exploração.

Ler é um ato de resistência, isso é emancipação, não importa QUAL livro, de que estilo, que gênero, em qual velocidade ou se é físico, no Kindle ou no PDF. Os benefícios da leitura não vêm com título. Saibam disso. Antes de leitores críticos, precisamos de leitores.

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Esther Faria é assistente social, especialista em políticas públicas professora de inglês e estudante de jornalismo. Transita entre a educação, a escuta social e a escrita, também produzindo conteúdos literários e reflexivos para a internet. Seus textos exploram linguagem, sensibilidade e as múltiplas formas de compreender o outro e o mundo.