Há algo estranho na forma como falamos sobre o corpo de Ariana Grande. Não só porque uma mulher adulta deveria ter o direito de existir sem que seu corpo seja julgado publicamente, mas porque essa linguagem revela uma mudança na forma como nos relacionamos com nossos corpos. Vemos fotos, comparamos imagens de diferentes momentos, especulamos sobre alimentação, saúde, envelhecimento, procedimentos estéticos e hábitos. O corpo vira notícia, comentário, vídeo, objeto de investigação — circula separado da pessoa que o habita. Em algum momento, o corpo de Ariana Grande deixa de ser parte dela e se torna um acontecimento midiático em si.
Esse episódio é revelador e não é único. Em agosto de 2026, Ariana anunciou afastamento do público após sua Eternal Sunshine Tour, citando o “escrutínio público contínuo”. A decisão veio após meses de atenção sobre sua aparência, especialmente com imagens do videoclipe “petal”. O The Guardian publicou um texto chamado “Is it OK to talk about Ariana Grande’s body? There is no right answer”. O título já mostra a armadilha: discutir o corpo em público coloca a gente na lógica da exposição. O jornal liga a controvérsia à valorização da extrema magreza e à circulação de conteúdos ligados à anorexia nas redes.
O problema não é decidir se devemos falar do corpo de Ariana. Essa discussão corre o risco de ficar na superfície. A pergunta que interessa é outra: por que sentimos tanta necessidade de falar sobre o corpo dos outros? O que há numa foto de uma celebridade que nos faz acreditar que podemos examiná-la, compará-la e transformá-la em objeto de especulação? E o que essa necessidade diz sobre a cultura em que vivemos? O caso Ariana talvez importe menos pelo que revela sobre ela e mais pelo que expõe a transformação do corpo em imagem, informação, mercadoria, ativo midiático e objeto de vigilância.
Não se trata de abandonar o corpo ou propor que as pessoas deixem de se cuidar. Gosto por maquiagem, roupas, academia, alimentação saudável, procedimentos estéticos, moda e beleza não é problema. O problema está na função do corpo na experiência da pessoa. Existe diferença entre cuidar do corpo porque é nele que vivemos e cuidar dele porque virou projeto de aprovação. Entre um corpo vivido e um corpo observado. Entre um corpo para viver e um corpo para ser visto.
Podemos chamar de corpo vivido aquele que corre, dança, sente frio, fome, prazer, tropeça, abraça, toca, deseja e experimenta o mundo. A criança pequena não vê o corpo como imagem, mas como possibilidade — correr rápido, pular alto, girar até cair, brincar de esconder, inventar uma dança. Antes de olhar o corpo, a criança vive através dele. O corpo é meio de descoberta.
Essa dimensão do brincar permite pensar o corpo para além da aparência. Brincar não é só exibir o corpo; é produzir experiência. A criança aprende o peso das coisas, equilíbrio, distância, força, temperatura. Aprende que o corpo é relação: correr com outro, abraçar, empurrar, esconder-se. Brincar é forma de presença no mundo. O corpo da criança é, antes de tudo, um corpo que faz.
Essa relação começa a mudar quando a criança percebe que seu corpo pode ser visto pelos outros. O olhar alheio invade a experiência. A pergunta “o que faço com meu corpo?” convive com “como estou sendo visto?”. Isso não vem só das redes sociais. Família, escola, publicidade, moda, cultura de celebridade e relações sociais constroem esse olhar. As redes digitais só ampliam a escala.
Chamo esse processo de descorporificação. Não é perder o corpo, mas afastar-se da experiência corporal imediata. O corpo continua, mas vira objeto de observação: olho, avalio, corrijo, fotografo, comparo e antecipo como serei visto. Olhamos para nós mesmos de fora. O corpo, que é lugar de viver, vira superfície para ser avaliada.
As redes sociais tornam isso mais intenso porque nos vemos enquanto somos vistos. Com a câmera frontal, escolhemos ângulo, luz, pose, roupa, filtro, momento para mostrar uma versão nossa. Não só registramos, produzimos uma versão para circular. Viramos hologramas de nós mesmos: corpóreos, mas cuja presença social depende de imagem cuidadosamente construída. O corpo real sente dor, envelhece, cansa; o digital pode ser editado e medido por curtidas.
Essa transformação muda nossa experiência. Passamos a perguntar: “Como isso aparece?” mais do que “O que eu vivo?”. Refeição vira foto; viagem, conteúdo; atividade física, imagem; brincadeira, registro. A experiência precisa de testemunha. Numa cultura onde o que não circula parece menos real, o corpo é pressionado a produzir sua representação.
O livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, ajuda a compreender. A distopia mostra uma sociedade que perdeu o desejo por demora, atenção e reflexão. Telas e estímulos constantes substituem a experiência profunda. A pergunta do livro – o que acontece com a experiência quando ela vira distração? – é útil para entender o corpo hoje.
Não porque não temos corpo, mas porque estamos ocupados demais em observar, registrar e administrar o corpo. Não é a tecnologia em si, mas o que ela faz com a experiência. O corpo vira superfície pronta para ser fotografada, filmada, comparada, postada e julgada.
A contradição é clara: nunca falamos tanto do corpo e talvez nunca estivéssemos tão distantes dele. Academias, apps, cosméticos, procedimentos, dieta, relógios, filtros e indústria da aparência são enormes. O corpo é central na cultura, mas pode ser cada vez mais solitário. A obsessão é preocupante, mas vivemos sob um olhar externo.
Por isso, a ideia do corpo como projeto é chave, pois projeto nunca acaba. Sempre tem algo a corrigir, melhorar, esconder. Isso cria insatisfação contínua: se o corpo pode ser mudado, qualquer diferença vira falha. Corpo deixa de ser condição de existência e vira tarefa. Tarefa eterna é ótima para o mercado que oferece produtos, serviços e promessas.
No sistema, o corpo de celebridades ganha papel poderoso. Não é só corpo, é imagem economicamente valorizada, em capas, campanhas, videoclipes, entrevistas e redes sociais. Atrai atenção, que é ativo valioso na nossa Economia da Atenção. O corpo de Ariana é dividendo: sua aparência gera circulação, engajamento, controvérsia e valor econômico. Não é só parte dela; é superfície para projeções da indústria e do público.
Mas isso é muito inquietante. Corpo não é ação na bolsa. Não sobe ou cai conforme a tendência. Não existe para gerar engajamento. E não deve ser separado de quem o habita. Falar do corpo dela como objeto revela quanto esquecemos que há uma pessoa ali.
O texto do The Guardian é importante porque mostra a contradição: transtornos alimentares precisam ser discutidos, padrões corporais podem ser criticados, mas expor corpos reais alimenta uma cultura de vigilância. Não é silêncio ou excesso, é saber que há diferença entre analisar uma estrutura e consumir uma pessoa como imagem.
Essa distinção falta no debate. Quando uma celebridade emagrece, a primeira pergunta é “O que houve com ela?” Mas a pergunta certa talvez seja: “O que aconteceu conosco para que o corpo dos outros seja questão urgente para nós?” O corpo de Ariana é bom para pensar mídia, mas não deve virar diagnóstico coletivo. Não sabemos e nem precisamos saber tudo sobre o corpo alheio. Podemos analisar a produção social de discursos e sua audiência.
Essa mudança é urgente para pensar as crianças. Se a cultura desde cedo ensina que o corpo é para ser visto, vigiado e apresentado, não espanta que adolescentes vivam o corpo como currículo visual. Corpo precisa falar sobre quem somos antes que saibamos quem somos. Meninas e meninos aprendem padrões de avaliação e masculinidade. Infância é atravessada por expectativas que transformam o corpo em representação social.
Por isso o brincar importa. Defender o brincar é defender espaço onde corpo é experiência, não imagem. Criança que corre não precisa ser bonita enquanto corre. Que pula, dança, brinca, está usando o corpo para estar no mundo. Isso é liberdade, cada vez mais rara.
Precisamos distinguir conhecer o corpo e vigiar o corpo. Conhecer o corpo é sentir fome, cansaço, prazer, dor, movimento, limites. Vigiar é transformar em comparação permanente. Conhecer permite habitar; vigiar cria distância. Conhecer é experimentar; vigiar é antecipar julgamento. O primeiro pode ter cuidado estético; o segundo subordina o cuidado à aprovação.
Talvez nosso problema não seja gostar demais do corpo, mas gostar dele só como imagem. Nunca tivemos tanto olhar sobre o corpo e talvez precisemos reaprender a senti-lo. Nunca produzimos tantas imagens e precisamos perguntar: o que acontece com o que não pode ser fotografado? O prazer de correr sem registrar, água na pele, abraço sem postar, dança não vista, brincar sem conteúdo.
No fim, o que importa é devolver ao corpo a experiência que a cultura da imagem ameaça tirar. Corpo não é só o que os outros veem. É onde alguém vê, sente, deseja, brinca, trabalha, sofre, ama, envelhece e vive. Esquecer disso torna o corpo estranho para quem o tem. Ele está ali, mas vira objeto de outra pessoa.
Essa é a descorporificação: não perder o corpo, mas perder a intimidade do viver dentro dele. E por isso o debate precisa começar na infância, no brincar, quando o corpo é possibilidade, não projeto; quando a criança pergunta o que pode fazer com ele, não como será vista; quando correr é só correr, não fazer foto. Afinal, antes do espelho, havia o corpo. Antes da foto, havia a experiência. Antes da curtida, havia o brincar.
Nosso desafio hoje não é ensinar a amar o corpo — que vira produto cultural —, mas ensiná-lo a ser habitado de novo.
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Marina Lee Colbachini é Doutoranda do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Professora de inglês e redação.
